Teoria da Literatura II - Conteúdo Online
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(1857), de Gustave Flaubert, apresenta fatos cotidianos sob uma visão extremamente objetiva da realidade. Não há, no texto, elementos que fujam a uma compreensão científica da realidade, mantendo o romance, como os demais textos realistas, um caráter de tese.
\u201cMas era sobretudo às horas da refeição que ela não agüentava mais, nesta pequena sala do andar térreo, com a estufa que fumegava, a porta que rangia, os muros que gotejavam, as lajes úmidas; toda a amargura da existência parecia-lhe servida no seu prato e, como a fumaça do cozido, subiam do fundo de sua alma como em outras baforadas de enjôo. Carlos era vagaroso ao comer; ela mordiscava algumas avelãs, ou então, apoiada no cotovelo, divertia-se a fazer riscos com a ponta da faca na toalha.\u201d (Madame Bovary, Gustave Flaubert)
A passagem destacada apresenta uma cena comum: marido e mulher compartilham uma refeição. O que se revela, no entanto, é o tédio da Emma Bovary. Flaubert descreve a cena, a fim de que o leitor possa perceber, por si mesmo, como o ambiente externo atua sobre a disposição interna da personagem.
A proposta de compreender o homem através do meio social em que ele está inserido intensifica-se com o movimento naturalista, que tem em Émile Zola seu maior porta \u2013 voz. O autor considerava que os personagens de um romance deveriam ser elaborados em função dos elementos hereditários e da sua relação com o meio social em que estivesse inserido.
Zola (Émile Zola, escritor francês, criador da escola literária naturalista) defende essa tese no ensaio Romance Experimental:
\u201cÉ a investigação científica, é o raciocínio experimental que combate, uma por uma, as hipóteses dos idealistas, e substitui os romances de pura imaginação pelos romances de observação e experimentação.\u201d
Os postulados do positivismo e do determinismo reforçam teses diversas, como vemos no estudo de Michelle Perrot sobre a divisão de classes sociais no século XIX:
\u201cÉ que o lavadouro é para elas muito mais do que um lugar funcional onde se lava a roupa: um centro de encontro onde se trocam as novidades do bairro, os bons endereços, receitas e remédios, informações de todos os tipos. Candinhos do empirismo popular, os lavadouros são também uma sociedade aberta de assistência mútua: se uma mulher está no \u2018atoleiro\u2019, acolhem-na fazem uma coleta para ela. A mulher abandonada pelo seu homem merece no lavadouro, onde a presença masculina se reduz a meninos importunos, de uma simpatia especial.\u201d (PERROT, Michelle. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. 4 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1988).
Fundadas na mesma proposta, as obras naturalistas se fazer representar, do que é exemplo o livro O Cortiço, de Aluisio Azevedo. Note-se a semelhança entre o texto de Michelle Perrot e o elaborado por Azevedo, propondo, ambos, que o leitor compreenda como o meio social interfere sobre a vida do ser humano: 
\u201cDaí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via\u2013se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. (AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo: Editora Ática, 1987).\u201d
Quanto ao Parnasianismo, mais representativo na literatura brasileira, em versos, identificam-se, também, propostas cientificistas, porém mais conformes a uma descrição objetiva dos motivos apresentados nos textos literários.
Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira: escritores que adotaram a visão objetiva, conforme as orientações científicas do século XIX.
O apuro técnico dos textos serve a uma visão objetiva do tema, como vemos nos versos de Alberto de Oliveira, do poema \u201cAspiração\u201d:
Ser palmeira! Existir num píncaro azulado,
Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando;
Dar ao sopro do mar o seio perfumado,
Ora os leques abrindo, ora os leques fechando; (...)
Vimos, assim, que a orientação científica que fez surgir o Positivismo e o Determinismo definiram a literatura do século XIX, seja pela busca da compreensão do ser humano frente à sociedade;
Seja por uma descrição dos fatos a partir da observação isenta, o que transformava o escritor em observador; ou, ainda pela descrição do objeto, mas sem que o belo artístico fosse ameaçado pela visão científica. A formação de uma crítica literária específica possibilitou que, hoje, possamos compreender as propostas elaboradas no século XIX e a evolução do fazer literário a partir das inovações do Positivismo e do Determinismo.
AULA 3 \u2013 BIOGRAFISMO E IMPRESSIONISMO CRÍTICO
O Impressionismo Crítico
A crítica impressionista permite ao leitor de um texto literário avaliar a obra por métodos unicamente subjetivos, ou seja, que estejam vinculados à moral, à ética e à estética constituídas exclusivamente por critérios de avaliação próprios, não submetidos à percepção conduzida por teorias e práticas literárias formuladas pela intelectualidade e pelo meio acadêmico.
Assim, a crítica impressionista constitui-se como uma opinião fundada apenas nas emoções que o texto provoca no leitor. As análises da crítica impressionista são formuladas a partir das impressões percebidas pelo leitor no contato com o texto.
Os críticos impressionistas consideram que o essencial é o prazer da leitura que se obtém a partir de dados subjetivos e percepções individuais dos leitores. Não há, portanto, preocupações com o rigor metodológico ou com a adequação de teorias à análise literária. É o leitor quem determina o valor da obra, a sua influência sobre seu modo de ver o mundo e as relações possíveis entre obras.
Conciliados a uma crítica literária impressionista, autores diversos como Anatole France e Virgínia Woolf produziram obras que se distanciaram dos padrões literários valorados pela visão acadêmica tradicional.
Fragmento de Orlando, de Virginia Woolf \u2013 exemplo de literatura impressionista.
O tempo, embora faça desabrochar e definhar animais e plantas com assombrosa pontualidade, não tem sobre a alma do homem efeitos tão simples. A alma do homem, aliás, age de forma igualmente estranha sobre o corpo do tempo. Uma hora, alojada no bizarro elemento do espírito humano, pode valer cinquenta ou cem vezes mis que a sua duração medida pelo relógio; em contrapartida, uma hora pode ser fielmente representada no mostrador do espírito por um segundo.
O Impressionismo Literário Brasileiro
No Brasil, Araripe Júnior (1848-1911), crítico que formou com Silvio Romero e José Veríssimo a chamada \u201ctrindade da crítica positivista e naturalista\u201d, não deixou de perceber a nova tendência e enveredou pela crítica biográfica, elaborando ensaios que elucidaram mais a obra de autores consagrados, entre eles Machado de Assis.
O impressionismo literário brasileiro é, segundo Afrânio Cotinho, uma união entre a tendência realista e naturalista e a subjetividade simbolista. Procurando a síntese das informações dadas pelas correntes literárias antagônicas, os impressionistas brasileiros pretendiam uma literatura que mantivesse a objetividade sem enveredar pela explicação científica.
Esclarece Afrânio Coutinho: \u201cO mais importante no Impressionismo é o instantâneo e único, tal como aparece ao olho do observador. Não é o objeto, mas as sensações e emoções que ele desperta, num dado instante, no espírito do observador, que é por ele reproduzido caprichosa e vagamente. Não se trata de apresentar o objeto tal como visto, mas como é visto e sentido num dado momento\u201d. (COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959, p. 240)
Os autores brasileiros que se filiaram à tendência