historias de aprendizagem
118 pág.

historias de aprendizagem


DisciplinaTrabalho de Conclusão de Curso - TCC7.599 materiais39.332 seguidores
Pré-visualização18 páginas
para a beira da praia, sentei na areia, olhei para o 
mar e chorei de raiva. 
Depois de um bom tempo de \u201cluto\u201d por tantas 
rejeições ao mesmo tempo, resolvi mostrar o quanto 
eu era teimosa. Continuei a desenvolver o projeto do 
ponto em que ele estava. No ano seguinte, emplaquei 
mais dois artigos em conferências, um segundo lugar 
num concurso de softwares e um artigo em revista 
(para quem não conhece o sistema, publicações em 
revistas são bem mais valiosas para a Capes que 
publicações em eventos). 
Eis a força de um ego ferido!
Aquele projeto de pesquisa funcionou praticamente 
como se eu tivesse feito um novo Mestrado. Dois anos 
de trabalho intenso, começando praticamente do 
nada. 
E ele acabou valendo mesmo como um segundo 
Mestrado: com esse \u201cnovo currículo\u201d, eu me inscrevi 
em quatro programas de doutorado no ano seguinte. 
78
Ana Lopes
Dos quatro, três me aceitaram. 
Agora sim, eu estava nas nuvens: em 12 meses, eu 
passei da rejeição total ao privilégio de poder 
escolher para onde eu queria ir. 
Escolhi aquele que eu considerava o melhor 
programa, que por sorte, dentre as possibilidades que 
eu tinha, ficava na melhor cidade para se viver. 
Acabou sendo uma ótima escolha: no meio do meu 
Doutorado, o nosso programa foi um dos poucos do 
país a receber a nota máxima na avaliação da Capes. 
Eu não só tinha emplacado uma vaga em um 
doutorado, mas em um doutorado de primeira linha. 
Dessa vez, a mudança foi de \u201cmala, cuia e família a 
tiracolo\u201d. Na aula inaugural, o coordenador do curso 
disse algo que me marcou bastante: \u201co principal 
produto do doutorado não é a Tese, mas sim vocês. 
Vocês são o produto mais importante desse processo 
todo. Sairão daqui transformados em alguma outra 
coisa que vocês hoje não são\u201d. 
Eu mal sabia o quanto ele tinha razão.
79
Fluente em inglês, finalmente!
Então, lá estava eu, \u201cnos bancos da escola\u201d de novo, 
depois de vários anos do \u201coutro lado\u201d. O formato das 
disciplinas no doutorado, como já era de se esperar, 
era o mais tradicional possível. Afinal de contas, eu 
estava numa escola de tradição! 
Além do formato tradicional, as disciplinas eram 
quase todas muito, muito pesadas. O volume de 
informação despejado sobre nós em cada aula era 
indecente. 
Apesar de tudo isso, eu estava indo bem nesta 
primeira fase do doutorado. Estava feliz por ter 
voltado a estudar, achando que a vida agora ia ser 
relativamente tranquila por um bom tempo. Afinal 
\u201cestudante\u201d sempre havia sido meu status preferido!
Mas um dia, por acaso (ou por sorte mesmo), o 
evento mais importante da área de pesquisa em que 
eu estava trabalhando aconteceu na cidade. Foi uma 
semana pra lá de interessante\u2026
O evento era organizado por brasileiros, mas 
acontecia 90% do tempo em inglês. Português 
mesmo, só se ouvia nos corredores, isso se não 
Ana Lopes
houvesse nenhum estrangeiro na roda. Havia também 
umas poucas palestras voltadas para estudantes de 
graduação que eram em português. E só. 
Saí daqueles três dias realmente assustada: depois de 
muita dor de cabeça para tentar entender tanto 
inglês, havia ficado claro como água que somente 
saber ler artigos técnicos em inglês não seria nem de 
longe suficiente para completar o meu doutorado. 
A maioria das áreas em Ciência da Computação no 
Brasil não tem essa ênfase tão forte na 
\u201cinternacionalização\u201d ao ponto de fazer um evento 
brasileiro em inglês. Mas parecia que eu tinha 
conseguido escolher a dedo a minha nova área de 
atuação...
