MULHER NEGRA: DA INSERÇÃO NA HISTÓRIA A INSERÇÃO NA PROPAGANDA
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MULHER NEGRA: DA INSERÇÃO NA HISTÓRIA A INSERÇÃO NA PROPAGANDA


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Revista de Iniciação Científica da FFC, v. 5, n. 1/2/3, p. 37-49, 2005. 
MULHER NEGRA: DA INSERÇÃO NA HISTÓRIA A INSERÇÃO NA 
PROPAGANDA1 
 
 Meliza da Silva CUSTÓDIO2 
 
 
RESUMO 
 
Este artigo pretende descrever a história do negro no Brasil, assim como as especificidades em 
relação à mulher negra. Abordaremos a importância da imagem fotográfica e como foi sua inserção 
nas revistas. Descreveremos os resultados encontrados durante essa pesquisa que visava analisar a 
imagem da mulher negra nas revistas femininas Cláudia e Nova nas décadas de 80 e 90. 
 
Palavras -chaves: Mulher negra; revistas femininas; imagem. 
 
 
 
Negro brasileiro: seu passado até seu presente 
 
A inserção dos fatos históricos que aqui serão abordados se faz necessária para 
possibilitar a observação da dinâmica histórica do negro no Brasil. Essa será apenas uma 
breve abordagem acerca da história. Abordaremos alguns fatos históricos para possibilitar 
nossa discussão sobre a dinâmica da inserção histórica do negro Brasil. Uma história que 
começa com a chegada do primeiro navio negreiro que aqui aportou. Não foi possível 
precisar a data, que não encontra consenso nos vários autores, mas que se estabelece entre 
1516 e 1526, tendo a escravidão negra no Brasil durado por mais de trezentos anos. 
 
 
 
 
1Trabalho realizado durante a iniciação científica ,bolsa FAPESP.Apresentado no II Congresso de 
pesquisadores negros, São Carlos-25 a 29 de agosto de 2002. 
2 Aluna da licenciatura no Curso de Ciências Sociais na UNESP, FFC-Faculdade de Filosofia e Ciências, 
Campus de Marília, 2003 (e-mail: hunter@marilia.unesp.br), sob a orientação da Profª Drª Claude Lépine (e-
mail: etain@uol.com.br), CEP17525-900, Marília ,São Paulo-Brasil 
 
Revista de Iniciação Científica da FFC, v. 5, n. 1/2/3, p. 37-49, 2005. 
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De acordo com a historiadora Mattoso (1982), quatro grandes ciclos trouxeram 
negros de diferentes partes da África. A primeira fase é a do ciclo da Guiné no século XVI, 
que traz negros uolofs, mandingas, sonrais, mossis, haussas e peuls. O segundo ciclo, que 
se inicia no século XVII, é o ciclo de escravos vindos do Congo e de Angola. Foi durante 
esse período que houve a chamada \u201cfome de negros\u201d, devido às grandes baixas nas guerras 
luso-holandesas em Pernambuco. 
O terceiro ciclo é o da Costa do Marfim, que acontece durante o século XVIII, 
quando os traficantes voltam seu interesse para os negros sudaneses. O quarto ciclo 
começou no final do século XVIII e início do século XIX e durou após a proibição feita 
pela Inglaterra em 18302, da importação dos escravos. Durante esse período houve 
importações das mais diferentes localidades tendo predominância de negros vindos de 
Angola e Moçambique. 
Cabe ressaltar que o início de um novo ciclo não marcaria necessariamente o fim 
de outro, mesmo porque os portugueses tinham a prática interna de misturar 
etnias para evitar a concentração dos negros de uma mesma procedência em uma 
determinada capitania. Capturaram e escravizaram de preferência homens, 
melhores que as mulheres para a realização de serviços pesados. Além disso, as 
mulheres podiam engravidar ficando mais lentas para o trabalho. Por esses 
motivos, o número de escravos eram sempre o triplo do número de escravas 
(MATTOSO, 1982). 
 
