historias de aprendizagem
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historias de aprendizagem


DisciplinaTrabalho de Conclusão de Curso - TCC7.596 materiais39.315 seguidores
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Pois é... grave assim... 
Meu orientador de Iniciação Científica ficava louco 
comigo. E do ponto de vista mais tradicional, era uma 
loucura mesmo. Mas com a arrogância própria dos 20 
anos, alimentada por uma sequência de sucessos de 
\u201cprodução independente\u201d, eu respondia: \u201cMas o cara 
não sabe dar aula! Porque eu vou perder o meu tempo 
lá?\u201d. Ele bufava, suspirava, olhava feio, mas me 
deixava em paz. Como no final eu sempre acabava 
dando um jeito de passar, ele ficava meio que sem 
argumentos.
Claro que eu não contava para ele o sufoco tremendo 
que eu passava em várias dessas aventuras. Em pelo 
menos três ou quatro ocasiões eu estive à beira da 
reprovação. 
Às vezes porque o professor em questão se ressentia 
da minha ausência e corrigia as minhas provas com 
mais... \u201ccarinho\u201d, digamos assim, às vezes, porque eu 
perdia um pouco o controle da situação mesmo. 
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Histórias de Aprendizagem
Afinal de contas, eu tinha 20 anos, e Física não era a 
única coisa que eu estava interessada em aprender na 
vida!
O fato é que com esses altos e baixos fui aprendendo 
mais uma lição de autodidatismo: o mais difícil de 
estudar por conta própria não é aprender em si, mas 
ter a disciplina de estudar todo dia, mesmo que não 
tenha nenhuma prova cabeluda na semana que vem. 
Uma dessas disciplinas que eu quase perdi foi no 
último semestre. Eu já estava decidida a não 
continuar na Física, mas já que eu tinha chegado até 
ali, então resolvi fazer as três disciplinas que faltavam 
para me formar. Foi uma tortura, porque eu tinha 
perdido o interesse naquilo, e estava com a cabeça em 
outros planos muito diferentes. Naquelas condições, 
era dolorosamente difícil eu me motivar para estudar. 
Há essa altura, eu já tinha os meus tiques de \u201cdiva 
estudantil\u201d: eu estudava e aprendia sozinha sim, em 
grande volume e pouco tempo se necessário, mas eu 
precisava acreditar no que eu estava fazendo. Caso 
contrário, a coisa virava um grande e dramático 
tormento. Esse, acredito eu, é um efeito colateral 
praticamente inevitável do autodidatismo. 
De um modo geral, eu acho que é bem interessante 
ter essa necessidade de saber o porquê de se fazer 
alguma coisa. Mas às vezes pode fazer a vida ficar um 
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Ana Lopes
pouco mais difícil do que precisaria. 
Naquele momento, eu precisava fazer só três 
disciplinas, que nem eram tão difíceis assim. Mas 
foram, sem sombra de dúvida, as mais sofridas do 
curso inteiro. Tudo isso porque eu tinha me 
acostumado a estudar nos meus termos. 
Doeu, mas eu dei o meu jeito. Fui até o final me 
arrastando e bufando, mas cheguei lá, sem morrer na 
praia. De quebra, aprendi na própria carne a 
importância da motivação para a aprendizagem. 
Enfim, peguei meu \u201ccanudo\u201d e rumei para o Mestrado 
em Informática, que era o meu mais novo interesse. 
Com o pequeno detalhe de que tudo o que eu sabia de 
Informática era programar em FORTRAN.
Obviamente, estava preparado o palco para mais uma 
sequência de desafios de aprendizagem. 
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Cientista da Computação em 
um mês
Um dia minha amiga Marisa entrou toda animada no 
meu quarto do alojamento estudantil:
\u2212 Nossa, tem um Mestrado em Informática em 
Curitiba, deve ser muito bom!
\u2212 Curitiba?!?
Se ela tivesse falado \u201cMarte\u201d, eu teria tido a mesma 
reação... Mas ela continuou:
\u2212 É, meu pai diz que é uma das melhores cidades 
que ele já conheceu. Tudo organizadinho, uma 
beleza. 
E lá foi ela, me contando e falando do tal Mestrado 
numa empolgação bonita de se ver. Enquanto ela 
falava, eu comecei a pensar que talvez aquilo me 
interessasse também...
