Teoria da Literatura II - Conteúdo Online
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que exigiriam que o leitor ou pesquisador tivesse lido o outro texto a que se reportam tais fontes e influências. (CARVALHAL, Tânia. Literatura comparada. São Paulo: Ática, 2006. p. 38-40)
A History of Modern \u2013 Criticism: 1750 \u2013 1950, de René Wellek.
A partir das décadas de 40 e 50, destacam-se os estudos de vários críticos americanos, entre eles John Crowe Ransom, cujo livro The New Criticism (1941) deu nome ao movimento. William K. Wimsatt e Monroe Beardley desenvolveram os conceitos \u201cfalácia intencional\u201d, os quais orientavam contra a busca de uma \u201cintenção do autor\u201d a partir da análise do texto, e \u201cfalácia afetiva\u201d, que considerava irrelevante a emoção do leitor na análise da obra literária.
Todavia, a prática da análise literária e da crítica voltadas fundamentalmente para o texto desenvolve-se com o inglês I. A. Richards e com o anglo \u2013 americano Thomas Stearns Eliot.
T. S. Eliot foi um poeta modernista, dramaturgo e crítico literário inglês nascido nos EUA, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1948.
A Análise Literária Conforme os Métodos do New Criticism
A compreensão do texto literário a partir de seus elementos intrínsecos é uma proposta do New Criticism.
Antes, porém, de exercitarmos a análise de um texto segundo a proposta dos \u201cnovos críticos\u201d, é necessário identificarmos como se estabelece a prática da análise literária. Para tanto, destacamos, abaixo, uma reflexão de Afrânio Coutinho.
\u201cEm que consiste a análise literária? Em dissecar, separar, dissociar o todo que é a obra de arte em suas partes componentes, em seus diversos elementos. É verificar a composição da obra, é deslindar a sua estrutura. É identificar, depois de devidamente separados e desintegrados, todos os elementos formadores dessa estrutura. É examiná-los um a um, procurando compará-los com a tradição, distingui-los e classificá-los\u201d. (COUTINHO, Afrânio. Da crítica e da nova crítica. 2.ed.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. p. 162)  
O poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989) insere-se no movimento de vanguarda brasileiro e faz parte da geração de poetas marginais. Sua poesia sofreu influência dos poetas concretistas e neoconcretistas. No entanto, Leminski desenvolveu um jeito próprio de escrever, preferindo elaborar poemas com poucos versos, especialmente haicais. Leminski foi também letrista e compôs diversas músicas com a parceria de Caetano Veloso, Itamar Assumpção, Moraes Moreira e Guilherme Arantes entre vários outros compositores.
No documentário \u201cErvilha da Fantasia \u2013 Uma Ópera Paulo Leminskiana\u201d (1985), dirigido por Werner Schumann, o poeta faz uma declaração inicial que faz compreender que a sua proposta do \u201cfazer poético\u201d se contextualiza com os métodos do New Criticism:
\u201cA poesia é um inutensílio. A única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa, porque elas são a própria razão de ser da vida. Querer que a poesia tenha um porquê, querer que a poesia esteja a serviço de alguma coisa é a mesma coisa que você querer, por exemplo, que um gol do Zico tenha uma razão de ser, tenha um porquê além da alegria da multidão\u201d.
Leminski compôs \u201cLuzes\u201d (letra e música), que se tornou conhecida, primeiro, no disco de Suzana Salles (1996). Vemos, na letra, uma série de signos (vocábulos) que se integram no mesmo campo de significados (campo semântico) indicado pelo título.
Os verbos \u201cacendo\u201d, \u201cacenda\u201d, \u201cinflame\u201d, os quais indicam uma atitude \u2013 tanto do sujeito lírico, pelo verbo acender em primeira pessoa do singular \u2013 como do leitor que recebe a mensagem e ao qual se dirige o poeta, já que os verbos acender e inflamar se encontram na primeira pessoa do singular do modo imperativo. Assim, o eu lírico determina uma atitude para si mesmo e para quem o lê.
Mantendo a mesma proposta semântica, ou seja, o mesmo sentido, surgem substantivos que indicam luminosidade: \u201clâmpada\u201d, \u201cluz\u201d, \u201clampiões\u201d, \u201cchama\u201d, \u201cfogos\u201d, \u201cvagalumes\u201d, \u201cneon\u201d, \u201cfogo\u201d, \u201cfarol\u201d e \u201csol\u201d. Acrescente-se o adjetivo \u201cclaro\u201d.
