Teoria da Literatura II - Conteúdo Online
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de desenvolver saberes mais complexos da realidade, o que impede 
regressões metafísicas com desdobramentos que levem a controles autoritários. 
Assim, o pensamento de Habermas volta-se para os campos da ética e do conhecimento. 
Como vimos, os teóricos da Escola de Frankfurt, ao criarem a Teoria Crítica e expressarem seu 
pensamento dialético, pretendiam compreender a sociedade contemporânea dividida entre o 
marxismo e o capitalismo e apresentar soluções para a vida moderna. A \u2015indústria cultura\u2016 
torna-se uma grande preocupação por sua capacidade alienante das idéias, sendo um 
instrumento eficaz do autoritarismo político. 
AULA 10 \u2013 ANTONIO CANDIDO: A LITERATURA E A SOCIEDADE 
O professor Antonio Candido procura compreender a Literatura através da sociedade em que 
se insere a obra literária. 
O seu pensamento crítico pretende verificar de que maneira a realidade social tornou - se um 
componente fundamental da estrutura literária, podendo ser, mesmo, o elemento fundamental 
e, às vezes, único para compreensão e análise da obra literária. Ainda mais: o conhecimento 
da sociedade possibilita entender não somente a obra de arte, mas também a função que ela 
exerce. 
Segundo o crítico, no século XIX, o estudo da sociedade condiciona a análise literária. É o que 
vemos, por exemplo, em estudos da obra naturalista, como pretende o francês Émile Zola, ou 
da obra realista, conforme propõe o escritor Eça de Queirós. No ensaio \u2015O romance 
experimental e o naturalismo no teatro\u2016 (1880), Zola defende a literatura como produto da 
observação científica com o objetivo de compreender melhor a sociedade: 
\u2015O homem não está só, ele vive numa sociedade, num meio social; assim, para nós 
romancistas, este meio social modifica constantemente os fenômenos. Aliás, nosso grande 
estudo reside nisso, no trabalho recíproco da sociedade sobre o indivíduo e do indivíduo sobre 
a sociedade\u2016. (ZOLA, Émile. O romance experimental e o naturalismo no teatro. São Paulo: 
Perspectiva, 1982.) 
Eça de Queirós destaca, na Carta de Apresentação da obra O Primo Basílio (1878), a função 
da obra literária. Após descrever o que denomina \u2015pequeno quadro doméstico da sociedade 
burguesa\u2016 de Lisboa, com seus formalismos, seus tédios da profissão, seus ócios, sua 
\u2015literatura acéfala\u2016, o romancista esclarece a função de sua obra: 
\u2015Uma sociedade sobre estas falsas bases, não está na verdade: atacá \u2013 lãs é um dever. E 
neste ponto o Primo Basílio não está inteiramente fora da arte revolucionária, creio\u2016. (Carta a 
Teófilo Braga, Newcastle, 12 de março de 1878). 
No entanto, segundo Antonio Candido, os excessos cometidos em busca da representação da 
realidade geraram uma reação contra esse método de análise literária, fortalecendo a corrente 
que orientava uma percepção filosófica e estética da literatura. Passada a primeira fase de 
entusiasmo com a Nova Crítica, torna \u2013 se necessária uma reavaliação dos métodos e, se 
chegar a uma proposta que não seja excludente das formas de interpretação, deve \u2013 se 
analisar o texto literário, considerando \u2013 se tanto as aspectos extrínsecos, que representam 
uma realidade que existe fora do texto, quanto os intrínsecos, que compõem a estética da 
obra. 
Crítica de Antonio Candido 
\u2015De fato, antes procurava \u2013 se mostrar que o valor e o significado de uma obra dependiam de 
ela exprimir ou não certo aspecto da realidade, e que este aspecto constituía o que ela tinha 
de essencial. Depois, chegou \u2013 se à posição oposta, procurando \u2013 se mostrar que a matéria 
de uma obra é secundária, e que a sua importância deriva das operações formais postas em 
jogo, conferindo \u2013 lhe uma peculiaridade que a torna de fato independente de quaisquer 
condicionamentos, sobretudo social, considerado inoperante como elemento de compreensão. 
Hoje sabemos que a integridade da obra não permite adotar nenhuma dessas visões 
dissociadas; e que só a podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretação 
dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que se explicava pelos fatores 
externos, quanto o outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente 
independente, combinam \u2013 se como momentos necessários do processo interpretativo. 
Sabemos, ainda, que o externo (no caso, o social) importa, não como causa, nem como 
significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da 
estrutura, tornando \u2013 se, portanto, interno\u2016. (CANDIDO. Antonio. Literatura e sociedade: 
estudos de teoria e história literária. 8. ed. São Paulo: T. A. Queiroz Editor, 2002. p. 4 ) 
Quando se adota esse tipo de análise, temos uma \u2015sociologia da literatura\u2016, que não 
determina o valor da obra. Segundo Antonio Candido, a \u2015sociologia da literatura\u2016 evidencia os 
fatores que condicionam a obra, quais sejam: a preferência estatística por um gênero, o gosto 
das classes, a origem social dos autores, a relação entre as obras e das idéias, a influência da 
organização social, econômica e política etc. É, portanto, uma disciplina de caráter científico, 
sem orientação estética. 
A tendência da crítica contemporânea é considerar fatores sociais como integrantes da 
estrutura da obra, não como um fim em si mesmo, isto é, não como o registro fundamental 
do trabalho criador. 
Integrar a estética ao fato social é um método que permite uma compreensão mais clara do 
texto literário. Esse procedimento permite uma análise mais produtiva de textos, 
especialmente poéticos, que se fazem representar por uma temática social aliada aos 
componentes estéticos. 
A análise de um poema, muitas vezes, requer que o leitor identifique a questão social nele 
discutida e os elementos estéticos que possibilitam uma interpretação mais elaborada. O texto 
poético \u2015Poema Brasileiro\u2016, de Ferreira Gullar, trata de uma questão social, que é a 
mortalidade infantil em uma determinada região do Brasil. 
No entanto, o tema não se configura o único fator de análise, visto que o texto vale-se de 
elementos estéticos fundamentais para sua compreensão: o autor utiliza dados estatísticos, 
repetições e interrupções na estrutura sintática, a fim de aguçar a percepção do leitor. Os 
elementos externos e internos ao texto se unem na elaboração da análise. 
\u201cPoema Brasileiro\u201d, de Ferreira Gullar 
No Piauí de cada 100 crianças que nascem 
78 morrem antes de completar 8 anos de idade 
 
