Teoria da Literatura II - Conteúdo Online
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largamente abertos, face volvida para os céus, - um soldado descansava. 
Descansava... havia três meses. 
Morrera no assalto de 18 de julho\u2016. 
Segundo o professor Acízelo, o desvio, no fragmento acima, é provocado por um fato léxico, 
ou seja, de vocabulário, mais especificamente quanto ao uso do verso \u2015descansar\u2016, combinado 
com um fato sintático, determinado pela pontuação. 
\u2015O primeiro parágrafo termina com a palavra \u2017descansava\u2018, que em princípio nada tem de 
especial. Mas algo especial se prepara, quando o parágrafo subsequente se inicia com a 
mesma palavra \u2017descansava\u2018, à qual se segue a suspensão momentânea da frase, pelo 
emprego das reticências, concluindo-se o período com o segmento \u2017havia três meses\u2018. Assim, 
antecipa-se o verdadeiro sentido daquele \u2017descansava\u2018 inicial, finalmente revelado pela palavra 
que abre o último parágrafo: \u2017morrera\u2018\u2016. 
Relembrando: 
Com relação ao fato sintático, Roberto Acízelo esclarece que o uso das reticências é incomum, 
pois, ao invés de encerrarem a frase, \u2015operam um corte no meio dela, criando rápido 
suspense logo desfeito pela precipitação de seu segmento terminal\u2016. Tratam-se, ambos os 
desvios, de uma proposta autoral organizada, que foge ao comum da linguagem e constituem 
a literariedade (literaturnost) do texto. 
Finalizando as análises de estruturas narrativas, não se poderia deixar de evidenciar uma 
análise formalista dos aspectos morfológico, fonológico e semântico do texto que, muitas 
vezes, se completam para a melhor compreensão da proposta autoral. Para tanto, destacamos 
o conto \u2015A Terceira Margem do Rio\u2016, de João Guimarães Rosa. 
\u2015Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. 
Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. 
Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, 
mascou o beiço e bramou: \u2014 \u2017Cê vai, ocê fique, você nunca volte!\u2018 Nosso pai suspendeu a 
resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de 
nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um 
propósito perguntei: \u2014 \u2017Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?\u2018 Ele só retornou o olhar 
em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda 
virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a 
canoa saiu se indo \u2014 a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa\u2016. (ROSA, João 
Guimarães. A Terceira Margem do Rio. In: Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Nova 
Fronteira, 1988). 
O conto organiza-se por construções frasais incomuns, marcadas tanto pela oralidade, o que 
se define pelo léxico utilizado, quanto pelo uso de recursos sintáticos variados. Forma-se, 
então, a literariedade do texto. 
O texto apresenta desvios fonológicos que definem a sua oralidade, especialmente no tocante 
à repetição de preposições e advérbios. O fragmento selecionado é o único, em todo o texto, 
que apresenta discurso direto livre, representado pelas falas da mulher e do filho, e é nesse 
trecho que se destaca um desvio morfológico marcado pela substituição do pronome \u2015você\u2016 
por \u2015ocê\u2016. 
Entretanto, são os desvios semânticos que enriquecem o conto de Guimarães Rosa. 
Destacamos os seguintes exemplos: 
- sem alegria nem cuidado: a oposição entre os dois substantivos estabelece um espaço 
intermediário em que o personagem \u2015pai\u2016 se mantém alheio à própria família, voltado apenas 
para o seu projeto de partir na canoa; 
- decidiu um adeus para a gente: o uso do verbo, neste caso, desestabiliza o leitor, que 
entende ser este um ato definitivo; 
- Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida: 
\u2015esbravejar\u2016 x \u2015alva de pálida\u2016 indicam o que se esperava como reação da mulher 
abandonada pelo marido e como a surpresa e a dor limitaram sua atitude diante da decisão 
inesperada do personagem \u2015pai\u2016; 
- E a canoa saiu se indo \u2014 a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.: neste 
caso, destaca-se tanto a comparação entre a canoa e o jacaré, dando conta ao leitor da 
realidade espacial dos personagens, quanto a aparente redundância da construção \u2015comprida 
longa\u2016, o que pode ser compreendido como a lentidão do movimento da canoa sobre o rio e a 
ação do sol, provocando uma sombra extremamente longa sobre as águas. 