O poema também apresenta signos que indicam espaços arquitetônicos, não naturais, espaços restritos nos quais o surgimento da luz é uma ação que se dá pela vontade humana: \u201csalões\u201d, \u201cjanela lá de casa\u201d e \u201cbeco\u201d.
Destacam-se, ainda, o signo \u201cnoite\u201d e a indicação de tempo \u201càs seis horas da tarde\u201d se opondo aos vocábulos que justificam o título do poema e que, por essa oposição, os intensificam. A expressão \u201cassim que é bom\u201d indica, para o leitor, uma visão positiva da proposta criada, a de iluminar espaços.
Imagens são construídas para que o leitor identifique com mais precisão o efeito da luz sobre a escuridão, ou da força da luminosidade.  \u201cFogos de línguas de dragões\u201d, em referência a uma passagem bíblica (Pentecostes), sendo que o poeta opta pelo signo \u201cdragões\u201d, transferindo a imagem religiosa para o imaginário mítico comum, o de dragões cuspindo fogo.
\u201cAcendo a lâmpada às seis horas da tarde\u201d sugere uma claridade instantânea que interrompe a escuridão que se aproxima com o passar das horas. \u201cVagalumes / Numa nuvem de poeira de neon\u201d opõem as muitas luzes do inseto à poeira densa da luz artificial. \u201cTudo claro à noite\u201d sintetiza todas as imagens anteriormente selecionadas. Acrescentem-se dois espaços mais restritos que se integram às imagens construídas: \u201cA luz / acesa na janela lá de casa\u201d e \u201cO fogo / O foco lá no beco e um farol\u201d.
O poema termina com a efetivação da proposta autoral, em uma indicação de que, pela vontade humana de iluminar os espaços, a própria \u201cnoite\u201d será iluminada pelo \u201csol\u201d, evidenciando-se, nos versos finais que se repetem, uma construção idealizada da existência.
AULA 8 \u2013 AFRÂNIO COUTINHO E A NOVA CRÍTICA
Reflexões de Afrânio Coutinho Sobre a Crítica Literária
Afrânio Coutinho (1911-2000) foi um dos principais teóricos e críticos de literatura no Brasil. Sua extensa obra reflete sobre a literatura em diversos aspectos e seu legado permite que hoje entendamos melhor o processo de formação de uma crítica literária brasileira que nos permita compreender o fenômeno literário, especialmente aquele consolidado no século XX.
Uma das reflexões de Afrânio Coutinho gira em torno da natureza, da função e das finalidades da crítica literária, assim como \u201cas teorias e métodos revolucionários que caracterizaram o estágio atual de sua evolução\u201d. (COUTINHO, Afrânio. Da crítica e da nova crítica. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975, p. XI).
O autor defende o que ele mesmo denomina de \u201cdoutrina da crítica intrínseca\u201d em oposição à análise extrínseca da obra literária, ou seja, aquela que privilegia o contexto social, histórico e geográfico, o determinismo biológico ou o biografismo que possam ser associados ao texto literário e que acabam por fundamentar a análise. Os elementos intrínsecos que devem ser privilegiados são, principalmente, aqueles que conferem \u201cespecificidade artística\u201d ao texto.
A posição de Afrânio Coutinho gerou polêmicas. No entanto, o critico argumenta que não pretendeu negar o valor de análises extrínsecas da obra de arte, mas reconhecer que um \u201cfato estético-literário exige, como meio mais adequado de análise, um método estético--literário, inspirado em teoria estético-literária\u201d.  (COUTINHO, Afrânio. Da crítica e da nova crítica. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975, p. XIII) Outras disciplinas, segundo o autor, podem ajudar a compor uma análise, mas não devem ser o método de análise de uma obra literária. 
Veja abaixo algumas obras de Afrânio Coutinho.
A Literatura no Brasil
Introdução à Literatura no Brasil
Conceito de Literatura Brasileira
Da Crítica e da Nova Crítica
Natureza e Função da Crítica Literária
Afrânio Coutinho faz uma distinção entre a crítica literária propriamente dita e a crítica representada pela recensão de livros, as quais podem ser distinguidas pela natureza e pela função.
Sobre a natureza, esclarece que é uma \u201ctarefa de analisar, interpretar e julgar a obra de arte literária; requer pressupostos doutrinários