No Piauí 
de cada 100 crianças que nascem 
78 morrem antes de completar 8 anos de idade 
 
No Piauí 
de cada 100 crianças 
que nascem 
78 morrem 
antes 
de completar 
8 anos de idade 
 
antes de completar 8 anos de idade 
antes de completar 8 anos de idade 
antes de completar 8 anos de idade 
antes de completar 8 anos de idade 
 (Ferreira Gullar, 1962) 
Segundo Antonio Candido, \u2015uma crítica que se queira integral deixará de ser unilateralmente 
sociológica, psicológica ou linguística, para utilizar livremente os elementos capazes de 
conduzirem a uma interpretação coerente. Mas nada impede que cada crítico ressalte o 
elemento da sua preferência, desde que o utilize como componente da estruturação da obra\u2016 
(CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 8 ed. São 
Paulo: T. A. Queiroz Editor, 2002. p. 7). 
Os Estudos Sociológicos Aplicados à Literatura 
Antonio Candido classifica os estudos sociológicos que fundamentam a análise literária em 
diferentes modalidades, conforme o método aplicado: 
1. Paralelo entre a obra literária e a sociedade; 
2. Representação da sociedade na obra literária; 
3. Relação entre a obra e o público em termos de definição do público \u2013 alvo, aceitação 
da obra de ação recíproca de ambos; 
4. Posição e função social do escritor