historias de aprendizagem
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historias de aprendizagem


DisciplinaTrabalho de Conclusão de Curso - TCC7.613 materiais39.414 seguidores
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sem 
aumento, sem progressão na carreira. 
E o mais incrível disso tudo é que nem a ameaça 
tenebrosa de \u201cmorrer na praia\u201d com o meu doutorado 
conseguia mais me convencer a levantar da cama. 
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Um diploma e um blog
Desde os 20 e poucos anos eu conhecia a psicologia 
de Jung e ela já me fascinava. Mas levar Jung a sério 
na vida cotidiana não é algo para os fracos de alma. 
Jung exige da gente uma postura incomum diante do 
inconsciente e da própria vida. Não tem muito espaço 
ali para o autoengano. Por isso, apesar do grande 
fascínio pelas teorias do moço, eu segui me 
esquivando dele por quase duas décadas. 
Às vezes eu acho que eu tenho uma atração especial 
por coisas difíceis. Além da dificuldade em si da 
proposta da análise Jungiana, terapeutas Jungianos 
são raros, e quase sempre, mais caros que os de 
outras linhas. Achar um terapeuta Jungiano ao 
alcance das minhas finanças em uma cidade pequena 
era quase tão provável quanto ganhar na loteria. 
Mas tem sempre alguém que ganha na loteria, né?
Bom, eu consegui: tirei a sorte grande e achei uma 
verdadeira agulha de ouro em um palheiro pelo qual 
eu não dava muita coisa. 
Logo no início, a minha terapeuta já foi me avisando 
para esquecer a minha tese por um bom tempo... E 
Histórias de Aprendizagem
apesar de todos os protestos e objeções em que eu 
pudesse levantar, eu não tinha mesmo outra saída 
senão obedecer. Começaria ali um grande mergulho 
para encontrar a raiz (ou melhor, as várias raízes) 
daquilo que tinha me transformado naquele trapo 
choroso e improdutivo. 
No final de alguns meses de terapia, a tese saiu. Foi 
um parto meio a fórceps, mas saiu. Não foi tudo o que 
eu queria que ela fosse, mas foi aprovada sem grandes 
sustos. Eu finalmente teria o meu diploma de Doutora 
em Ciência da Computação. 
Confesso que naquele momento de profunda confusão 
mental, os únicos significados concretos que aquele 
título tiveram para mim foram um pequeno aumento 
de salário e um grande alívio da \u201ccarga\u201d que aquela 
tese inacabada havia se tornado nos últimos meses. 
Mas a coisa não ia acabar por ali. A caixa de Pandora 
do inconsciente tinha sido definitivamente aberta. 
Não tinha mais como voltar atrás. O inconsciente, que 
eu havia deliberadamente colocado para escanteio 
por tantos anos, agora cobrava a fatura. E ela não está 
sendo barata... 
Muitas coisas interessantes e surpreendentes têm 
surgido desse processo e muitas mais prometem 
surgir. Várias delas não são exatamente do jeito que 
eu gostaria que fossem, mas creio que uma grande 
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Ana Lopes
parcela do aprendizado aqui passa por aceitar a 
minha própria natureza. 
E no meio disso tudo, surgiu o blog. Primeiramente, 
de forma meio tateante, quase clandestina. Eu tinha 
muitas dúvidas e medos de colocar todo aquele 
material no ar, mas ao mesmo tempo tinha uma 
necessidade visceral e irreprimível de me expressar. 
No início ele não tinha uma forma muito clara, nem 
eu sabia muito bem onde eu queria chegar com 
aquilo. Mas ele foi brotando com força, e eu só tive a 
alternativa de abrir espaço para ele na minha vida e 
observar. 
Só para não perder o costume, fui obrigada a 
aprender um monte de coisas na construção do blog. 
Primeiro, foram as tecnicalidades necessárias para 
fazer a coisa funcionar, que são muitas. Mas o mais 
bacana mesmo foram as interações com os usuários e 
colegas blogueiros. 
