Teoria da Literatura II - Conteúdo Online
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Os pressupostos fundamentais da filosofia positivista são, portanto, a ordenação e a classificação das ciências.
Avançando em seus estudos positivistas, Auguste Comte estabelece, na obra Discurso sobre o conjunto do positivismo (1848), uma proposta de significação moral mais ampla, pela qual indicava o predomínio do coração sobre a razão e a atividade para que se formasse uma \u201creligião da humanidade\u201d. Assim, o positivismo se configurava sob três aspectos: uma teoria da ciência, uma doutrina de reforma social e uma religião.
Na obra Sistema de Política (1851-1854), Comte retoma os propósitos práticos em detrimento dos teóricos ou filosóficos. Consolida-se a \u201creligião da humanidade\u201d com ídolos, sociolatria, sociocracia e catecismo, propostas muito semelhantes às do catolicismo, o que se confirma com a obra O Catecismo Positivista (1852). O positivismo, então, assume a condição de um credo baseado na ciência, e disso decorrem aberturas de templos e práticas de cultos positivistas.
Essas novas idéias de Auguste Comte dividiram os pensadores dos séculos XIX: uns, os ortodoxos, seguiram as propostas religiosas de Comte; outros, os heterodoxos, permaneceram fiéis aos postulados iniciais da filosofia positivista, de cunho científico e filosófico.
A doutrina filosófica positivista alcançou grande repercussão no Brasil, protagonizando o advento da república, visto que vários republicanos, como Benjamin Constant, eram positivistas. A divisa Ordem e Progresso, que consta da bandeira nacional, tem inspiração no lema do Positivismo \u201co amor como princípio, a ordem como base e o progresso como fim\u201d.
O Determinismo
É o nome de uma teoria filosófica segundo a qual todos os acontecimentos do universo obedecem às leis naturais causais, ou seja, a natureza, a história e a sociedade estão submetidas a leis e causas que determinam sua existência, sua forma e sua evolução.
As concepções deterministas estão presentes na filosofia da Antiguidade Clássica, especialmente no atomismo (é uma filosofia natural que preconiza a existência de partículas mínimas, sólidas e indivisíveis, chamadas átomos, que originam todas as coisas do universo. A reorganização constante desses átomos explicaria as constantes transformações do mundo) grego, mas somente foram estabelecidas por uma proposta teórica mais sistematizada no século XIX, devido aos avanços no campo do saber científico.
As doutrinas deterministas estão vinculadas a uma compreensão mecanicista da realidade, estudada a partir da relação de causa e efeito entre os objetos e fenômenos. A concepção clássica de determinismo teve origem nos estudos de Pierre-Simon Laplace, na Teoria Analítica das Probabilidades (1812), obra na qual o filósofo defende a idéia de que, se num momento específico, fossem conhecidas todas as forças da natureza e o estado de cada um de seus elementos, seria possível determinar tanto o passado quanto o futuro do objeto investigado mediante uma análise matemática. Essa teoria pode ser sintetizada da seguinte maneira: as mesmas causas, em circunstâncias idênticas, produziriam os mesmos efeitos.
Essa teoria determinista mais radical configura o homem como objeto de investigação científica, não o distinguindo das outras coisas presentes no universo. Para os deterministas clássicos, as ações humanas também seriam condicionadas a causas específicas, assim como os fenômenos naturais.
A filosofia determinista defende a tese de que seria impossível ao homem agir livremente, pois ele estaria condicionado a causas anteriores. Essa idéia não exime o homem de suas responsabilidades, mas entende ser possível prever suas ações e os resultados dessas.
Contexto Histórico e Social do Positivismo e do Determinismo
Em meados do século XIX, o mundo sofreu grandes transformações. Se, por um lado, o advento da Revolução Industrial, ao lado dos avanços científicos, possibilitou ao homem sonhar com o progresso e o bem-estar social, por outro, o caos da urbanidade gerou insatisfações devido ao crescimento desordenado das cidades e às distâncias crescentes entre a classe operária e os donos do capital.