Os escravos negros foram forçados a trabalhar na lavoura, na mineração, em 
trabalhos domésticos, etc. 
Mas foi a cana-de-açúcar das regiões de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro 
que determinou a importação de escravos nos séculos XVI e XVII, enquanto que 
o ouro gerou um aumento da demanda no século XVIII [...]. Quando a 
exploração aurífera alcançou seu cume, 40% dos escravos importados eram 
destinados à agricultura [...], e cerca de 20% eram destinados às minas 
(MATTOSO, 1982) 
 
Mesmo no auge da produção das minas, ainda assim, poucos são os escravos 
destinados à mineração. Porém, o ouro foi responsável pelo aumento da demanda de 
escravos no Brasil, mas esses últimos acabaram sendo utilizados nos trabalhos domésticos, 
isto é para o luxo e conforto da sociedade escravista. 
Deve-se acrescentar que os efeitos devastadores da escravidão foram diferentes nos 
casos dos homens e no caso das mulheres. A demonstração de poder sobre a coisa (escravo) 
 
2 Devido a um acordo realizado com a Inglaterra o Brasil deveria criar uma lei que proibisse o tráfico; essa lei 
foi criada mas não foi institucionalizada,pois não interessava nem aos compradores nem aos vendedores de 
escravos ("lei para inglês ver\u201d). 
 
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se dava de maneira diferente nas relações senhor-escravo, senhora-escravo, senhor-escrava, 
senhora-escrava. Segundo Giacomini (1982) as relações entre senhor-escravo e senhora-
escrava se realizaram de modo a exercer o poder pela força, já nas relações entre senhor-
escrava, esse poder geralmente era exercido através da sexualidade. As relações entre 
senhora-escrava eram baseadas na violência como forma de punição contra a escrava por 
\u201cseduzir\u201d o senhor, ou seja, eram baseadas na agressão por ciúmes ou simples maldade. 
A escrava além do trabalho deveria ainda oferecer o corpo tanto como ama de leite 
ou como amante 
 
pois a negra é coisa, pau para toda obra, objeto de compra e venda em razão de 
sua condição de escrava. Mas é objeto sexual, ama de leite, saco de pancada das 
sinhazinhas, porque além de escrava é mulher. evidentemente essa maneira de 
viver a chamada \u2018condição feminina\u2019 não se dá fora da condição de classe (...) e 
mesmo de cor. (GIACOMINI, 1982) 
 
 
A escravidão para a mulher negra, como observamos, representou além dos 
sofrimentos comuns aos homens, outros que recaiam empregados somente sobre ela. Pois a 
\u201capropriação do conjunto das potencialidades dos escravos pelos senhores compreende, no 
caso da escrava, a exploração sexual de seu corpo que não lhe pertence pela própria lógica 
da escravidão\u201d (GIACOMINI, 1982). 
Em 18503, foi legalmente interrompido o tráfico negreiro; mas esse fato não 
marcava a liberdade para os cativos. Durante o período de 1850 a 1888 (ano da 
promulgação da abolição da escravatura brasileira) surgiu no Brasil uma nova forma de 
tráfico: o tráfico interno. Este surgiu da necessidade de escravos para as lavouras de café e 
do fim definitivo da exportação desse tipo de mão-de-obra. Esse tráfico era realizado entre 
o nordeste açucareiro e região aurífera (antigas regiões ricas e grandes proprietárias de 
escravos) para a região sudeste, produtora do ouro preto brasileiro: o café. Tal fenômeno é 
descrito em seguida pela historiadora como 
 
um fenômeno que caracteriza os séculos XIX e antes do século XVII [...], a 
transferência de importantes contingentes de escravos. Chegavam 
freqüentemente das províncias do norte e do nordeste, que conhecem, sobretudo, 
a partir de 1850, profunda depressão econômica. Passam pelos portos do Rio de 
Janeiro e de Santos. Entre 1852 e 1870 esse movimento alcança cinco a seis mil 
escravos por ano[...].Caberia acrescentar as transferências pelas estradas de ferro 
no interior do país cujo volume é totalmente desconhecido (MATTOSO, 1982). 
 
3 Neste ano foi aprovada a lei Eusébio de Queiroz ,que proibi definitivamente o tráfico negreiro brasileiro. 
 
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A partir de 13 de maio de 1888 o negro passa a conhecer uma nova forma de vida 
na sociedade brasileira. Escreve Florestan Fernandes: \u201caos escravos foi concedida à 
liberdade teórica sem qualquer garantia