Teoria da Literatura II - Conteúdo Online
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Outra proposta dos formalistas russos é o estranhamento, característica imanente ao texto 
poético. 
Uma nuvem de calças (fragmento) 
 
Glorifica-me! 
Os grandes não se comparam a mim. 
Em cada coisa que eles conseguiram 
Eu carimbo um nada. 
 
Eu nunca quero 
ler nada. 
Livros? 
O que são livros! 
 
Antes eu acreditava 
que os livros eram feitos assim: 
um poeta vinha, 
abria levemente os lábios, 
e disparava louco numa canção. 
 
Por favor! 
Mas parece, 
que antes de se lançarem numa canção, 
os poetas têm de andar por dias com os pés em calos, 
e o peixe lento da imaginação, 
lateja ligeiro no bater do coração. 
E enquanto, com a filigrana da rima, eles cozem uma sopa 
de amor e rouxinóis, 
a estrada sem língua apenas sucumbe 
por não ter nada a gritar ou a dizer. 
 
(...) 
O Argumento 
Nesse processo, o autor consegue promover no leitor a \u2015desautomatizaçao\u2016, ou seja, causa no 
leitor um desconforto ao retirá-lo do senso comum da comunicação, levando-o a deparar-se 
com a \u2015consciência linguística da literatura.\u2016 
A Leitura 
O autor Ivan Teixeira, no ensaio intitulado \u2015O Formalismo Russo\u2016, destaca esse efeito 
combinatório de signos, explicando que \u2015o desconforto dos enunciados inovadores integra o 
complexo de propriedades que atribuem valor estético ao texto\u2016. 
Evidenciamos, no fragmento do poema \u2015A nuvem de calças\u2016, do escritor russo Vladimir 
Maiakovski, esse processo de estranhamento (ostranenie), tendo em vista as combinações 
inusitadas entre os signos utilizados. 
A Análise 
Evidenciamos, no fragmento do poema \u2015A nuvem de calças\u2016, do escritor russo Vladimir 
Maiakovski, esse processo de estranhamento (ostranenie), tendo em vista as combinações 
inusitadas entre os signos utilizados. 
O poema de Maiakovski exige do leitor algum conhecimento dos processos de criação literária, 
a fim de que ele seja instigado a desvendar a imprevisibilidade do texto, buscando, através da 
análise, compreender o efeito estético que causou estranhamento no ato da leitura. O título 
do texto já anuncia a proposta estética elaborada pelo poeta: \u2015Uma nuvem de calças\u2016. Ao 
associar os signos \u2015nuvem\u2016 e \u2015calças\u2016, o autor obriga o leitor a desfazer-se temporariamente 
da imagem acionada comumente na imaginação ao ouvir/ler o signo \u2015nuvem\u2016: leveza, 
distanciamento, volatilidade etc. 
O poema de Maiakovski exige do leitor algum conhecimento dos processos de criação literária, 
a fim de que ele seja instigado a desvendar a imprevisibilidade do texto, buscando, através da 
análise, compreender o efeito estético que causou estranhamento no ato da leitura. O título 
do texto já anuncia a proposta estética elaborada pelo poeta: \u2015Uma nuvem de calças\u2016. Ao 
associar os signos \u2015nuvem\u2016 e \u2015calças\u2016, o autor obriga o leitor a desfazer-se temporariamente 
da imagem acionada comumente na imaginação ao ouvir/ler o signo \u2015nuvem\u2016: leveza, 
distanciamento, volatilidade etc. 
Explicação Expandida 
O conceito de \u201cestranhamento\u201d, proposto por Victor Chklovski, contradiz uma ideia 
anterior sugerida pelo teórico Aleksandr Potebnia e adotada pelos poetas 
simbolistas, segundo a qual a função da literatura é agrupar imagens heterogêneas e 
explicar o desconhecido pelo conhecido. Potebnia cunhou a sentença que marcou o início dos 
estudos de teoria literária: \u2015A arte é pensar por imagens\u2016. Desenvolvendo seu pensamento, 
argumentou: A poesia assim como a prosa é antes de tudo, e sobretudo, uma certa maneira 
de pensar e conhecer\u2016. De acordo com Chklovski, as imagens poéticas não devem acionar um 
conhecimento, mas provocar um estranhamento no leitor que o conduza à densidade da 
percepção estética. 
(CHKLOVSKI, Viktor. A arte como procedimento. In: Teoria da Literatura: os formalistas 
russos. Porto Alegre: Globo, 1976.) 
