Teoria da Literatura II - Conteúdo Online
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interpretações. 
Em alguns momentos, foi tomada como um manual prescritivo, cujas regras deveriam ser 
seguidas, mas hoje predomina a tendência a \u2015encarar isoladamente certos conceitos 
aristotélicos como fonte estimulante para novas observações e novas reflexões sobre o 
fenômeno artístico\u2016.¹ 
¹ARISTÓTELES, HORÁCIO & LONGINO. A Poética clássica. Intr. Roberto de Oliveira Brandão. 
Trad. Jaime Bruna. 3. ed. São Paulo, Cultrix, 1988. p. 2. 
Como muito bem sintetiza Ariano Suassuna no texto em epígrafe, Aristóteles analisou 
objetivamente o mundo, refletindo sobre os mais variados aspectos do conhecimento. Suas 
descrições e conceituações são via de regra precisas e detalhadas. Quando se debruça sobre 
os textos literários em circulação no momento em que vivia, o tratamento não é diferente. 
Desde o início da Poética, notamos o tom didático que predomina no texto, visível no 
movimento de organizar as ideias, apresentar conceitos e classificar os textos. 
O parágrafo inicial é um perfeito exemplo de introdução, pois apresenta toda a organização 
das ideias apresentadas a seguir: 
\u2015Falemos da natureza e espécies da poesia, do condão de cada uma, de como se hão de 
compor as fábulas para o bom êxito do poema; depois, do número e natureza das partes e 
bem assim das demais matérias dessa pesquisa, começando, como manda a natureza, pelas 
noções mais elementares.\u2016 
Ao lado desse caráter descritivo e minucioso, os textos de Aristóteles apresentam forte carga 
valorativa, característica muito destacada nos períodos em que o texto foi lido como um 
conjunto de prescrições. Como exemplo desse modo de pensar, podemos citar a passagem: 
\u2015Surgidas a tragédia e a comédia, os autores, segundo a inclinação natural, pendiam para esta 
ou aquela; uns tornaram-se em lugar de jâmbicos, comediógrafos; outros, em lugar de épicos, 
trágicos, por serem estes gêneros superiores àqueles e mais estimados.\u2016 
Observando a articulação do discurso encontramos um intenso uso de imperativos que 
sustenta as leituras do texto enquanto conjunto de prescrições. Nota-se isso, por exemplo, no 
seguinte trecho: 
\u2015Deve-se sempre procurar a verossimilhança e a necessidade. O irracional não deve entrar no 
desenvolvimento dramático, mas se entrar, que seja unicamente fora da ação.\u2016 
Aristóteles parte da definição de poesia como imitação, para analisar as espécies de poesia 
imitativa \u2013 ou seja, a Epopeia, a Tragédia e a Comédia, classificando-as segundo os meios, os 
objetos e os modos da imitação. O quadro abaixo sintetiza a classificação apresentada pelo 
filósofo: 
Diferenças Tragédia Comédia Epopeia 
Meios diversos verso/canto verso/canto verso 
Objetos diversos homens melhores homens piores homens melhores 
Modos diversos ação ação narração 
 
Agora que já conhecemos um pouco da poética de Aristóteles, vamos fazer uma comparação 
entre suas ideias e aquelas emitidas por Platão/Sócrates na República. O quadro a seguir 
sintetiza as diferenças de pressupostos entre esses pensadores: 
 Platão/Sócrates Aristóteles 
Concepção Idealista Realista 
Conceito de beleza Beleza é o brilho da verdade. 
Verdade = essência (mundo 
das ideias) 
Beleza é uma propriedade do 
objeto, não é reflexo de uma 
essência superior. 
 
 Aristóteles e Platão Sócrates 
Mimesis (imitação) Visão positiva. 
Imitar é próprio ao homem. 
Imitação é uma 
representação 
Visão negativa. 
Imitação em terceiro nível, 
reprodução imperfeita do 
absoluto. 
superior do sensível. 
Verossimilhança. 
Prazer/Função da Arte \u2015Beleza é aquele bem que é 
aprazível só porque é bem.\u2016 
(Retórica)Na Retórica, analisa 
a fruição da obra de arte do 
ponto de vista do sujeito. 
A noção de beleza é 
intimamente ligada à de 
prazer. Prazer estético advém 
da apreensão gratuita e sem 
esforço dos objetos. Catarse 
\u2013 prazer advindo da pena e 
temor que propicia a 
purgação desses 
sentimentos. 
Rejeita o prazer; 
\u2015A arte é útil para a formação 
dos Guardiões, serve para a 
transmissão de ensinamentos 
éticos \u2015para nós, ficaríamos 
com um poeta mais austero 
em menos aprazível, tendo 
em conta sua utilidade, a fim 
de que ele imite para nós a 
fala do homem de bem e se 
exprima segundo aqueles 
modelos que de início 
regulamos quando 
tentávamos educar os 
militares\u2016 (A República, Livro 
III) 
 
