Literatura Hispano-Americana - Conteúdo Online

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são os temas mais recorridos na narrativa contemporânea. 
A característica que mais se destaca no novo romance é a sublevação que representa contra a 
antiga tradição realista, a passagem do mimético ao simbólico. Há uma aspiração a ascender a 
um nível de realidade menos evidente, mas infinitamente mais certo, porque, agora, 
entendido na sua multiplicidade. Entre os resultados da negação do realismo tradicional, 
temos: 
\u2022 Desaparecimento do velho romance \u201ccriollista\u201d, de tema rural, e a emergência do neo-
indigenismo; 
\u2022 O desaparecimento do romance \u201ccomprometido\u201d e a emergência do romance 
metafísico \u2013 em vez de mostrar a injustiça e a desigualdade social com o propósito de 
criticá-las, o romance agora tende, cada vez mais, a explorar a condição humana e a 
angústia do homem contemporâneo, em sua busca por novos valores; 
\u2022 Tendência a subordinação da imaginação à fantasia criadora e a mitificação da 
realidade; 
\u2022 Tendência a enfatizar os aspectos ambíguos, irracionais e misteriosos da realidade e da 
personalidade, desembocando, muita das vezes, no absurdo como metáfora da 
existência humana; 
\u2022 Merecem destaque o humor (que trabalha com o trágico, com o satírico) e o erotismo 
exasperado, formas de comportamento sexual consideradas aberrantes, como o tema 
do incesto \u2013 em vários autores se revela claramente a intenção de lançar mão do 
erótico para o ataque a certos aspectos da sociedade burguesa, e para simbolizar a 
degradação de uma sociedade que privilegia o machismo brutal, a agressão sexual; 
\u2022 Ênfase nos aspectos animalescos do comportamento humano; 
\u2022 A presença de uma natureza selvática. 
Torna-se claro que o ceticismo da maioria dos novos romancistas, quanto à possibilidade de 
compreender a realidade, faz parte de uma crise mais profunda de valores espirituais. Daí o 
intenso pessimismo de grande parte dos romances. A este pessimismo, associa-se: 
\u2022 A tendência a desconfiar do conceito de amor como suporte da existência \u2013 ênfase na 
incomunicabilidade e solidão do indivíduo. Citamos como exemplo a obra de Gabriel 
García Márquez, Cem anos de solidão, romance que marca a passagem de sete 
gerações, uma vida familiar que dura cem anos de incomunicabilidade; 
\u2022 Sublevação contra toda tentativa unívoca de representação da realidade, quer a 
exterior aos personagens, quer a realidade interior, psicológica; 
\u2022 Obras essencialmente abertas, que oferecem uma possibilidade múltipla de leituras; 
\u2022 A perda do valor do conceito da morte, num mundo que já é por si mesmo infernal; 
\u2022 A rebelião contra toda forma de tabus morais, sobretudo os relacionados com a religião 
e a sexualidade. Citamos aqui, como exemplo, as obras do escritor argentino Manuel 
Puig, autor do livro O beijo da mulher aranha. 
Podemos, entretanto, traçar uma linha entre eles: o romance atual, ao contrário do romance 
tradicional que via o homem em seu exterior, sabe que o homem \u201cexiste\u201d, que ele \u201cé\u201d 
rodeado por uma sociedade e está imerso nela. 
O romancista pós-Rubén Darío dá à linguagem uma função criadora, cheia de caracteres 
complexos e ambíguos. 
Assim, o romance, qualquer romance, tem a tarefa de modificar os hábitos perceptivos do 
leitor, de deixá-lo angustiado frente à multiplicidade de perspectivas que condensa a vida do 
mundo. 
Se passarmos do estudo do \u201ccontudo\u201d do novo romance à consideração de sua forma, vamos 
perceber que poderemos catalogar importantes inovações técnicas. Talvez as mais evidentes 
sejam: 
\u2022 Tendência a abandonar a estrutura linear, ordenada e lógica, típica da novela 
tradicional \u2013 a estrutura do romance agora está baseada na evolução espiritual e 
psicológica dos personagens, e esta estrutura reflete a multiplicidade do real; 
\u2022 Tendência a subverter o tempo cronológico, linear (o mais importante passa a ser o 
tempo psicológico, interior); 
\u2022 Abandono dos cenários realistas, por espaços imaginários; 
\u2022 Abandono do narrador onisciente por vários narradores múltiplos e ambíguos; 
\u2022 Emprego maior de elementos simbólicos; 
\u2022 A metalinguagem (discute-se a narração, dentro da própria narração); 
\u2022 Visão da arte como jogo: a busca do prazer da palavra; 
\u2022 Assimilação de vários discursos, de várias linguagens: A intertextualidade. Além de 
trabalhar com o fragmento, com a técnica do recorte de informações, de textos. 