Quase a totalidade dos comentários e e-mails que 
recebo hoje devido ao blog tem elogios enormes, e 
eles têm um efeito incrível. Mas ler uma história de 
alguém que mudou o rumo da própria vida por causa 
de algo que eu escrevi ou falei, por menor que seja a 
mudança relatada, causa um impacto na gente que 
não tem explicação. 
É como aquela experiência do meu aluno-professor, 
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Histórias de Aprendizagem
que se motivou a abrir o laboratório da escola por 
causa das minhas aulas, só que multiplicada muitas e 
muitas vezes. 
E está sendo graças a essas histórias com que vários 
leitores do blog me presentearam nos últimos meses 
que eu estou aprendendo mais uma grande lição: ser 
fiel àquilo que você é lá no fundo da alma é a forma 
mais inteligente e sensata de fazer a sua diferença no 
mundo. 
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Reflexões \u201cfinais\u201d
Uma das coisas complicadas de se escrever um livro 
autobiográfico, quando se é ainda relativamente 
jovem, é que é difícil chegar a uma conclusão. Tem 
ainda tanta história acontecendo e para acontecer na 
minha vida!
Obviamente, esta não é uma autobiografia no sentido 
estrito do termo. As histórias descritas até agora 
contam só uma pequena parte da minha vida, todas 
relacionadas a momentos de grande aprendizagem. A 
inspiração para esse formato surgiu daquele 
momento em que eu descobri que o que eu gostava 
mesmo, mesmo na vida, era de aprender coisas novas. 
Foi a partir dali que eu entendi uma característica 
minha que até então causava enorme conflito interno: 
a inacreditável variedade de assuntos que me 
interessavam, desde os trabalhos manuais mais 
singelos, até os temas técnicos mais cabeludos. A 
partir do momento que algo me chama atenção, a 
minha sede por entender e tornar aquilo uma parte de 
mim parece insaciável. 
Esse traço de personalidade sempre gerou em mim 
uma quantidade considerável de dúvidas: \u201cAfinal de 
Histórias de Aprendizagem
contas, do que é que eu gosto mesmo?\u201d, \u201cO que é que 
me interessa de verdade nessa vida?\u201d, \u201cSerá que eu 
sou, simplesmente, uma pessoa inconstante?\u201d 
Quando eu finalmente consegui resumir todos os 
meus interesses, aparentemente tão divergentes entre 
si, sob uma única palavra \u2013 aprender \u2013 foi como se eu 
tivesse visto \u201ca luz\u201d. Finalmente, eu tinha uma 
explicação para a minha suposta inconstância e para 
a minha inquietude permanente. 
A criação do blog, onde apareceram as primeiras 
versões destas histórias de aprendizagem, foi parte 
fundamental desta aprendizagem sobre mim mesma. 
Ao relembrar todos estes acontecimentos da minha 
vida, foi ficando muito claro que a minha busca 
sempre foi aprender mais e mais. E que o ato em si de 
aprender muitas vezes era mais importante que o 
assunto do momento. 
Não espero nem tenho a pretensão de que as minhas 
histórias sejam 'receitas' para ninguém. Aprender é a 
minha busca, mas cada um precisa achar a sua. 
Também não gostaria que essas histórias parecessem 
um mero exercício de auto engrandecimento. Se elas 
podem ser consideradas um exercício, que sejam 
vistas pelo que representaram para mim: um 
exercício de autorreflexão e auto expressão. 
Na melhor das hipóteses, tenho a esperança de 
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Ana Lopes
inspirar algumas pessoas a descobrirem o prazer da 
aprendizagem ou, melhor ainda, o prazer de descobrir 
e trilhar os seus próprios caminhos. 
Eu finalizo esse relato agradecendo o fato de você ter 
chegado até aqui. Desejo de todo coração que você 
também encontre o seu caminho e escreva a sua 
história. 
Depois me conte. 
Este livro eletrônico foi editado e produzido por 
VídeoAulas ByAna
Vou adorar se você quiser comentar o que você 
achou sobre ele neste link:
http://www.videoaulasbyana.com.br/ebook-historias/
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	Apresentação
	Eu não preciso de um professor?!?
	Meus professores: os livros
	Vida na Universidade
	Recuperando o autodidatismo perdido
	Cientista da Computação