Na primeira estrofe, o eu lírico se posiciona acima daqueles a quem chama \u2015grande\u2016. 
\u2015Glorifica-me!\u2016: sugere, propõe, ordena, implora. Estabelece sua relação com o leitor. O verso 
\u2015Eu carimbo um nada\u2016 provoca mais um estranhamento, agora desencadeado por um 
desvio, visto que a função de um carimbo é imprimir palavras ou imagens. 
A segunda e a terceira estrofes exigem que o leitor reelabore a ideia construída culturalmente 
a respeito dos livros e da figura do poeta, exatamente como proposto pelo formalismo russo. 
Desfaz-se a imagem do autor inspirado e da poesia como ato sublime. Maiakovski, no texto, 
renuncia aos livros e, ainda, reconhece que também ele participava de uma concepção geral 
de que o poeta possui uma espécie de dom divino. O estranhamento, neste caso, dá-se 
pelo fato de que tais conceitos são estabelecidos através de um texto poético, ou seja, o 
próprio instrumento da poesia é utilizado como contra-argumento do fazer poético. 
Na terceira estrofe, o poeta Maiakovski intensifica a densidade estética do texto, provocando 
estranhamento com a elaboração de fatos sintáticos que exigem a análise mais cuidadosa 
do leitor. 
O segundo e terceiro versos encontram-se em oposição ao apresentarem duas circunstâncias 
associadas ao signo \u2015poetas\u2016: \u2015canção\u2016, signo que sugere um conceito diáfano X \u2015pés em 
calos\u2016, representativo de luta, trabalho, realidade tangível. Outros fatos sintáticos 
desautomatizam a percepção do leitor no mesmo procedimento de associar signos pela 
oposição abstrato X concreto, o que retira as imagens conhecidas de seu espaço de 
sublimidade e as lança na dura realidade da existência: \u2015peixe lento da imaginação\u2016; \u2015eles 
cozem uma sopa de amor e rouxinóis\u2016; \u2015estrada sem língua\u2016. 
Atenção! 
Os métodos de análise dos formalistas russos são imanentes ao texto, isto é, a literariedade. 
Assim, mesmo que o leitor tenha conhecimento do contexto histórico em que se insere o autor 
e de dados biográficos relevantes, esses não devem ser utilizados na análise do texto poético. 
Análises Morfológicas e Fonológicas de Poemas de Vanguarda 
A partir dos pressupostos de Chklovski, segundo os quais um poema deve ser analisado tendo 
como base a Linguística e os aspectos a essa ciência intrínsecos, Roman Jakobson, também 
integrante do Formalismo Russo, difundiu a ideia de que a função poética da linguagem 
consiste na ambiguidade que se alcança através da concisão do signo. 
Isso equivale a dizer que, como a poesia é uma expressão de linguagem reduzida, os 
vocábulos devem ser utilizados de forma a permitir que o leitor o expanda, seja em sua 
própria construção morfológica e fonológica, seja no seu significado (semântica), ou, ainda, na 
organização sintática do verso do qual o signo faz parte. 
Essa proposta dos formalistas vai ao encontro dos interesses de poetas europeus que 
intentavam um novo jeito de fazer poesia que se distanciasse dos modelos tradicionais. A 
linguagem poética, portanto, era um dos alvos preferidos desses poetas, visto ser o 
instrumento fundamental da poesia. 
Surge, assim, mais especificamente no início do século XX, a poesia de vanguarda*. O termo 
tem origem na expressão francesa \u2015avant-garde\u2016, expressão militar que significa \u2015linha de 
frente\u2016. 
* Vanguarda: Fig. [...] que exerce ou procura exercer um papel pioneiro. Desenvolvendo 
técnicas, ideias e conceitos novos, avançados, especialmente nas artes. (Dicionário Houaiss da 
Língua Portuguesa) 
A Vanguarda 
Dentre os movimentos de vanguarda, destaca-se o Futurismo, movimento iniciado por Felippo 
Marinetti, e que expressava uma postura utópica dos artistas envolvidos com a modernidade e 
o surgimento de uma nova era, e que negavam o passado e as tradições socioculturais, 
especialmente as que representavam ideologias burguesas. 
Filiaram-se aos movimentos vanguardista e futurista poetas como Vladimir Maiakovski, Ezra 
Pound, James Joyce, Fernando