Àquela altura, eu já sabia que não iria continuar na 
Física. Eu tinha programado em FORTRAN durante 
os três anos na minha Iniciação Científica \u2013 uma 
espécie de estágio para quem quer seguir a carreira 
Ana Lopes
de pesquisa. Era mais ou menos na época em que eu 
me arrastava para fazer as três disciplinas que 
faltavam para me formar. 
Acontece que depois do terrível sofrimento inicial 
para aprender a programar sem ter muita ideia do 
que eu estava fazendo (claro, praticamente sozinha de 
novo!!), eu fui descobrindo que aquilo era MUITO 
divertido. Conseguir controlar aquela maquininha 
feia e caprichosa chamada computador e \u201cmandá-la\u201d 
fazer o que eu quisesse dava uma sensação muito boa! 
Não fosse a questão financeira, eu teria simplesmente 
recomeçado a faculdade, só que agora fazendo Ciência 
da Computação. Mas eu já estava meio \u201cgrandinha\u201d 
para depender dos meus pais. Foi um período 
particularmente difícil na vida deles e sabia que 
estava ficando inviável me sustentar como \u201cestudante 
profissional\u201d. 
Eu já tinha bolsa de Iniciação Científica há algum 
tempo, e não dependia 100% deles, mas estava na 
hora de começar a caminhar com as minhas próprias 
pernas de verdade. Afinal, eu já tinha 21 anos!!
Então, naquele dia, com a Marisa na minha frente 
pulando de entusiasmo sobre o tal Mestrado em 
Curitiba, eu comecei a fermentar uma ideia que iria 
mudar o rumo da minha vida completamente:
\u2212 Marisa, onde está o cartaz desse Mestrado?
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Histórias de Aprendizagem
Ela me explicou direitinho a localização, e no dia 
seguinte eu estava lá, anotando todas as informações 
necessárias para me candidatar ao Mestrado em 
Informática Industrial no CEFET do Paraná. 
A vantagem de fazer um Mestrado ao invés de 
recomeçar uma graduação era que no Mestrado, eu 
teria direito a uma bolsa bem maior, pelo menos 
grande o suficiente para me sustentar sozinha. Ou 
seja, era exatamente o que eu precisava naquele 
momento. 
Claro que tinha uma pequena pedra no caminho. 
Afinal, o que seria da vida se não fossem as danadas 
das pedras para a gente brincar de se desviar delas? 
E a pedra da vez era a seguinte: eu tinha que escrever 
um texto, de umas três a cinco páginas, sobre uma 
das áreas de pesquisa listadas no tal cartaz. 
Obviamente, nenhuma delas era sobre programação 
em FORTRAN, que era a única coisa que eu realmente 
sabia sobre Computação.
Eu não me fiz de rogada: peguei a Marisa e o 
namorado dela, que fazia Computação, também, 
mostrei a lista de temas e perguntei: 
\u2212 Qual destes assuntos vocês acham que eu 
consigo aprender o suficiente em um mês para 
escrever uma mega-redação?
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Ana Lopes
Este era o prazo que eu tinha para me candidatar ao 
Mestrado do CEFET. Eles analisaram, conversaram 
entre si, fizeram umas caras-e-bocas e concluíram: 
Inteligência Artificial era o candidato mais adequado 
àquela minha proposta maluca de \u201cvirar Cientista da 
Computação\u201d em um mês.
E lá fui eu, apesar das expressões de \u201ccausa perdida\u201d 
dos meus amigos. Àquela altura, eu já confiava 
bastante no meu \u201ctaco cognitivo\u201d para não me deixar 
desanimar pela incredulidade deles. 
Felizmente, eu achei o assunto bem interessante e 
encontrei livros muito bons sobre ele na biblioteca. 
Foram dias de muita leitura e anotações \u201cfuriosas\u201d. 
Várias vezes eu olhava o que ainda faltava ler e 
pensava \u201ceu não vou dar conta disso\u201d. Mas eu queria 
ir para Curitiba, então eu continuava lendo e 
anotando, lendo e anotando. 
Eu não devo ter conseguido ler nem 30% do material 
que eu tinha me proposto a ler. Apesar de muito 
interessante, tudo era também muito novo e a leitura 
e a compreensão eram lentas. Mas quando