historias de aprendizagem
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DisciplinaTrabalho de Conclusão de Curso - TCC7.591 materiais39.277 seguidores
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com alguma coisa 
que não ia me levar a nada, e depois caindo na real e 
me obrigando a voltar para os meus objetivos. Ainda 
bem que naquela época não tinha Twitter nem 
Facebook...
Para finalizar a aventura com chave de ouro, 
exatamente no mesmo dia da minha defesa, à noite, 
entrei pela primeira vez em sala de aula como 
professora de Programação em linguagem C. Era o 
meu primeiro emprego, onde eu iria aprender muitas 
coisas também.
Mas isso já faz parte de uma outra história.
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Professora? Não, malabarista!
Dizem que os ricos trabalham para aprender. Bem, 
como eu não era rica, então eu trabalhava era para 
pagar as contas mesmo. Mas isso não impediu que o 
meu primeiro emprego fosse altamente instrutivo...
O primeiro ano como professora foi enganosamente 
fácil. Quer dizer, não é que tenha sido exatamente 
\u201cfácil\u201d, mas foi bem mais tranquilo do que 
normalmente seria um início de carreira no 
magistério. 
Eu tinha somente uma turma e ensinava algo com que 
tinha trabalhado durante o Mestrado inteiro: 
programação em linguagem C. 
A turma era gigante, mas foi tão marcante que eu 
ainda lembro-me de alguns rostos. Principalmente da 
expressão de pouco caso de um sujeito que sentava lá 
no fundo da sala, cruzava os braços, escorregava na 
cadeira para ficar com jeito bem folgado e parecia ter 
escrito na testa: \u201ceu vou te desmascarar\u201d. 
Volta e meia o rapaz levantava a mão de forma bem 
displicente, e fazia uma pergunta que eu desconfiava 
fortemente que ele já sabia a resposta. Ou seja, o 
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moço estava me testando. 
Até hoje não sei se ele se convenceu de que eu 
realmente sabia do que estava falando ou do 
contrário, mas o fato é que depois de algum tempo \u2013 
que pareceu uma eternidade \u2013 o dito cidadão largou 
do meu pé. 
A sensação de estar sob o microscópio não era lá 
muito agradável, mas como eu só passava por aquilo 
uma vez por semana, então eu tinha tempo de me 
preparar e de me recuperar daquela tensão.
Mas o que era inicialmente uma vantagem acabou 
virando uma \u201cpegadinha\u201d da vida. Depois de ter 
escapado daquele primeiro ano ilesa e influenciada 
por alguns colegas, decidi que era hora de ser 
professora em tempo integral: passei de quatro horas 
de aula por semana para mais de trinta. E passei 
também de uma única disciplina para quatro ou cinco 
diferentes, algumas das quais eu estava quase que 
aprendendo junto com os alunos.
Era sem dúvida uma situação bem diferente daquela 
do ano anterior. Mas eu só fui me dar conta do 
tamanho da diferença quando já era tarde demais e 
eu já tinha me comprometido com todas aquelas 
aulas. Agora, o jeito seria me virar para lecionar 
muitas vezes no mesmo dia, disciplinas tão diferentes 
quanto Geometria Analítica e Informática Básica. 
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Foi um passo certeiro em direção ao precipício em 
que eu quase caí dois anos mais tarde. A minha vida 
virou um continuum de preparar e dar aulas. Minha 
última aula da semana terminava no meio da tarde de 
sábado. Tinha um dia da semana em que eu dava 
aulas nos três turnos, em duas cidades diferentes. 
Saía de casa às 6h da manhã para voltar quase meia-
noite. E claro, no dia seguinte tinha aula às 7h de 
novo...
Para tornar a situação um pouco mais \u201cdivertida\u201d, 
havia a imensa diferença de cultura entre as 
Universidades Federais, onde eu havia me formado, e 
as particulares em que trabalhava. O \u201cmodelo\u201d que eu 
seguia era o federal clássico: muitas aulas expositivas, 
muitas exigências sobre os alunos e distribuição farta 
de notas baixas.
