Teoria da Literatura II - Conteúdo Online
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impressionista, segundo Afrânio Coutinho, são Raul Pompéia, Machado de Assis, na fase final de sua obra, e Graça Aranha, com a obra Canaã.
"Todo o mal está na Força e só o Amor pode conduzir os homens... Tudo o que vês, todos os sacrifícios, todas as agonias, todas as revoltas, todos os martírios são formas errantes da Liberdade. (...) Eu te suplico, a ti e à tua ainda inumerável geração, abandonemos os nossos ódios destruidores, reconciliemo-nos antes de chegar ao instante da Morte..." (ARANHA, Graça. Canaã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p. 218)
A proposta impressionista decorre, como esclarece Arnold Hauser e destaca Afrânio Coutinho, da ideia, presente já no filósofo pré-socrático Heráclito (540 a.C. \u2013 470 a.C.), de que a realidade é mutável, o que se faz representar pela seguinte proposta:
\u201co homem não mergulha duas vezes no rio da vida em eterno movimento para diante\u201d. Portanto, \u201ca realidade não é um estado coerente e estável, mas um vir-a-ser, um processo em curso, em crescimento e decadência, uma metamorfose\u201d. (COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959, p. 241)
As origens da crítica impressionista encontram-se na reação a uma metodologia de historiografia literária que se apoiava apenas em fatores externos ao texto, a uma \u201csociologia da literatura\u201d.
A polêmica era suscitada por haver, a prática acadêmica, consolidado o método histórico em detrimento da própria arte. Paul Van Tieghem, no \u201cPrimeiro Congresso Internacional da História Literária e a crise dos métodos\u201d (1931), apresenta um relatório no qual acusava os críticos de terem deixado de lado \u201co íntimo valor de arte e pensamento da obra, pelo trabalho e acúmulo de dados biográficos e fontes\u201d. Aliam-se a esses métodos historicistas, as orientações positivistas de Auguste Comte que se estenderam para a análise literária.
A Síntese das Ideias de Van Tieghem
Cabe reproduzir aqui, por seu valor histórico e de compreensão para o tema desta aula, a síntese das ideias de Van Tieghem formulada por Afrânio Coutinho, a fim de que se compreenda com mais clareza o contexto em que surge a crítica impressionista e contra que propostas este método se insurge.
\u201c(...) os estudos de história literária a partir do século XIX tomaram diversas direções, dentro das preceptivas do método histórico. Entre elas, devem mencionar-se, segundo Van Tieghem, as seguintes: 1. literatura comparada. Estuda as relações entre as produções das diversas literaturas modernas, procura explicar a obra literária pelas fontes, imitações, influências (...); 2. literatura geral. Alargando o objeto da literatura comparada, coloca a obra no meio internacional, estuda-a nas suas relações com as obras análogas, na forma ou no espírito, produzidas na mesma época ou em épocas paralelas em vários países (...);
3. história literária sociológica. Estuda o público a que se dirigem as obras, os elementos diversos, os caracteres, as reações, as variações sucessivas ou paralelas do gosto, a influência nos escritores (...); 4. história literária geográfica. Agrupa os escritores e as obras por províncias ou regiões (...); 5. história literária geracional e periódica. Divide a evolução da literatura em períodos (Periodisierung), ou, mais especificamente, em \u201cgerações\u201d, com o intuito de melhor explicar as sucessões e alternâncias de que é feita a história literária (...)\u201d.  (COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959, p. 10).
O Surgimento de Uma Crítica Impressionista
Vemos, então, que a necessidade do surgimento de uma crítica impressionista justifica-se ante um tratamento dado à literatura, pela crítica de um modo geral, baseado exclusivamente na coleta de dados e nos métodos comparativos, deixando de lado o próprio texto literário, o qual deveria ser o objeto primeiro da análise.
