Literatura Brasileira I - Conteúdo Online
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do autor, há que se considerar as traduções livres de Quevedo e Gôngora, que aumentam a sua bibliografia. Como vermos, a obra de Gregório suscita, por si só, grande polêmica. No entanto, é importante destacar que a noção de autoria não tinha no século XVII o mesmo valor que tem hoje.
Composta por sátiras, poemas religiosos, líricos e amorosos, a obra de Gregório revela sua mestria técnica e agilidade verbal, inclusive empregando palavras da língua tupi, como podemos observar no poema a seguir:
AOS CARAMURUS DA BAHIA
Um calção de pindoba, a meia zorra,
Camisa de urucu, mantéu de arara,
Em lugar de cotó arco e taquara
Penacho de guarás em vez de gorra.
Furado o beiço, e sem temor que morra
O pai, que lho envasou Cuma titara
Porém a Mãe a pedra lhe aplicara
Por reprimir-lhe o sangue que não corra.
Alarve sem razão, bruto sem fé,
Sem mais leis que a do gosto, quando erra
De Paiaiá tornou-se em abaité.
Não sei onde acabou, ou em que guerra:
Só sei que deste Adão de Massapé
Procedem os fidalgos desta terra.
No poema, observa-se a crítica dura e impiedosa aos \u201cnobres\u201d da Colônia, os \u201ccaramurus\u201d, os novos-ricos que detinham o poder econômico e político no Brasil colonial. A verve do esgrimista impiedoso das palavras rendeu-lhe o apelido Boca do Inferno.
Note também que o ponto de vista de Gregório é o de um descendente nobre de uma família de proprietários de terras e engenho, cujos bens foram se perdendo, restando-lhes apenas a memória de fidalguia. O poeta assume, assim, o tom amargo ao expor as suas críticas à mestiçagem, mas também à corrupção e tematiza o rancor de um reinol de alta estirpe, injustiçado pela ralé que governa a Colônia.
À BAHIA
Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi e já, tu a mi abundante.
A ti trocou-te a máquina mercante, 
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocado e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante.
Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.
Oh! Se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!
\u201cUma primeira aproximação ao texto, de caráter abrangente, encontra dois movimentos de sentido oposto. Pelo primeiro, o eu lírico entra em simpatia com o tu, a cidade da Bahia, animada e personalizada. Pelo segundo, vem a separação: o eu, agora juiz, invoca um castigo para o outro, chamando a intervenção de uma terceira pessoa, Deus, mediador poderoso e capaz de executar a pena merecida. A primeira onde significação move os quartetos; a segunda, os tercetos.\u201d (BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 94-95)
TEMPO A CIDADE DA BAHIA
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um bem frequente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,
Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres:
E eis aqui a cidade da Bahia
(BUENO, Alexei. Uma história da poesia brasileira. Rio de Janeiro: G. Ermakkoff Casa Editorial, 2007. p. 25)
Destacam-se, na obra gregoriana os poemas religiosos cujos matizes barrocos podem ser assinalados. Embora a autoria seja questionada devido à semelhança com poemas de outros autores da época, a beleza dos versos e a riqueza estilística merecem atenção. Como no poema A Jesus Cristo Nosso Senhor.
A JESUS CRISTO NOSSO SENHOR 
Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque, quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
 
Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirma na sacra história,
 
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
(BUENO, Alexei. Uma história da poesia brasileira. Rio de Janeiro: G. Ermakkoff Casa Editorial, 2007. p.31)
Nesse soneto, é perceptível a tensão barroca mediante o uso de figuras de linguagem como os pares antitéticos: peca/perdoar e lisonja/ofensa. No entanto, a força do poema reside no tom argumentativo com que pretende convencer Deus de sua salvação.
O eu lírico vai buscar nas sagradas escrituras o exemplo que servirá de precedente: o episódio da ovelha desgarrada. Por analogia, a salvação de sua alma pecadora seria motivo de glória para Deus; e se pecava tanto, era por acreditar que seria perdoado, já que a condenação poderia significar a perda da glória divina.
Veja que o tom de oração recobre a petição do \u201cadvogado\u201d, cujo talento argumentativo se coloca a serviço da salvação da alma, conscientemente pecadora.
A lírica amorosa e filosófica de Gregório de Matos conta com significativa produção, em sua maioria de sonetos de inspiração camoniana. São temas comuns: a transitoriedade da vida, considerações sobre o ciúme, o silêncio e as declarações amorosas.
AOS AFETOS E LÁGRIMAS DERRAMADAS NA AUSÊNCIA DA DAMA A QUEM QUERIA BEM
Ardor em firme coração nascido;
Pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:
Tu, que em um peito abrasas escondido;
Tu, que em um rosto corres desatado;
Quando fogo, em cristais aprisionado;
Quando cristal em chamas derretido.
Se és fogo como passas brandamente,
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai, que andou Amor em ti prudente!
Pois para temperar a tirania,
Como quis que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu parecesse a chama fria.
(MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos/Gregório de Matos; seleção e organização José  Miguel Wisnik. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p.222)
A beleza da descrição da lágrima metaforizada
A beleza da descrição da lágrima metaforizada em fogo e neve, expressões antitéticas, desenvolve, ao longo do soneto, o lamento do eu lírico que pondera sobre o paradoxo do sentimento amoroso.
A primeira estrofe apresenta, nos dois últimos versos, a estrutura quiasmática1 que reforça o contraste, mediante o espelhamento:
Incêndio				em mares de água disfarçado
Rio de neve					em fogo convertido
1 Quiasmática provém do quiasma, que trata-se de uma figura estilística pela qual pode-se perceber o cruzamento, formando um movimento semelhante à letra X (qui, letra do alfabeto grego).
O mesmo procedimento se percebe também nos dois últimos versos da segunda estrofe, onde o vocativo \u201ctu\u201d, a quem se dirige o poeta, são as lágrimas que sintetizam essa dualidade.
Na terceira estrofe, o questionamento do eu lírico se responde, pois é o Amor que torna possível o paradoxo do fogo, que simboliza a paixão e o desejo, a ser sublimado pelo sentimento amoroso de castidade e pureza, representada pela neve \u2013 como se lê na quarta estrofe.
Como vimos, a importância da poesia de Gregório de Matos se consolida não apenas pela variedade ou volume de obras, mas principalmente por apresentar os traços da literatura que inaugura: a hibridez, a intensidade e a conciliação.
Pensar a literatura brasileira é também refletir sobre a maneira especial, própria da cultura de nosso povo, de compreender e expressar os sentimentos e angústias humanas. Assim como fizeram os autores do século XVII e como fazemos nós no século XXI.
AULA 4 \u2013 O BARROCO (CONTEXTO): TENSÕES E EXPRESSÕES
Sobre a Idade Média
Para compreender a complexidade do período Barroco, antes devemos retroceder no tempo e tentar compreender os anseios do homem dos