historias de aprendizagem
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DisciplinaTrabalho de Conclusão de Curso - TCC7.625 materiais39.471 seguidores
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que a disciplina 
em questão é um pilar importante em Ciência da 
Computação. A oportunidade de aprendê-la mais 
profundamente, mesmo que sob pressão, me motivou 
bastante. 
O fato de que eu iria estudar novamente sozinha nem 
era mais uma questão em si. Eu já fazia isso há tantos 
anos que praticamente não imaginava mais outra 
forma de aprender. 
E hoje, na verdade, estou convencida de um fato que 
hoje me parece elementar: se a aprendizagem é uma 
coisa que acontece na cabeça de cada um, então a 
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Ana Lopes
única forma real de aprendizagem é a 
autoaprendizagem. Professores, livros e Internet, no 
final das contas, são meras ferramentas para me 
ajudar a fazer a coisa acontecer.
Depois de pegar a tal disciplina nova, eu ainda 
consegui resistir à pressão da chefia, durante algum 
tempo, e manter duas disciplinas fixas por alguns 
semestres. 
Foi um período ótimo, já que assim eu consegui ir 
refinando meus conhecimentos e minhas aulas 
semestre a semestre. Mas uma hora a coisa começou a 
ficar insustentável. 
No início, o curso oferecia muitas disciplinas 
\u201cgenéricas\u201d, aquelas ligadas a outras áreas de 
conhecimento. Coisas como Metodologia Científica, 
Inglês Instrumental, por exemplo, aliviavam a nossa 
necessidade por professores especialistas em 
Computação. 
O problema é que as disciplinas que deviam ser 
oferecidas para a turma que avançava eram cada vez 
mais específicas e nós precisávamos de gente com 
conhecimento e experiência específicos naquelas 
áreas. 
Só tinha um probleminha: a gente fazia concursos e 
não apareciam candidatos! A verdade é que nós 
estávamos em uma cidade pequena, distante dos 
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Histórias de Aprendizagem
grandes centros do Sudeste e procurando gente 
qualificada em uma área que seguramente dava mais 
dinheiro que o Magistério... 
Quer dizer, se parar para pensar com calma, 
praticamente qualquer profissão de nível superior dá 
mais dinheiro que o Magistério no Brasil. Em áreas 
de tecnologia a coisa só é um pouquinho pior... 
Quem já estava por ali, ou era nativo ou era meio 
bicho-grilo, ou seja, era gente que tinha aberto mão 
dos salários e oportunidades das grandes capitais e 
estava em busca de uma vida mais tranquila, fora da 
loucura da cidade grande. Esse, aliás, era o meu caso. 
Enfim, a coisa começou a ficar feia: cada um de nós 
tinha que pegar disciplinas novas todo semestre. Para 
mim, isso quase sempre significava aprender do 
\u201czero\u201d (ou no máximo do \u201cum\u201d ou \u201cdois\u201d). 
Mas não teve outro jeito: em um período de sete anos 
ensinei pelo menos sete a oito disciplinas diferentes. 
Claro que estavam longe de serem cursos perfeitos. A 
primeira rodada em cada disciplina nova era 
geralmente bastante precária e nem sempre eu tinha 
chance de passar por uma segunda rodada, porque 
aparecia outra disciplina nova que não tinha mais 
ninguém para pegar. 
O lado positivo? Bom, para variar, eu aprendi 
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Ana Lopes
muuuuito nessa época, ampliei muito meus 
horizontes na área. A essa altura, eu já começava a 
me enfezar se alguém insinuasse que eu não era uma 
Cientista da Computação \u201cde verdade\u201d.
Em algum momento desse redemoinho, nós chegamos 
a achar que o curso ia acabar fechando por falta de 
professores. Felizmente, porém, aos poucos nós 
fomos conseguindo atrair mais gente para os 
concursos e a coisa foi se normalizando aos 
pouquinhos. 
Mais ou menos nessa mesma época vieram os meus 
filhos. Gêmeos! Diante de tamanho desafio, que 
talvez tenha sido maior do que todos os que eu já 
tinha enfrentado, acabei me concentrando mais na 
minha vida pessoal, enquanto que a vida profissional 
foi deixada no \u201cpiloto automático\u201d. 
