historias de aprendizagem
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historias de aprendizagem


DisciplinaTrabalho de Conclusão de Curso - TCC7.617 materiais39.440 seguidores
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um jeito de 
fazer o meu!
E aos poucos, um verdadeiro milagre da 
aprendizagem foi acontecendo comigo. Conforme eu 
ia acumulando conhecimento sobre aquele assunto, 
os próximos artigos iam ficando cada vez mais fáceis 
de ler. De repente eu passei a ler dois ou três artigos 
por semana, e quando eu me dei conta, estava 
devorando três ou quatro por dia! 
Ou seja, eu estava vivenciando exatamente aquilo que 
a neurociência previa: quanto mais você sabe, mais 
rápido você aprende, porque as conexões acontecem 
mais facilmente, já você vai adquirindo cada vez mais 
\u201cganchos\u201d onde pendurar o novo conhecimento.
Enfim, depois de uns 6 meses de leitura pra lá de 
intensiva (ao invés de dois anos que eu havia previsto 
antes), eu tinha bem mais de 100 artigos na minha 
pasta de \u201cartigos lidos\u201d. Tinha também milhares de 
anotações referenciadas e uma boa ideia geral da área 
de conhecimento que eu tinha abraçado.
Mas o mais importante de tudo é que agora eu sabia 
com bastante clareza o rumo que eu queria dar à 
minha pesquisa, e estava empolgadíssima com o tema 
que tinha escolhido.
Só que ler não era a única coisa que eu fazia da vida. 
Eu precisava também programar para testar minhas 
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Ana Lopes
ideias na prática, se eu quisesse realmente construir 
uma Tese. Nesta época me foi indicado um aluno de 
Iniciação Científica para me ajudar com a 
programação, enquanto eu ia organizando as minhas 
ideias e as minhas anotações. 
Essa etapa durou mais uns seis meses e foi riquíssima 
em aprendizados diversos. Eu já tinha feito pesquisa 
antes, mas nunca havia organizado uma quantidade 
tão grande de informações. 
No meio de tudo isso, eu tive também que aprender a 
gerir a relação com o aluno. Para mim, este era um 
desafio enorme. Depois de tantos anos de 
autodidatismo, eu estava acostumada a fazer quase 
tudo sozinha e tinha pouca paciência para me 
sincronizar com o ritmo dos outros. 
Mas desta vez seria impossível trabalhar sozinha. 
Para dizer a verdade, não era nem mesmo desejável: 
se eu queria mesmo me tornar uma pesquisadora, eu 
tinha que aprender a delegar. 
Felizmente, o rapaz era ótimo, tanto em relação ao 
trabalho quanto em termos de relacionamento e 
facilitou bastante a minha vida neste aspecto. 
Eu também comecei a trabalhar em colaboração com 
outros colegas. Aqui, as oportunidades foram 
surgindo naturalmente. Primeiro, uma amiga que 
fazia o Mestrado no mesmo laboratório começou a ter 
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Histórias de Aprendizagem
dificuldades no trabalho dela e eu me ofereci para 
ajudá-la a encontrar uma solução para o impasse em 
que ela tinha se enfiado. 
Havia também seminários que tínhamos que 
apresentar uns para os outros sobre o que estávamos 
fazendo. Além de ter sido escalada para coordenar os 
seminários daquele ano, às vezes eu dava sugestões e 
ideias para os trabalhos de outros colegas. 
Era o meu impulso natural: uma vez que eu entendia 
o problema em que alguém estava trabalhando, a 
minha cabeça começava a ferver de ideias e possíveis 
soluções. E eu ia falando algumas delas para os donos 
dos trabalhos. Às vezes a ideia fazia sentido para a 
pessoa, e uma sugestão dada virava \u201coficialmente\u201d 
uma colaboração. 
Enfim, foi um ano de muita preparação e 
praticamente nenhum resultado concreto. Foi preciso 
muita fé de que aquilo que eu estava fazendo iria 
produzir frutos. Até então, eu não tinha certeza de 
nada. Estava seguindo um caminho que era duro e 
muito trabalhoso e só consegui me manter nele por 
tanto tempo porque de alguma maneira eu acreditava 
que ele iria me levar a algum lugar interessante. 