A Poética de Horácio 
Horácio enviou a Carta aos pisões (Epistula ad Pisones), também conhecida como Arte Poética 
(Ars Poetica), ao cônsul romano Lúcio Pisão e seus filhos, também literatos. Em sua missiva, o 
poeta latino formula princípios para a construção poética e dá sugestões de ordem prática 
para escritores. 
Nesse texto, o poeta apresenta suas reflexões sobre a composição artística, tema que já havia 
abordado em seis poemas compostos anteriormente. 
É na Arte Poética, no entanto, que se apresentam depuradas e amadurecidas suas 
concepções. Para BRANDÃO, um importante eixo do pensamento horaciano é a ideia de que 
\u2015A obra é regida por leis que podem ser formuladas\u2016.¹ 
O texto é, por isso mesmo, bastante pragmático e foi traduzido com certo radicalismo em 
tratados de poética difundidos nas diferentes \u2015ondas\u2016 clássicas que marcam a história da arte 
ocidental a partir do fim da Idade Média. 
¹ARISTÓTELES, HORÁCIO & LONGINO. A Poética clássica. Intr. Roberto de Oliveira 
Brandão. Trad. Jaime Bruna. 3. ed. São Paulo, Cultrix, 1988. p. 7. 
Horácio toma como referência a pintura para pensar a poesia, o que fica bem claro numa 
expressão do texto que se tornou célebre: \u2015Ut pictura, poiesis\u2016¹. 
Podemos assim sintetizar os princípios que ele formula para que seja atingida a perfeição 
artística: 
Fatores estruturantes da obra: ordem e unidade. 
Meios pelos quais o poeta realiza seu objetivo: razão, trabalho e disciplina. 
¹\u2015Poesia é como pintura.\u2016 - tradução de Jaime Bruna em: ARISTÓTELES, HORÁCIO & 
LONGINO. A Poética clássica. Intr. Roberto de Oliveira Brandão. Trad. Jaime Bruna. 3. ed. 
São Paulo, Cultrix, 1988. p. 65. 
Desde o início do texto, para rejeitar as obras que ultrapassam a lógica cotidiana e enveredam 
pelo absurdo, compara a escrita à pintura: 
\u2015Suponhamos que um pintor entendesse de ligar a uma cabeça humana um pescoço de 
cavalo, ajuntar membros de toda procedência e cobri-los de penas variegada, de sorte que a 
figura, de uma mulher formosa em cima, acabasse num hediondo peixe preto; entrados para 
ver o quadro, meus amigos, vocês conteriam o riso? Creiam-me Pisões, bem parecido com um 
quadro assim seria um livro onde se fantasiassem formas sem consistência, quais sonhos de 
enfermo, de maneira que o pé e a cabeça não se combinassem num ser uno.\u2016 
No entanto, valoriza também a inspiração (ou \u2015natureza\u2016), quando afirma: 
\u2015Já se perguntou se o que faz digno de louvor um poema é a natureza ou a arte. Eu por mim 
não vejo o que adianta, sem uma veia rica, o esforço, nem, sem cultivo, o gênio; assim, um 
pede ajuda ao outro, numa conspiração amistosa." 
Verificamos aí um claro traço da ênfase na racionalidade que marca o texto, sintetizada na 
frase: \u2015Princípio e fonte da arte de escrever é o bom senso\u2016. 
Outro aspecto importante na obra é o fato de que a visão clássica horaciana não deixa espaço 
para o improviso, para ele a perfeição só pode ser obtida pelo trabalho conjugado ao domínio 
técnico e à racionalidade que disciplina a experiência criadora. 
É inegável que a Arte Poética de Horácio constituiu um cânone, um modelo para a criação 
poética ocidental, tendo sido objeto de estudo para inúmeros escritores. O prestígio desse 
texto foi incomparável, pois, embora nem sempre seus preceitos fossem inteiramente 
integralmente seguidos, influenciou diversos