Entre as muitas ressalvas apresentadas por Paul Van Tieghem contra a prática de análise historiográfica, destaca-se um argumento que justifica a formulação da crítica impressionista: a crítica historiográfica e cientificista não leva em conta que \u201co espírito do escritor foi alimentado durante a criação por uma multidão infinita de encontros que desaparecem sem deixar rastos\u201d. (COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959, p. 12).
A crítica literária historiográfica e a crítica literária positivista forneceram aos seus opositores as armas para sua diluição ao centrarem em demasia os estudos em aspectos extraliterários.
Afrânio Coutinho, bem como vários de seus pares, tendeu para uma análise crítica que evidenciasse a obra, embora não recusasse dados exteriores ao texto para melhor compreender o objeto em análise.
Coutinho Opõe-se à Crítica Impressionista
O próprio Afrânio Coutinho opôs-se à crítica impressionista por considerar que ela abdicava demais de informações relevantes para a análise de um texto, visto que um autor faz parte de um sistema social e cultural e, portanto, sofre dele influências diversas ao criar a sua obra. Coutinho recusa a tendência humanística que faz parte da formação da intelectualidade brasileira, carente de uma \u201cconsciência técnica\u201d advinda da falta de uma formação educacional criteriosa.
Além disso, não concebe a prática de se relacionar o texto literário com outras formas de arte, comparação e crítica que se formulam apenas no espírito humano, o que leva a uma crítica impressionista. Essa prática tem, no jornalismo, alguns dos maiores críticos brasileiros, como Tristão de Athaíde, Otto Maria Carpeaux, tipificados como críticos impressionistas e, expoente máximo dessa corrente, Álvaro Lins, cuja obra Os Mortos de Sobrecasaca (1940-1960) é o mais relevante registro dessa proposta.
A crítica impressionista de Álvaro Lins se faz representar na análise elaborada da poesia \u201cSentimento do Mundo\u201d, de Carlos Drummond de Andrade:
\u201cSim: se eu tivesse o gosto das classificações diria que o Sr. Carlos Drummond de Andrade é o poeta que mais unanimemente representa a poesia moderna no Brasil, através da linha fiel dos seus desdobramentos. Na forma, na substância poética, nos temas, na posição histórica \u2013 tornou-se o poeta mais representativo do modernismo.\u201d
Ora, Sentimento do Mundo caracteriza-se, inicialmente, pela apresentação de uma linguagem e de uma forma realmente poéticas; a linguagem sendo de caráter mágico, como em toda poesia, não de caráter exatamente lógico, como nos gêneros prosaicos.
Percebemos, no texto de Álvaro Lins, duas propostas da crítica impressionista: recusar as classificações ao gosto historiográfico e autorizar o leitor a uma coautoria necessária para melhor apreensão do texto literário.
Ora, Sentimento do Mundo caracteriza-se, inicialmente, pela apresentação de uma linguagem e de uma forma realmente poéticas; a linguagem sendo de caráter mágico, como em toda poesia, não de caráter exatamente lógico, como nos gêneros prosaicos. E esta linguagem mágica faz cada palavra encerrar um significado múltiplo e oscilante; faz, de cada palavra, um pequeno universo que se prolonga no leitor, que o obriga a se continuar nele, participando da experiência e do conhecimento do poeta.
(LINS, Álvaro, Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963. p. 7) 
Não podendo, em versos, \u201cexplicar-se\u201d como em prosa, o Sr. Carlos Drummond houve de emprestar, por isso, à sua linguagem poética um poder mágico de sugestão, houve que concentrar nos desdobramentos imagináveis uma grande parte de sua função demiúrgica. Portanto, é um poeta que exige a colaboração e a participação do leitor. (...)\u201d
(LINS, Álvaro, Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963. p. 7) (grifos nossos)
A Crítica Biográfica
Estando o homem inserido na sociedade, dela participa, sofre influências, reage. Não poderia ser diferente com o autor e uma obra literária. É com essa certeza que surge, entre a intelectualidade brasileira, a crítica biográfica, a qual preconiza que a análise de um texto