historias de aprendizagem
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historias de aprendizagem


DisciplinaTrabalho de Conclusão de Curso - TCC7.591 materiais39.277 seguidores
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sinal. Eu já era 
bem \u201cnerdezinha\u201d, gostava (mesmo!) de estudar, e 
sonhava em frequentar alguma das escolas \u201cde ponta\u201d 
da minha cidade. Mas não \u201crolava\u201d. Meus pais até 
incentivavam meus estudos, sempre incentivaram, 
mas não havia dinheiro para uma extravagância 
daquelas. 
Então, quando eu estava terminando o Primeiro 
Grau, eu \u201csurtei\u201d. Foi um daqueles típicos surtos de 
adolescente: eu \u201ctinha\u201d que fazer o Segundo Grau em 
uma escola particular e sentia, no fundo da alma, que 
minha vida e felicidade dependiam 
irremediavelmente disso (eu disse que era um surto 
típico de adolescente!). 
Uma saída para a minha \u201cprovação\u201d seria conseguir 
uma bolsa de estudos em uma boa escola. Naquela 
época, quase todas as escolas particulares da cidade 
ofereciam bolsas de acordo com a nota que se tirasse 
em uma prova de seleção feita no final do ano. 
Como eu sempre tinha sido estudiosa, as minhas 
chances eram boas. Mas tinha um pequeno problema: 
matemática tinha um peso grande nessas provas e o 
programa de matemática da minha lamentável escola 
pública estava completamente atrasado: a professora 
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Ana Lopes
não ia cumprir nem metade dele.
Eu até dava conta de matemática numa boa, mas 
como eu poderia aprender o que a professora não 
havia ensinado? 
Então, com aquele poder de persuasão que só uma 
adolescente de 14 anos consegue ter, fustiguei meus 
pais até eles concordarem em pagar por algumas 
aulas particulares. Autorizada por eles, procurei uma 
antiga professora, de quem eu gostava muito.
E lá fui eu, uma aluna que nunca tinha tirado uma 
nota vermelha na vida, fazer aulas particulares. Não 
deixava de ser um contrassenso, mas eu estava 
obcecada para ir para uma escola \u201cdecente\u201d. 
Eis que um belo dia, no meio de uma aula, no 
momento em que eu acabei de resolver um exercício, 
a minha professora deu um suspiro e falou: \u201cVocê 
podia estudar isso sozinha, Ana! Não precisava estar 
aqui, gastando dinheiro!\u201d
Na hora eu nem respondi. Só fiquei olhando para ela, 
provavelmente com uma interrogação perplexa 
desenhada no meu rosto. No caminho de volta para 
casa, fui elaborando a \u201cnovidade\u201d na minha cabeça: 
\u201ccomo assim, estudar sozinha? Para aprender eu não 
preciso necessariamente de um professor que me 
ensine?\u201d. Aquela ideia era simplesmente contra tudo 
que eu sabia sobre aprendizagem. Na verdade, soava 
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Histórias de Aprendizagem
praticamente como uma heresia. 
Hoje, depois de um bocado de experiência 
aprendendo e ensinando, eu vejo que esta ainda é, 
infelizmente, a situação da maioria dos estudantes: 
sequer passa pela cabeça deles que, no final das 
contas, toda aprendizagem é, no fundo, uma 
autoaprendizagem. 
Outra coisa que eu percebo é que quando alguém 
entende isso, e começa a perceber todas as 
consequências desta realidade, a postura desta pessoa 
diante da tarefa de aprender muda drasticamente, 
para sempre. 
Lembro-me de ter ficado com a tal frase na cabeça 
por vários dias, em alguns momentos me sentindo 
importante, até. A minha professora preferida de 
matemática, que eu tanto admirava, achava que eu 
não precisava dela para aprender! Isso era incrível! 
Infelizmente, aquele único comentário, por mais 
impactante que tenha sido naquela hora, não seria 
suficiente para apagar anos de uma escolarização 
baseada na dependência total do professor. Eu acabei 
conseguindo uma bolsa parcial em uma escola de 
renome, convenci (ou venci pelo cansaço) os meus 
pais a pagarem o que faltava e lá fui eu fazer o meu 
Segundo Grau que, na minha cabeça, seria de 
\u201cexcelência\u201d. 
