Teoria da Literatura II - Conteúdo Online
55 pág.

Teoria da Literatura II - Conteúdo Online


DisciplinaTeoria da Literatura II1.050 materiais8.678 seguidores
Pré-visualização21 páginas
é a teoria evolucionista de Darwin. No entanto, é preciso muito critério ao se 
estabelecer um aspecto positivista ou determinista à criação de uma obra de arte. Isso porque 
não se contesta que há uma relação intrínseca entre a obra e o contexto em que ela está 
inserida. 
Assim, é inegável que a personalidade e o conhecimento de mundo de um artista influenciam 
na composição de sua obra, ou que o gênero romance atende aos interesses da burguesia, 
ou, ainda, que o deslumbramento ou inadequação do homem em relação à vida moderna será 
matéria de poemas diversos, de Baudelaire a Fernando Pessoa, de Walt Whitman a Carlos 
Drummond de Andrade. Todavia, a crítica literária apresenta interessantes estudos relativos à 
produção de obras vinculadas às teorias positivistas e deterministas, o que se torna 
contribuição inegável ao saber acadêmico. 
Realismo, Naturalismo e Parnasianismo: A Formação de Uma Literatura Científica 
O Realismo é um movimento literário marcado pelo interesse em explicar a obra como produto 
originário da sociedade, de um determinado tipo humano e de um tempo histórico específico. 
O método de estudar a obra a partir de relação entre o seu criador e a sociedade em que ele 
está inserido levou à Crítica Sociológica, que postula a investigação da obra pelos fatos sociais 
que nela se fazem representar, mesmo que de forma subliminar. Marco da literatura realista, a 
obra Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert, apresenta fatos cotidianos sob uma visão 
extremamente objetiva da realidade. Não há, no texto, elementos que fujam a uma 
compreensão científica da realidade, mantendo o romance, como os demais textos realistas, 
um caráter de tese. 
\u2015Mas era sobretudo às horas da refeição que ela não agüentava mais, nesta pequena sala do 
andar térreo, com a estufa que fumegava, a porta que rangia, os muros que gotejavam, as 
lajes úmidas; toda a amargura da existência parecia-lhe servida no seu prato e, como a 
fumaça do cozido, subiam do fundo de sua alma como em outras baforadas de enjôo. Carlos 
era vagaroso ao comer; ela mordiscava algumas avelãs, ou então, apoiada no cotovelo, 
divertia-se a fazer riscos com a ponta da faca na toalha.\u2016 (Madame Bovary, Gustave Flaubert) 
A passagem destacada apresenta uma cena comum: marido e mulher compartilham uma 
refeição. O que se revela, no entanto, é o tédio da Emma Bovary. Flaubert descreve a cena, a 
fim de que o leitor possa perceber, por si mesmo, como o ambiente externo atua sobre a 
disposição interna da personagem. 
A proposta de compreender o homem através do meio social em que ele está inserido 
intensifica-se com o movimento naturalista, que tem em Émile Zola seu maior porta \u2013 voz. O 
autor considerava que os personagens de um romance deveriam ser elaborados em função 
dos elementos hereditários e da sua relação com o meio social em que estivesse inserido. 
Zola (Émile Zola, escritor francês, criador da escola literária naturalista) defende essa tese no 
ensaio Romance Experimental: 
\u2015É a investigação científica, é o raciocínio experimental que combate, uma por uma, as 
hipóteses dos idealistas, e substitui os romances de pura imaginação pelos romances de 
observação e experimentação.\u2016 
Os postulados do positivismo e do determinismo reforçam teses diversas, como vemos no 
estudo de Michelle Perrot sobre a divisão de classes sociais no século XIX: 
\u2015É que o lavadouro é para elas muito mais do que um lugar funcional onde se lava a roupa: 
um centro de encontro onde se trocam as novidades do bairro, os bons endereços, receitas e 
remédios, informações de todos os tipos. Candinhos do empirismo popular, os lavadouros são 
também uma sociedade aberta de assistência mútua: se uma mulher está no \u2017atoleiro\u2018, 
acolhem-na fazem uma coleta para ela. A mulher abandonada pelo seu homem merece no 
lavadouro, onde a presença masculina se reduz a meninos importunos, de uma simpatia 
especial.\u2016 (PERROT, Michelle. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. 
4 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1988). 
Fundadas na mesma proposta, as obras naturalistas se fazer representar, do que é exemplo o 
livro O Cortiço, de Aluisio Azevedo. Note-se a semelhança entre o texto de Michelle Perrot e o 
elaborado por Azevedo, propondo, ambos, que o leitor compreenda como o meio social 
interfere sobre a vida do ser humano: 
\u2015Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de 
machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água 
que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já 
prender as saias entre as coxas para não as molhar; via\u2013se-lhes a tostada nudez dos braços e 
do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, 
esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo 
da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as 
palmas da mão. (AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo: Editora Ática, 1987).\u2016 
Quanto ao Parnasianismo, mais representativo na literatura brasileira, em versos, identificam-
se, também, propostas cientificistas, porém mais conformes a uma descrição objetiva dos 
motivos apresentados nos textos literários. 
Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira: escritores que adotaram a visão objetiva, 
conforme as orientações científicas do século XIX. 
O apuro técnico dos textos serve a uma visão objetiva do tema, como vemos nos versos de 
Alberto de Oliveira, do poema \u2015Aspiração\u2016: 
Ser palmeira! Existir num píncaro azulado, 
Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando; 
Dar ao sopro do mar o seio perfumado, 
Ora os leques abrindo, ora os leques fechando; (...) 
Vimos, assim, que a orientação científica que fez surgir o Positivismo e o Determinismo 
definiram a literatura do século XIX, seja pela busca da compreensão do ser humano frente à 
sociedade; 
Seja por uma descrição dos fatos a partir da observação isenta, o que transformava o escritor 
em observador; ou, ainda pela descrição do objeto, mas sem que o belo artístico fosse 
ameaçado pela visão científica. A formação de uma crítica literária específica possibilitou que, 
hoje, possamos compreender as propostas elaboradas no século XIX e a evolução do fazer 
literário a partir das inovações do Positivismo e do Determinismo. 
AULA 3 \u2013 BIOGRAFISMO E IMPRESSIONISMO CRÍTICO 
O Impressionismo Crítico 
A crítica impressionista permite ao leitor de um texto literário avaliar a obra por métodos 
unicamente subjetivos, ou seja, que estejam vinculados à moral, à ética e à estética 
constituídas exclusivamente por critérios de avaliação próprios, não submetidos à percepção 
conduzida por teorias e práticas literárias formuladas pela intelectualidade e pelo meio 
acadêmico. 
Assim, a crítica impressionista constitui-se como uma opinião fundada apenas nas emoções 
que o texto provoca no leitor. As análises da crítica impressionista são formuladas a partir das 
impressões percebidas pelo leitor no contato com o texto. 
Os críticos impressionistas consideram que o essencial é o prazer da leitura que se obtém a 
partir de dados subjetivos e percepções individuais dos leitores. Não há, portanto, 
preocupações com o rigor metodológico ou com a adequação de teorias à análise literária. É o 
leitor quem determina o valor da obra, a sua influência sobre seu modo de ver o mundo e as 
relações possíveis entre obras. 
Conciliados a uma crítica literária impressionista, autores diversos como Anatole France e 
Virgínia Woolf produziram obras que se distanciaram dos padrões literários valorados pela 
visão acadêmica tradicional. 
Fragmento de Orlando, de Virginia Woolf \u2013 exemplo