Curso Direito Penal SP
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pelo excesso. O artigo 187 do Código 
Civil estipula que comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, 
excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou 
social, pela boa-fé ou pelos bons costumes. 
 A principal diferença entre o estrito cumprimento do dever legal e o 
exercício regular de direito é que no primeiro caso o agente age impelido por 
um dever, enquanto que no segundo há uma faculdade, um direito. 
 
 
3.5 Ofendículos 
 
 Ofendículos são objetos criados pelo homem para evitar atuações 
criminosas. Esses objetos devem ser instalados de maneira proporcional, 
sem excessos, sob pena do agente responder pelo delito culposo ou doloso 
a que der causa. 
 Parte da doutrina entende que o ofendículo é maneira de legítima 
defesa preordenada, enquanto outra parte entende tratar-se de exercício 
regular de direito. 
 
 
 
 
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3.6 Excesso punível 
 
 Quando o agente intensifica sem necessidade sua conduta lícita, ele a 
converte em ilícita, e por ela se responsabiliza. Nesse caso, autoriza-se que 
a parte contrária se defenda em relação ao excesso, naquilo que a doutrina 
chama de legítima defesa sucessiva. 
 O excesso punível apresenta-se mediante as seguintes modalidades: 
 a) excesso doloso: ocorre quando o sujeito ativo pretende um 
resultado além do necessário. Nesse caso, ele responde pela prática de 
crime doloso; 
 b) excesso culposo: ocorre quando o sujeito ativo quebra um dever 
objetivo de cuidado mediante conduta negligente, imprudente ou imperita e 
dá causa a um resultado não desejado. Nesse caso, ele responde por crime 
culposo (quanto ao excesso), desde que essa conduta seja prevista como 
crime culposo. 
 c) excesso exculpante: ocorre quando a intensificação desnecessária 
resulta da alteração de ânimo pela surpresa ou pelo medo (DOTTI, p. 400, 
2006). Nesse caso, o agente deverá ser absolvido por ausência de 
culpabilidade em razão de inexigibilidade de conduta diversa. 
 E, ainda: 
 a) excesso intensivo: ocorre quando o sujeito atacado intensifica a 
conduta, de forma dolosa ou culposa, pelo uso imoderado dos meios 
necessários. 
 b) excesso extensivo: ocorre quando não há mais agressão atual e o 
sujeito atacado pratica nova conduta contra o autor da agressão. Nesse 
caso, essa nova conduta é considerada como crime autônomo, cuja 
responsabilização também será autônoma. 
 
 
4. Culpabilidade 
 
 A culpabilidade é o juízo de reprovabilidade da conduta praticada pelo 
autor de um crime, isto é, pelo autor de um fato típico e antijurídico. No 
direito penal vige a teoria subjetiva, por meio da qual é fundamental que se 
verifique a existência de culpa do agente, sem o que não há que se falar na 
possibilidade de sua punição. 
 Se adotada a teoria tripartida, ausente a culpabilidade não há que se 
falar em crime, pois para esta, crime é a conduta típica, antijurídica e 
culpável. 
 Em contrapartida, se adotada a teoria bipartida, para a qual crime é 
uma conduta típica e antijurídica, a ausência de culpabilidade não excluirá o 
crime, mais sim a punibilidade do mesmo. Para esta teoria, a culpabilidade é 
mero pressuposto para aplicação da pena. 
 São 3 (três) as teorias sobre a culpabilidade: 
 a) teoria psicológica; 
 b) teoria psicológico-normativa; e 
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c) teoria normativa pura (adotada pelo Código Penal brasileiro). 
 Segundo a teoria psicológica, a culpabilidade é a ligação entre o 
agente e o fato criminoso, ligação esta de ordem psíquica que pode decorrer 
da intenção (dolo) ou da previsibilidade (culpa stricto sensu) do fato. No 
entanto, a teoria psicológica foi criticada por não distinguir a simples 
culpabilidade, ou seja, a vontade ou previsibilidade de qualquer conduta 
humana, da específica culpabilidade penal, que só se verifica quando há 
lesão a bens penalmente tutelados (MIRABETE, 2006, p. 192). 
 Consequentemente, entendeu-se que somente a culpa e o dolo não 
bastavam à descrição da culpabilidade, com o que surgiu a teoria 
psicológico-normativa. Segundo essa teoria, a culpa e o dolo, como 
elementos de ligação entre o agente e a conduta, devem receber uma 
valoração normativa, considerando a reprovabilidade da conduta, que só 
pode ser reputada existente quando demonstrar-se que o agente possuía 
consciência da sua ilicitude, ou que ao menos possuía condições para obter 
esse conhecimento (MIRABETE, 2006, p. 192). 
 A teoria psicológico-normativa foi questionada, contudo, por 
considerar que a culpa e o dolo não poderiam ser reputados como 
elementos da culpabilidade, mas sim como elementos integrantes da 
conduta do agente, com o que se criou a teoria normativa pura, teoria esta 
adotada pelo Código Penal brasileiro. Segundo essa teoria, para que se fale 
em culpabilidade, que é a reprovabilidade que liga o autor ao fato, exige-se a 
imputabilidade, a potencial consciência da ilicitude e a exigibilidade de 
conduta diversa. 
 