Não havia maldade naquele comportamento. Era 
simplesmente o modelo de \u201cexcelência\u201d que eu tinha 
aprendido a reconhecer como o único modelo válido 
sobre a face da terra. Eu achava, do fundo do meu 
coração, que estava fazendo o melhor pelos alunos. 
Aliás, eu também achava que qualquer outra coisa 
fora daquele modelão era uma corrupção inaceitável 
do espírito acadêmico.
Claro que, com essa mentalidade, não demorou muito 
para eu concluir que todo o sistema particular de 
ensino estava corrompido, principalmente pela 
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relação financeira direta entre a instituição e os 
alunos.
Enfim, a \u201creceita\u201d que eu trouxe pronta da minha 
própria formação não demorou muito a me trazer 
problemas. No final daquele ano, um dos cursos onde 
eu tinha praticamente um terço das minhas aulas 
pediu explicitamente a minha substituição.
O problema era que eu levava Informática Básica 
muito a sério e tinha cometido a ousadia de deixar 
alguns alunos irem para a prova final naquela 
disciplina insignificante para eles. 
E agora eu estava em risco de perder uma boa parte 
do meu salário, afinal, eu era paga por hora-aula (ou, 
como dizia uma amiga, \u201chora-saliva\u201d). Além disso, 
aquela quase demissão me custou um desgaste 
emocional enorme e me chamuscou bastante diante 
dos meus superiores.
Para completar, assustada com a possibilidade de 
queda repentina da minha renda, eu cometi um erro 
grave: perdi a valiosa oportunidade de aprender com 
o que estava acontecendo e botar o pé no freio.
Aqui eu definitivamente troquei os pés pelas mãos: ao 
invés de dar um tempo para repensar o que estava 
fazendo, eu fiz de tudo para substituir as aulas 
perdidas, a qualquer custo. Isso me deixou com um 
cardápio de disciplinas diferentes ainda maior e mais 
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complicado. Era um verdadeiro malabarismo, e 
comecei o ano seguinte em um ritmo mais alucinante 
do que nunca. 
Resultado: ao final do meu terceiro ano de profissão 
eu estava deprimida a ponto de chorar antes de sair 
para dar aulas em algumas das turmas mais rebeldes.
Com tudo isso, no início do ano seguinte, estava 
decidida a sair do sistema particular, que na minha 
cabeça tinha virado o bode-expiatório para todas as 
minhas mazelas. 
Meus planos para sair daquela armadilha eram fazer 
um concurso para uma Universidade pública ou então 
começar um Doutorado e voltar a viver de bolsa. A 
única certeza naquele momento é que eu não tinha 
mais condições psicológicas de permanecer ali por 
muito tempo. E para dizer a verdade, nem sei se me 
deixariam ficar por muito tempo mais. 
Comecei aquele ano de trabalho assombrada, com a 
forte impressão de que não chegaria a completar 
quatro anos naquele emprego. Caberia a mim a 
decisão de sair pelos meus próprios pés ou esperar 
ser jogada pela janela. 
A essa altura, você já deve ter percebido que ficar 
parada esperando uma bomba estourar na minha 
cabeça não é exatamente o meu estilo de tocar a vida. 
Mas antes de abrir o meu caminho para uma nova 
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aventura, eu ainda teria tempo de aprender mais uma 
coisinha ou duas por ali. 
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Quer continuar no emprego? 
Quando eu já estava pegando o jeito de ensinar 
linguagem C \u2013 o que é MUITO diferente de 
\u201cprogramar\u201d em linguagem C \u2013 o meu coordenador 
me deu, candidamente, o seguinte recado: \u201cnós 
resolvemos mudar a linguagem de programação para 
Java em todos os cursos iniciais. Você vai querer 
continuar trabalhando conosco no ano que vem?\u201d
Eu juro que vi alguma coisa batendo asas pela janela 
naquela hora. Eu só tinha que decidir se seriam as 
minhas férias de verão ou o meu emprego