Literatura Hispano-Americana - Conteúdo Online

Literatura Hispano-Americana - Conteúdo Online


DisciplinaLiteratura Hispano-americana266 materiais1.186 seguidores
Pré-visualização12 páginas
no concurso literário de 1914. 
Porém, não se limitou à análise de sua problemática individual. Rompeu a constante análise 
do \u201ceu\u201d e passou a olhar para o \u201coutro\u201d, colocando a sua escrita a serviço das mais nobres 
causas. 
Encheu seus versos de vida e de sentimentos autênticos. Afirma em um de seus poemas que 
\u201cuma canción es uma herida de amor que nos abrieron lãs cosas\u201d. São temas recorrentes em 
sua obra: o amor pelos humildes e um interesse amplo por toda a humanidade. No caminho 
de sua escrita, há uma simplicidade expressiva na qual se desfaz do excesso da decoração 
modernista, dos virtuosismos formais e dos artifícios retóricos, para se preocupar com o 
poético, gritando através de seus versos contra toda sorte de injustiça social. 
AULA 7 \u2013 OS MOVIMENTOS DE VANGUARDA: AS POESIAS DE JORGE LUIS 
BORGES E NICOLÁS GUILLÉN 
É preciso lembrar que o nome de \u201cVanguarda\u201d é dado aos movimentos literários e artísticos 
que, de modo geral, se estenderam dos inícios do século XX até, mais ou menos, o 
Surrealismo, surgido, aproximadamente, em 1924. O Surrealismo é considerado o último 
movimento de vanguarda. 
A seguir, vamos conhecer alguns dos principais nomes deste período dentro do vanguardismo 
hispano-americano. 
O Vanguardismo na Hispano-América 
Os poetas da vanguarda adotaram posição distinta. Adotaram técnica desintegradora da 
paisagem e, principalmente, do homem argentino, buscando destacar a essencialidade da 
criação. 
A melhor descrição da arte de Vanguarda é o conceito de \u201cobra aberta\u201d, de Umberto Eco 
(L\u2019Oeuvre, Edit. Du Seuil, Paris, 1965). Para este escritor, \u201ca obra de arte é uma mensagem 
fundamental ambígua, uma pluralidade de significados que coexistem num só significante\u201d. 
Na obra contemporânea \u2013 quando estudaremos Cortázar, García Márquez -, a pluralidade de 
significados é ainda maior. E, para realizar esta ambiguidade, os artistas recorrem 
frequentemente ao informe, à desordem, ao acaso, à indeterminação dos finais e resultados, 
contando sempre, é claro, com a participação ativa do leitor. 
Esta expressão artística descontínua, daquele mundo tradicional, elaborado pela ciência 
moderna, busca \u201creconstruir\u201d, no nível da criação artística e imagística, formas que expressem 
o homem contemporâneo: seus anseios, lutas, alegrias e frustrações. 
A Poesia de Vanguarda Hispano-Americana 
Segundo a Prof.ª Bella Jozef, a nova sensibilidade poética \u201cé um reflexo do Ultraísmo espanhol 
e do Criacionismo, do Futurismo italiano e outros ismos franceses\u201d, que se combinou a uma 
poesia de espírito argentino e portenho. Uma renovação dentro do viver local hispânico, que 
culminou no \u201cmartinfierrismo\u201d. 
Por volta do ano de 1925, o principal objetivo dos poetas \u201cimaginistas\u201d era a poesia em si, 
sem transcendência, como busca do novo. Junto do Ultraísmo acrescenta-se o Surrealismo 
com sua aspiração à libertação de forças obscuras, mais espontâneas do ser, ainda não 
expressas livremente nos poemas. 
A poesia passa a ser valorizada por si mesma. Os poetas querem apenas \u201cser poetas\u201d. 
Jorge Luis Borges (Argentina, 1899-1986) 
Por sua imensa cultura de conhecedor de várias línguas e suas respectivas literaturas (línguas 
latinas, inglesa, alemã), os poemas de Borges são os que melhor exemplificam este período 
de compenetração de valores estéticos com a realidade argentina e sua história. 
Escritor de poemas, ensaios e, sobretudo, de contos (nunca quis escrever narrativas longas), 
sua obra impressiona pela mistura inusitada de erudição, conhecimento e criatividade. 
Explorador incondicional da \u201cirrealidade\u201d, construiu uma linguagem própria, cheia de símbolos, 
e com ela uma realidade que se confunde com o sonho. 
Para Borges, o mundo não passa de... indecifrável, é um labirinto, é múltiplo, 
infinito... 