 
4.1 Elementos da culpabilidade 
 
 Segundo a teoria adotada pelo Código Penal brasileiro (teoria 
normativa pura), são elementos da culpabilidade: 
 a) a imputabilidade; 
 b) a potencial consciência da ilicitude; e 
 c) a exigibilidade de conduta diversa. 
 
 
4.1.1 Imputabilidade 
 
 Só há que se falar em culpabilidade se o agente possuir capacidade 
para entender o caráter ilícito de sua conduta. A imputabilidade penal 
decorre da sanidade mental do agente, e reflete sua capacidade de se auto-
determinar. 
 Em sentido oposto, inimputável é aquele que não possui consciência 
para se determinar. O artigo 26 do Código Penal dispõe que, é isento de 
pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental 
incompleto ou retardado era, ao tempo da ação ou omissão, inteiramente 
incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de se determinar de acordo 
com esse entendimento. 
 
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 E há, ainda, os semi-imputáveis, que são aqueles dotados de parcial 
consciência para se auto-determinar. Nesse caso, a pena pode ser reduzida 
de um a dois terços, se o agente, em virtude da perturbação de saúde 
mental ou por desenvolvimento mental incompleto ou retardado não era 
inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de se determinar 
de acordo com esse entendimento (art. 26, parágrafo único, do CP). 
 Dentre os critérios existentes para determinação da imputabilidade, 
destacam-se: 
 a) o sistema biológico (adotado como exceção pelo Código Penal 
brasileiro); 
 b) o sistema psicológico; e 
 c) o sistema biopsicológico (adotado como regra pelo Código Penal 
brasileiro). 
 Segundo o sistema biológico, considera-se inimputável aquele que 
apresenta alguma anomalia psíquica, tenha ela influenciado ou não a 
vontade do agente no momento da ação ou omissão (MIRABETE, 2006, p. 
207). O Código Penal brasileiro adota esse critério apenas em relação aos 
menores de 18 anos, por sobre os quais pesa uma presunção absoluta de 
inimputabilidade. 
 Pelo critério psicológico, basta a verificação da consciência sobre a 
ilicitude no momento da ação ou omissão (o que gera uma grande 
dificuldade prática), sendo indiferente se o agente possui ou não alguma 
anomalia mental. 
 Já o critério biopsicológico é uma combinação dos critérios 
anteriormente apresentados e é o critério adotado pelo Código Penal 
brasileiro. Segundo ele: 
 1º) deve-se verificar se o agente possui alguma anomalia mental: 
 a) se não possuir, não será considerado inimputável; mas 
 b) se possuir, deve-se prosseguir na averiguação. 
 2º) possuindo anomalia mental, deve-se verificar se o agente possuía 
capacidade para entender o caráter ilícito do fato: 
 a) se possuir (capacidade para entender o caráter ilícito do fato), não 
será considerado inimputável; mas 
 b) se não possuir (capacidade para entender o caráter ilícito do fato) 
deve-se prosseguir na averiguação. 
 3º) possuindo anomalia mental e não possuindo