Como vimos, o formalismo russo considera a literariedade igualmente na poesia e na prosa, 
cabendo ao investigador elaborar uma análise linguística que realce as características 
imanentes do texto literário. 
AULA 6 \u2013 MÉTODO FORMAL: ANÁLISE DE POEMAS E DE PROSA 
1895-1970 
O teórico russo Vladimir Propp (1895-1970) dedicou-se a estudar a estrutura dos contos 
populares, destacando os elementos básicos e indivisíveis das narrativas populares. Esse 
trabalho de pesquisa resultou em uma seleção de cem contos populares que foram estudados 
pelo folclorista. 
1928 
Sua obra Morfologia do Conto Maravilhoso (1928) teve alguma repercussão entre os teóricos 
russos, mas devido à perseguição política sofrida pelos formalistas russos, o livro caiu no 
esquecimento, embora Roman Jakobson sempre defendesse sua importância para os estudos 
do método formal. 
1958 
Em 1958, com a tradução inglesa, o livro ganhou notoriedade por discutir uma das grandes 
dificuldades encontradas pelos formalistas: entender como era possível haver as mesmas 
ocorrências narrativas em povos que não mantinham contato entre si. Mesmo sendo o livro 
dedicado ao estudo de contos de magia russo, as teses desenvolvidas por Propp serviram de 
base a diversos estudos formalistas e estruturalistas. 
Morfologia do Conto Maravilhoso 
Significado de MORFOLOGIA 
A palavra \u2015morfologia\u2016 tem como significado estrito \u2015o estudo das formas\u2016. Inicialmente 
aplicado à botânica, esse estudo foi aplicado à ciência literária e constitui a base do 
pensamento do Formalismo Russo. Da mesma forma que o botânico estudava cada parte de 
uma planta e a relação desta parte com as outras partes da mesma planta, descrevendo sua 
textura, os formalistas estudaram partes do texto literário isoladamente e, após, sua relação 
com os outros componentes do mesmo texto. 
Vladimir Propp aplicou esse método ao estudo do folclore russo, especificamente aos contos 
de magia, a fim de comprovar a sua estreita relação com a literatura. Preocupava-se o autor 
com o fato de que a maior parte dos estudos sobre os contos apresentava uma tendência a 
compreender a sua gênese e não em descrever o próprio conto. Estudar o conto e descrevê-lo 
morfologicamente resultaria na compreensão do objeto de análise, caminho necessário a um 
estudo eficaz dessa produção espontânea e popular, mas inegavelmente rica e valiosa para a 
formação e identidade cultural de um povo. 
Propp opôs-se às tradicionais classificações estabelecidas para os contos populares. Por 
exemplo, não aceitava a divisão dos contos em: 1. contos miraculosos; 2. contos de 
costumes; 3. contos sobre animais. A dúvida suscitada pelo morfologista era se não seria 
possível que um conto sobre animais, por exemplo, não pudesse ser também miraculoso, ou 
seja, no decorrer do conto, não poderia haver uma permutabilidade dos elementos? 
Mais um problema levantado por Propp em relação às classificações tradicionais é a inserção 
de elementos de outras culturas nos tradicionais contos russos. Uma visão ocidental da 
mesma história alteraria substancialmente a proposta inicial de um conto que tivesse origem 
na cultura do Oriente. 
Outras diversas classificações são questionadas por Propp e, por esse motivo, o morfologista 
apresentou um estudo dos contos maravilhosos que fosse fundamentado em sua