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Ana Lopes
Era muita novidade de uma vez e aquela ideiazinha 
um tanto quanto revolucionária da minha querida 
professora foi, por um bom tempo, para o fundo do 
baú. 
Ao longo dos três anos seguintes eu iria descobrir que 
a tal \u201cexcelência\u201d passava longe daquela que era 
considerada uma das melhores escolas da cidade. Ou 
seja, não é de hoje que a excelência é um grande mito, 
incapaz de penetrar os muros de 99% das escolas. 
Eu gostaria de finalizar esta primeira história com um 
convite à reflexão: o quanto estamos condicionados à 
ideia de que a presença física de um professor é 
condição absolutamente necessária para que sejamos 
capazes de aprender alguma coisa? 
A minha vida depois me mostrou que a realidade é 
MUITO diferente disso. Não é que os professores 
sejam \u201cinúteis\u201d. Existem professores maravilhosos e 
eu tive o privilégio de ter contato com vários deles. 
Mas as fontes de conhecimento não estão somente na 
sala de aula, em ambientes formais, nem em pessoas 
com um pedaço de papel bonitinho dizendo que elas 
são \u201cdonas\u201d de um certo conjunto de conhecimentos. 
Mesmo naquela longínqua época sem computador 
pessoal e sem Internet, havia os livros. Eles custavam 
caro e davam mais trabalho, já que era preciso \u201clê-
los\u201d. Não havia vídeos nem animações e raramente 
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Histórias de Aprendizagem
um estudante típico tinha acesso a mais de um autor 
para comparar as explicações. Mas eles estavam lá, e 
por séculos, foi por meio deles que a humanidade 
evoluiu. 
Mas tudo isso eu só fui descobrindo aos poucos, 
através de várias outras histórias, que vou contar nos 
próximos capítulos. Já no seguinte, vou contar como 
aquele comentário de passagem da minha professora 
me levou, três anos mais tarde, a passar no 
vestibular, sem cursinho nem professor particular. 
Tudo o que eu tinha era uma enorme vontade de 
entrar na Universidade, meus livros e algumas táticas 
que eu mesma inventei na fina-flor dos meus 17 anos.
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Meus professores: os livros
Na época do vestibular, eu já não pensava em fazer 
Medicina, mas ainda queria ir para a Universidade. 
Não deixava de ser um sonho muito ousado, porque 
eu seria a primeira da família \u2013 de ambos os lados \u2013 a 
realizar tal proeza. 
A primeira questão era que curso fazer. Havia várias 
carreiras que me interessavam, mas eu acabei 
optando por Física (não me pergunte o porquê, isso 
faz muitos anos e eu mal me lembro dos motivos que 
me levaram a essa decisão um tantinho radical\u2026).
Como sempre, havia uma pedra no caminho. Eu tinha 
descoberto que a tal \u201cescola de ponta\u201d, pela qual eu 
tanto havia lutado, era só um pouco \u201cmenos pior\u201d que 
a escola pública. Só que depois de quase \u201cquebrar\u201d os 
meus pais para pagar pelo Segundo Grau em escola 
particular, não tinha espaço muito menos moral para 
pedir que me pagassem um cursinho.
Mas eu queria passar, e precisava passar para cursar 
uma Universidade Pública. Foi aí que aquele insight 
de três anos atrás (aquele da professora que falou que 
eu podia estudar sozinha) entrou em cena. 
Histórias de Aprendizagem
O processo todo aconteceu de forma meio 
inconsciente na época. Só hoje, com a perspectiva do 
tempo, eu percebo as interconexões entre os vários 
momentos que eu fui aprendendo que era possível 
aprender sozinha. 
E na prática, o que foi que eu fiz? Na verdade, nada 
muito complicado, mas levando em conta que eu 
tinha tirado tudo da minha própria cabeça, foi uma 
revolução. 
Eu estudava pela manhã no colégio, então montei um 
horário para estudar a tarde inteira, distribuindo as 
disciplinas naqueles horários. Então, de segunda à 
sexta-feira, eu estudava de duas às seis da tarde, uma 
disciplina por hora,