historias de aprendizagem
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DisciplinaTrabalho de Conclusão de Curso - TCC7.587 materiais39.240 seguidores
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Qualis dos currículos dos autores. 
Volta e meia aparece nas listas de discussão de 
pesquisadores uma grande polêmica sobre o mau uso 
do Qualis como medida universal de qualidade 
científica. Mas o fato é que ele está mais do que 
estabelecido no inconsciente coletivo acadêmico. 
Mesmo quem não concorda muito com os critérios do 
Qualis, se quiser sobreviver e progredir nesse 
ambiente, tem que dançar conforme a música. 
Resumo dessa complicada ópera: se eu quisesse ter 
alguma chance de ser aceita em um doutorado 
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decente, não bastava ter publicado alguma vez na 
vida. Tinha que ter publicado muito, recentemente e 
em revistas com bom índice Qualis. 
Foi aí que eu descobri que o meu currículo \u2013 que na 
época em que eu terminei o Mestrado podia ser 
considerado ótimo \u2013 não valia mais quase nada. 
Em outras palavras, eu tinha que me reinventar como 
pesquisadora. Ninguém estava interessado nas 
minhas condições de trabalho (ou na falta delas). 
Também não queriam saber o quanto eu tinha 
aprendido e ensinado nos últimos anos fazendo 
malabarismo para fazer um curso novo funcionar. E 
obviamente, estavam menos interessados ainda no 
fato de que, no meio disso tudo, eu tinha um casal de 
gêmeos para cuidar...
Só o que importava eram os resultados recentes e 
\u201cmensuráveis\u201d (segundo o Qualis, é claro!). E neste 
caso, eu não tinha nada para mostrar. 
Felizmente, chegou a hora de ter novamente um 
pouquinho daquela pontada de sorte que, de vez em 
quando, costuma cair sobre a minha cabeça como um 
raio vindo de algum lugar misterioso. 
O ex-orientador de Mestrado de um colega de 
trabalho iria nos visitar em um evento local. O tal 
colega me passou dicas preciosíssimas sobre os 
interesses específicos daquela pessoa, e eu me 
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Ana Lopes
\u201carmei\u201d até os dentes para recebê-la. 
Pesquisei sobre o assunto, me familiarizei com o 
jargão da área em que o sujeito trabalhava e com o 
atual estado das coisas. Quando o nosso visitante 
chegou, eu parti para cima, cheia de ousadia: na 
primeira oportunidade, fiz uma proposta de trabalho 
de colaboração à distância exatamente naquele 
assunto que ele tinha interesse. 
A dificuldade seria justamente na palavrinha 
\u201cdistância\u201d. Se a EaD (Educação a Distância) ainda 
hoje é um bicho de sete cabeças para muita gente, 
pesquisa a distância era algo no mínimo inusitado. 
Mesmo entre os pesquisadores supostamente 
\u201cmoderninhos\u201d da Computação não é muito fácil 
achar um que tope fazer um trabalho 
majoritariamente à distância.
Felizmente para mim, o cidadão em questão era um 
moderninho de verdade e aceitou a minha proposta. 
Eu quase não acreditei, mas também sabia que aquilo 
era só o começo. Agora, eu tinha que provar que 
poderia produzir algo decente naquelas condições, 
caso eu quisesse \u2013 como eram os meus planos \u2013 que 
ele fosse meu futuro orientador. 
Para enfrentar tamanha prova de fogo, tirei dinheiro 
do meu próprio bolso para comprar um computador 
novo e me lancei no projeto de cabeça, tronco e 
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membros. 
Eu tinha agora a missão de reconstruir um currículo 
que as traças tinham praticamente destruído ao longo 
dos últimos anos (pelo menos na visão de quem iria 
me avaliar). 
Mais uma vez, um período de muita aprendizagem me 
aguardava. 
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PaD: \u201cPesquisa a distância\u201d
Então agora eu estava de volta à arena. E a luta seria 
grande: eu tinha que escrever e desenvolver um 
projeto de pesquisa com múltiplas finalidades. 