Claro que, em plena Era da Informação, esse piloto 
automático me custou beeeeeem caro. Mas isso já é 
assunto para outra história, que aconteceu alguns 
anos mais tarde. 
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Um público (radicalmente) 
diferente
Como uma boa \u201ccria\u201d de Universidades Federais, e 
estando agora no ambiente mais protegido de uma 
Universidade Pública, eu rapidamente me tornei 
famosa como professora \u201cdurona\u201d. 
Não havia uma maldade intrínseca naquilo, como 
alguns alunos muito provavelmente acreditavam. O 
fato é que eu acreditava que ser bastante severa era 
parte indispensável de fazer o meu trabalho bem-
feito. 
Nas Universidades Públicas mais tradicionais, e 
especialmente na área de Ciências Exatas, existe uma 
mitologia de que se não houver sofrimento 
considerável, a disciplina não valeu a pena. Embutida 
nesta mitologia, está também a crença de que, nesses 
casos de \u201csofrimento moderado\u201d, o professor não é 
sério e \u201cdeu moleza\u201d. 
Hoje, eu estou um pouquinho mais sabida e já sei o 
quanto o cérebro aprende menos quando está sob 
stress, apesar de muita gente acreditar no contrário. 
Ou seja, é preciso urgentemente encontrar formas 
Ana Lopes
mais criativas de motivar os estudantes a fazer o 
trabalho duro que tem que ser feito para aprender 
para valer. 
Infelizmente eu ainda não encontrei um caminho 
seguro para fazer isso, mas já tenho alguns indícios 
de que tentar ser razoável naquilo que se pede dos 
alunos ajuda bastante. 
A essa altura, os mais tradicionalistas já devem estar 
se perguntando: o que seria \u201crazoável\u201d? 
Sinceramente, eu pessoalmente, como professora, 
ainda não encontrei uma fórmula para definir 
\u201crazoável\u201d em situações de aprendizagem. Por 
enquanto, vou usando mais a observação e um pouco 
do instinto também. 
De todo modo, a neurociência, que eu tenho 
acompanhado com muito interesse nos últimos anos, 
parece estar encontrando algumas respostas bem 
interessantes, com sugestões bastante práticas. Resta 
saber quando nós \u2013 professores e aprendizes \u2013 vamos 
começar a ouvir os neurocientistas e aplicar os novos 
conhecimentos no nosso dia-a-dia, mesmo que 
algumas delas desafiem o nosso tão estimado senso-
comum (ou o nosso ego de detentores de todo o 
saber). 
Bem, eu escrevi tudo isso sobre aprendizagem para 
introduzir uma experiência muito rica e gratificante 
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Histórias de Aprendizagem
que eu tive quase por acaso, e que abalou todas as 
premissas básicas que eu seguia sobre o que seria 
uma professora séria. 
Fui convidada para ensinar Informática Básica a um 
grupo de professores da rede pública em serviço. Eu 
tinha pouco mais que trinta anos, e eles eram um 
bando de cinquentões. Para piorar, estavam 
estressadíssimos. 
Um dos motivos para tanta irritação era o fato de eles 
estarem sendo praticamente \u201cobrigados\u201d a abrir mão 
das suas férias para fazer aquela graduação. 
Pairava sobre eles a ameaça de, no mínimo, começar 
a ter dificuldades em manter os seus empregos e as 
suas posições nas escolas, caso não completassem um 
curso superior até uma determinada data, 
determinada pela Lei de Diretrizes e Bases. 
O segundo motivo era que a maioria estava 
encontrando imensas dificuldades nas disciplinas. 
Muitos deles davam as mesmas aulas há anos, e 
tinham desaprendido como se estuda. 
Informática Básica tinha tudo para ser um grande 
monstro extra no pesadelo deles. Muitos deles nunca 
tinham mexido em um computador. Alguns tinham 
tentado e desistido, humilhados pela agilidade 
impaciente de filhos e alunos. Quando eu entrei na 
sala de aula