A nova orientação cientificista transformou o homem em mais um objeto de investigação dentro de um universo de coisas materiais, inserido em um contexto histórico e social. Essa nova proposta, inevitavelmente, anula a subjetividade romântica e o homem moderno vê-se diluído entre teorias científicas e filosóficas e práticas que o coletivizam, aniquilando sua individualidade.
Positivismo e Determinismo na Crítica e na Historiografia Literária
Na literatura ocidental, a dicotomia entre a subjetividade e o cientificismo se fará presente em movimentos antagônicos. Românticos e simbolistas tendem a um afastamento do mundo real, buscando, os românticos, o mundo idealizado, e os simbolistas, a fuga da existência.
Em comum, apresentam um estado de depressão finissecular (conceito que representa, literariamente, o fim do século, extremo de uma época). Seguindo outra vertente de pensamento, parnasianos, realistas e naturalistas, filiados ao cientificismo, tenderão a compreender o homem como produto da sociedade e do meio ambiente, fundados na certeza de que a investigação criteriosa dos fenômenos sociais, dos quais o homem faz parte, levaria a uma evolução humana e social.
Todas essas transformações e o posicionamento antagônico de intelectuais e artistas levam a uma \u201creflexão sobre a gênese da obra literária, em termos de especulação científica\u201d. (GONÇALVES, Magaly Trindade; BELLODI, Zina C. Teoria da literatura \u201crevisitada\u201d. Petrópolis: Vozes, 2005. p. 94) Taine (1828-1893) foi o introdutor desse postulado, estabelecendo a tríade \u201craça, meio e momento\u201d.
Hippolyte Adolphe Taine foi um dos expoentes do Positivismo do século XIX. Criou o Método de Taine, que consistia em compreender o homem sob três fatores determinantes: meio ambiente, raça e momento histórico.
Elemento Raça nos Estudos da Hereditariedade e a Visão Científica da Gênese
Em relação ao elemento raça, conceito hoje negado por teses diversas, está inserido nos estudos da hereditariedade; quanto ao meio, explica-se pelas transformações sociais drásticas ocorridas com o advento da modernidade; e quanto ao momento, deve ser entendido como um conceito que engloba, na concepção contemporânea, aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais de um período determinado da evolução histórica.
A visão cientificista da gênese da obra literária surge em um contexto social e histórico de formulação de teses que se consolidavam a partir do estudo da origem do objeto investigado, cujo ponto alto é a teoria evolucionista de Darwin. No entanto, é preciso muito critério ao se estabelecer um aspecto positivista ou determinista à criação de uma obra de arte. Isso porque não se contesta que há uma relação intrínseca entre a obra e o contexto em que ela está inserida.
Assim, é inegável que a personalidade e o conhecimento de mundo de um artista influenciam na composição de sua obra, ou que o gênero romance atende aos interesses da burguesia, ou, ainda, que o deslumbramento ou inadequação do homem em relação à vida moderna será matéria de poemas diversos, de Baudelaire a Fernando Pessoa, de Walt Whitman a Carlos Drummond de Andrade. Todavia, a crítica literária apresenta interessantes estudos relativos à produção de obras vinculadas às teorias positivistas e deterministas, o que se torna contribuição inegável ao saber acadêmico.
Realismo, Naturalismo e Parnasianismo: A Formação de Uma Literatura Científica
O Realismo é um movimento literário marcado pelo interesse em explicar a obra como produto originário da sociedade, de um determinado tipo humano e de um tempo histórico específico. O método de estudar a obra a partir de relação entre o seu criador e a sociedade em que ele está inserido levou à Crítica Sociológica, que postula a investigação da obra pelos fatos sociais que nela se fazem representar, mesmo que de forma subliminar. Marco da literatura realista, a obra Madame Bovary