Primeiro, eu precisava conquistar o meu candidato a 
futuro orientador, fazendo um bom trabalho, mesmo 
trabalhando a distância. E esse \u201cbom trabalho\u201d 
incluía necessariamente publicar em algum evento ou 
revista minimamente reconhecidos pelo Qualis. 
Isso se eu pretendesse de verdade que os comitês de 
avaliação nas pós-graduações chegassem a considerar 
o meu currículo para análise. 
A área na qual eu propus o projeto era uma área que 
eu conhecia pouco, então tive que fazer algo muito 
semelhante àquilo que eu tinha feito no Mestrado. Ou 
seja, muito garimpo, muita informação 
desencontrada organizar, muito retalho para 
remendar num todo coerente que eu pudesse chamar 
de \u201cprojeto de pesquisa\u201d. 
Mas eu tenho que confessar: eu adorava fazer aquilo. 
Aliás, adoro até hoje. Acho que é por isso que eu me 
encantei recentemente com o patchwork como hobby. 
Eu acho incrível a sensação de juntar pedacinhos que 
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parecem ter pouca relação entre si, e no final acabar 
com um desenho tão bonito. Não que eu seja uma 
artista do patchwork, mas são os meus trabalhos e eu 
os adoro! São quase filhos para mim. 
Com os meus projetos a sensação é parecida. Eu vou 
juntando pequenos fragmentos de informação, 
tentando fazer relações entre eles e descobrir formas 
de fazer algo diferente, alguma pequena coisa que 
ninguém nunca pensou antes. 
No início, é difícil ter ideias que façam sentido. Mas 
depois de um tempo de mergulho no assunto, alguma 
ideia começa a se formar na nossa cabeça, quase que 
como mágica. Ok, é mágica regada a muita leitura e 
reflexão, mas isso não impede que esse momento em 
que a lâmpada finalmente acende seja um momento 
de pura euforia. 
Enfim, apesar do trabalho ser duro, eu estava no meu 
habitat natural, completamente à vontade. 
Depois de escrito e aprovado o projeto, eu tive que me 
voltar para atividades mais pragmáticas e aprender a 
programar para a Web. As coisas no mundo do 
software estavam migrando para a Web bem naquele 
momento e eu não podia começar um projeto de 
pesquisa que oferecesse uma solução dentro de um 
paradigma velho, né?
E lá fui eu novamente: comecei a fuçar manuais, 
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Ana Lopes
livros e muitos tutoriais na Internet, para aprender a 
fazer uma coisa que na época quase ninguém à minha 
volta sabia fazer (alguém aí está com uma ligeira 
sensação de dejà-vu?).
De novo, não foi moleza. Muita tentativa e erro, e 
bota \u201cerro\u201d nisso! Mas depois de alguns meses 
quebrando a cabeça, eu consegui colocar uma 
primeira versão do software no ar. Também consegui 
publicar o primeiro artigo sobre o trabalho em uma 
boa conferência.
Eu estava no céu: adorava pesquisar, aprender coisas 
novas e programar, o assunto era bacana, o software 
estava funcionando e consegui logo de cara uma boa 
publicação. Além disso, o meu colaborador (que a 
essa altura eu já via como meu orientador) era ótimo 
e estava gostando do trabalho. 
Mas a minha felicidade durou só alguns poucas 
semanas após a publicação do artigo. Ela acabou 
quando fui rejeitada em TODOS os programas de 
doutorado que tinha me inscrito. 
Eu não conseguia acreditar. Foi um golpe e tanto: no 
meu entender, eu tinha sido muito mais do que bem-
sucedida: em pouco mais de um ano, entrei numa 
área nova, escrevi um projeto nela, tinha um software 
rodando na web e um artigo Qualis publicado! 
Mas parece que ninguém além de mim e do meu ex-
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quase-orientador conseguia se dar conta do tamanho 
da minha proeza. Aparentemente, o que mais pesou 
contra mim foi o fato de que eu tinha \u201csó\u201d um artigo 
Qualis recente. E isso não foi considerado suficiente 
para entrar em um bom programa de doutorado. 
Recebi aqueles múltiplos \u201cnãos\u201d com um profundo 
sentimento de injustiça e uma enorme frustração. Fui