Mas dizem que a fé move montanhas, né? No meu 
caso, moveu mesmo. De repente, a leitura voraz de 
artigos e as colaborações com os colegas começaram a 
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Ana Lopes
convergir para resultados palpáveis. 
Em pesquisa, isso significa basicamente uma coisa: 
artigos publicáveis. Só que para ser realmente 
publicável, um artigo tem que ser escrito, né? E 
naquela área de pesquisa, isso significava escrever em 
inglês. 
E foi aí que a história se complicou para o meu lado. 
Eu era a única maluca entre os meus colegas que 
tinha ficado um ano e meio estudando inglês 
freneticamente. Meus parceiros e colegas geraram 
muitos resultados bacanas, mas os artigos para 
divulgar os tais resultados sobraram quase todos para 
eu escrever. 
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Muitos artigos e nenhum 
diploma
Enfim, era hora de começar a tentar publicar artigos 
relatando os resultados das nossas pesquisas, que 
começaram a pipocar de todos os lados. Agora sim, o 
meu recém-adquirido \u201cinglês fluente\u201d seria posto a 
prova. E também a minha capacidade de convencer 
outros pesquisadores de que os nossos resultados 
eram, de fato, dignos de serem tornados públicos 
para a comunidade científica. 
De repente, a minha vida virou um furacão. De todo o 
trabalho do ano anterior brotavam os mais variados 
frutos que tinham data para ser colhidos. A coisa 
ficou bem doidona mesmo no laboratório, que às 
vezes mais parecia um pregão da bolsa de valores. 
Não era raro haver duas, três ou quatro máquinas 
trabalhando para nós. E a cada resultado que saía 
dessas máquinas, lá ia eu escrever um artigo para 
submeter em alguma conferência da área, geralmente 
com prazo final para o dia seguinte. 
Aquilo era um círculo vicioso e viciante. Conforme os 
artigos iam sendo aceitos \u2013 e quase todos foram 
Ana Lopes
aceitos \u2013 a gente ia entrando num frenesi de fazer 
mais e mais e mais. Mal a gente cumpria o prazo de 
entrega de um artigo, aparecia outra conferência para 
mandar o próximo. A adrenalina geral da galera 
estava a mil. 
Obviamente, aquilo não podia dar certo por muito 
tempo... Seis meses e uns oito artigos publicados 
depois, eu simplesmente caí de cama. Meu corpo 
inteiro doía de cansaço, minha cabeça se recusava a 
raciocinar sobre o que quer que fosse e parecia que 
não havia horas suficientes no dia para eu dormir. Foi 
o início de um \u201cburnout\u201d arrasador, ou, em bom 
português, uma estafa arretada mesmo. 
Hoje está claro como água para mim que eu abusei, e 
muito, dos meus limites. Mas na época, eu não me dei 
conta da gravidade da situação. O médico que me 
atendeu, depois de uma bateria enorme de exames, 
resolveu que eu precisava tomar um ansiolítico. A 
princípio, eu não gostei nadinha da ideia, mas acabei 
cedendo. Afinal de contas, eu tinha um doutorado 
para terminar!
O fato é que a medicação revelou-se uma \u201cfaca de dois 
gumes\u201d: ela segurava a onda por alguns meses e 
depois o corpo pedia mais. Foram três aumentos da 
dose em um ano e meio, na tentativa de me manter de 
pé para terminar o doutorado. 
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O problema é que essa estratégia de ir aumentando a 
dose e seguindo em frente fez com que, por muito 
tempo, eu insistisse em não enxergar o óbvio: que 
aquele ritmo de trabalho era física e psicologicamente 
insustentável. Não era uma questão de descansar um 
pouquinho para voltar a trabalhar depois. Eu não 
poderia continuar voltando àquilo, ou ia ficar cada 
vez mais doente. 
Aliás, foi exatamente o que aconteceu. 
Dois anos depois da primeira crise, eu não conseguia 
mais sentar na frente do computador para escrever a 
minha Tese. A essa altura, ela já estava quase 
terminada. Mas \u201cquase\u201d significava sem diploma,