Borges era dono de imensa cultura. Estudou em Genebra, impregnado de clássicos universais 
(Schopenhauer, De Quincey, Stevenson, Shaw, entre outros) que, segundo confissão, relia 
continuamente. Sua obra é fruto desta formação. 
Apresentou contribuição pessoal inestimável e inegável à produção literária hispânica e 
universal. O próprio García Márquez afirmou que \u201capesar de detestar Borges, carregaria um 
livro seu por toda a vida\u201d. Em sua estreia na ficção, com o livro O nome da rosa, o escritor 
Umberto Eco cria um personagem em homenagem a Borges: o enigmático Jorge de Burgos, 
monge cego, guardião da biblioteca do mosteiro beneditino, no qual se passa a história do 
romance. Na adaptação deste livro levada ao cinema, há esta cena inspirada em Borges. 
Segundo a Prof.ª Bella Jozef, \u201ca ficção do século XX não poderia explicar-se sem Borges e 
ficaria incompleta sem ele\u201d. 
Algumas Características da Poesia Borgiana 
Para ler o texto borgiano, é preciso abandonar a busca de uma significação que concerne 
apenas a lógica. 
O texto de Borges não remete a nada fora dele. O questionamento que faz da linguagem e do 
universo, a metaforização do mundo e do homem, em uma conformação labiríntica, 
constroem uma literatura que é signo de si mesma. 
O temo do universo é o predileto de Borges. 
\u201cDe los muchos instrumentos inventados por el hombre, creo que ninguno puede compararse, 
siquiera de lejos, côn el libro.\u201d (BORGES. Biblioteca, libros y lectura) 
Há, dessa forma, uma série de recursos simbólicos utilizados na escrita de Jorge Luis Borges. 
Alguns deles: 
\uf0b7 A negação do tempo: para Borges o tempo é uma ilusão, uma convenção. O único 
instante apreensível é o presente, o agora. O tempo é a ruína da vida. É a presença da 
morte. A cada momento vivido, o homem aproxima-se mais da morte. 
\uf0b7 A negação da realidade: a realidade é confusa e desorganizada, o universo é 
incompreensível. A ficção, não, pois ela pressupõe uma ordem atemporal, que absorve 
o instante. 
\uf0b7 O labirinto como metáfora do mundo: o labirinto é uma metáfora da existência humana 
e do lado obscuro do mundo. O mundo é o caos. O labirinto aplica-se à trajetória do 
homem, ao sonho, ao jogo, para indicar a imprevisibilidade. Funciona como um 
símbolo da perdição. 
\uf0b7 A roda e o labirinto: representam o eterno retorno. 
\uf0b7 O espelho: refutação da metafísica e a condenação do ceticismo. Multiplica a realidade, 
confere-lhe um grau atormentador de \u201cirrealidade\u201d. Revela o \u201coutro\u201d que se observa no 
reflexo. 
\uf0b7 O duplo: um dos temas recorrentes, obsessivos em Borges. 
\uf0b7 O tigre: símbolo do inalcançável, exemplo de beleza e crueldade. 
\uf0b7 O sonho: através do sonho, transpomo-nos a outras realidades e nos afastamos das 
falsas dimensões do que nos oprime. 
Nicolás Guillén (Cuba, 1902-1989) 
Sua voz é considerada a grande anunciadora do reino afro-caribenho. Para penetrar nos 
meandros de sua Cuba mestiça sem cair em maniqueísmos, Guillén lançou mão do conceito de 
\u201ctransculturação\u201d de seu compatriota Fernando Ortiz, antropólogo e folclorista. Este conceito 
inaugura uma nova visão a respeito da convergência de culturas em nossa América. 
Para Ortiz, \u201ctransculturação\u201d expressa muito bem as diferentes fases do processo de transição 
de uma cultura a outra. Este processo não quer dizer \u201cadquirir uma cultura\u201d, como a rigor 
indica a palavra \u201caculturação\u201d. Indica, sim, uma síntese de elementos, que envolve a perda 
parcial de costumes, ritos, etc., somada à criação de novos fenômenos culturais. 
Neste processo, surge um fenômeno novo, original e independente. E esta cultura resultante 
foi magistralmente captada por Guillén em suas poesias. Nelas, o escritor deu categoria lírica 
ao mundo cubano, afro-caribenho, sem esquecer suas tradições, sendo autêntico. 
Vida e Obra 
Nicolás Cristóbal Guillén Batista nasceu em Camaguey, capital da província cubana. Na década 
de 50, sua família tinha um elevado nível social e cultural e pertencia a uma burguesia negra. 
A revolta política de 1917, em Cuba, arruinou a sua