Saí daquele evento seriamente preocupada: como é 
que eu poderia pensar em publicar em uma área que 
praticamente só existia em inglês, se me faltavam 
competências básicas naquela língua?
Eu não tinha saída, dessa vez tinha que aprender 
inglês pra valer. Não bastava ler \u201cmais ou menos\u201d. Eu 
tinha que entender, falar e escrever bem. Mas apesar 
de ter passado por alguns cursos de renome, nunca 
cheguei a passar da fluência em leitura técnica. 
Eu até gaguejava alguma coisa em caso de 
necessidade, mas as minhas habilidades auditivas 
eram bem precárias, o que inviabilizava qualquer 
81
Histórias de Aprendizagem
conversa séria. Além disso, eu escrevia mal, quase tão 
mal quanto os tradutores automáticos que a gente 
acha por aí na Web.
Enfim, a situação era periclitante. 
Para piorar, eu estava com sérias \u201crestrições 
orçamentárias\u201d naquela época. E na verdade eu nem 
queria muito fazer mais um curso de inglês. Fazia 
tempo que eu não acreditava mais em sala de aula e 
esta descrença se aplicava especialmente para 
aprender línguas. 
Afinal de contas, o meu fracasso nesse caminho era 
patente: como é que uma pessoa pode ser uma ótima 
aluna de inglês por vários anos e não conseguir se 
expressar minimamente nessa língua?
Comecei então uma verdadeira caçada na Internet por 
opções gratuitas para aprender inglês. No início do 
processo, eu percebi um detalhe que foi fundamental 
para o rumo que as coisas tomaram a seguir: a 
principal origem da minha dificuldade para entender 
o inglês falado era a falta de vocabulário. 
Quando eu ouvia alguma coisa menos técnica, eu até 
entendia algumas palavras soltas, mas não o 
suficiente para entender o que estava sendo dito. 
Quando eu pegava o texto, ou a transcrição do áudio, 
eu via que não tinha mesmo como entender, por um 
motivo quase simplório: as palavras que eu não 
82
Ana Lopes
conseguia entender eram palavras que eu não 
conhecia!
Ou seja, o meu vocabulário fora dos artigos técnicos 
era paupérrimo. 
Diante dessa constatação \u201cgenial\u201d, que hoje me 
parece óbvia, eu arquitetei um plano: eu iria estudar 
vocabulário vorazmente através da leitura de livros e 
estudo de \u201cflashcards\u201d (aqueles cartõezinhos com 
uma palavra de um lado e a tradução do outro). 
Iria também ouvir coisas diversas, como filmes e 
músicas, até que eu conseguisse entender pelo menos 
uma boa parte delas. 
A ideia era que quando a minha situação financeira 
melhorasse, eu faria algumas aulas de conversação, já 
com um vocabulário mais ampliado e um ouvido mais 
aguçado. 
Mas aí aconteceu um daqueles acasos maravilhosos 
da vida: eu descobri um site que pregava a 
aprendizagem de línguas quase exatamente do jeito 
que eu havia planejado: ouvindo muito e estudando 
vocabulário. Para ficar ainda melhor, ele já tinha os 
flashcards e dicas ótimas para aprender mais rápido. 
O site era o LingQ, que foi criado por um adorável 
maluco Canadense chamado Steve Kaufmann, que 
tem a audácia de falar 9 ou 10 línguas. E ele teve a 
83
Histórias de Aprendizagem
maravilhosa ideia de fazer do seu hobby um site com 
um método de aprendizado de línguas completamente 
diferente de tudo o que eu tinha encontrado até 
então. Tão diferente, que até funcionava!
Para completar, o livro do Steve, que eu estudei como 
uma das minhas fontes de vocabulário, foi também 
uma fonte de dicas valiosíssimas sobre como 
aprender uma língua na \u201cvida real\u201d. 
A proposta dele era que aprender uma língua não é 
algo que se faz para passar em algum tipo de prova, 
mas sim, para cair no mundo mesmo: conversar, 
escrever, ler livros, ver filmes. Enfim, a meta era usar 
a língua para aquilo que ela foi feita: comunicar-se.
Eu confesso que fiquei meio obcecada