A literatura é o lugar onde nasce um sentido que não existiria de outra forma. A junção destes 
elementos catalogados, que compõem esta nova narrativa, vai culminar na estética da 
Literatura Fantástica. O romance é uma categoria em processo permanente. Na literatura 
realista, tradicional, há uma identificação entre a realidade ficcional e a do mundo 
circundante. Nela o artista trabalha como se usasse uma câmara fotográfica: para cada 
significante há, geralmente, um único significado. É basicamente o discurso do \u201cdito\u201d. 
Na ficção contemporânea de Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Carlos Fuentes e García 
Márquez, ocorre uma recriação do surreal, pois, além da invenção de uma realidade, cria-se 
uma outra em cima desta: a fantástica. Nesta, o escritor apreende a realidade em seu 
dinamismo e não como categoria fechada. 
A literatura fantástica apresenta o discurso aberto da pluralidade de significados, 
estabelecendo-se a ambigüidade. Nela, as coisas \u201cexistem\u201d antes de significar. Nesta narrativa 
há a exigência de um leitor ativo que trabalhe tanto como o escritor. 
A nova narrativa pertence a uma experiência da realidade que está ligada a um sentimento 
lingüístico, que liberta a prosa de uma análise factual, levando-a para o campo das tentativas, 
da sugestão, da intuição. A linguagem passa a integrar o próprio tecido do pensamento. Há 
uma impossibilidade de dizer coisas novas na passagem da linguagem cotidiana à formal. 
Entretanto, o discurso aberto é constituinte da ambigüidade da linguagem, numa pluralidade 
de significados que convivem em um só significante, visto que pode ser dito, escrito e 
reescrito por uma infinidade de pessoas de vidas opostas, realidades distintas. E o fantástico 
se apresenta como o lugar da diferença absoluta, da prova de que o eu é um outro. 
Sin palabra común no hay poema; sin palabra poética, tampoco hay sociedad, Estado, Iglesia 
o comunidad alguna. (PAZ, Octavio. El arco y la lira. p. 186.) 
AULA 10 \u2013 O ESTRANHO, O MARAVILHOSO E O FANTÁSTICO: 
OBSERVANDO AS NARRATIVAS DE BORGES, GARCÍA MÁRQUEZ, 
HORACIO QUIROGA, MANUEL PUIG E CARLOS 
O Fantástico se estabelece num clima real, violentado pela irrupção insólita da lógica. Cenas 
banais são rasgadas, dentro de uma narrativa, por um episódio insólito, absurdo, sem 
explicação. Este tipo de episódio altera uma ordem prevista pelo leitor, expondo uma 
dimensão estranha do real. 
O acontecimento deste tipo de fato, dentro do conto ou romance (novela), causa um 
estranhamento no leitor, mas nem sempre nos personagens. O leitor fica angustiado com os 
acontecimentos, não os personagens. Esta é uma das marcas da literatura fantástica. 
Denomina-se literatura fantástica a que utiliza o nível onírico ou sobrenatural para envolver o 
leitor em clima de magia e capacitá-lo a perceber a multiplicidade de planos que possui a 
existência, pois esta não está resumida à realidade vivenciada pelo leitor. 
Segundo Todorov, em Introdução à literatura fantástica, três condições são necessárias para a 
existência do Fantástico: 
\u2022 A exigência no texto de o leitor considerar o mundo dos personagens como o de 
pessoas vivas e hesitar entre uma explicação natural e sobrenatural para os fatos; 
\u2022 Hesitação também por parte do personagem (em algumas situações, nem sempre); 
\u2022 A adoção de uma leitura que não seja poética, nem alegórica. 
A Literatura Fantástica, também conhecida como Realismo Mágico, instala-se entre o