Curso Direito Penal SP
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sua própria relação com a vida exterior, como a menoridade, o estado civil 
etc. As circunstâncias pessoais, diferentemente das reais, não se 
comunicam, em hipótese alguma. Quando um menor de 21 anos comete 
uma infração, essa circunstância pessoal não se comunica em benefício dos 
co-autores e partícipes, por exemplo. 
 
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6. Concurso de crimes 
 
 Verifica-se o concurso de crimes quando há a prática de dois ou mais 
crimes, mediante uma ou mais ações ou omissões. 
 Em relação ao tema, são apresentados pela doutrina os seguintes 
sistemas: 
 a) do cúmulo material; 
 b) da absorção; e 
 c) da exasperação. 
 Pelo sistema do cúmulo material, deve haver a somatória das penas 
entre cada crime praticado. O Código Penal adotou o sistema do cúmulo 
material para o concurso material (art. 69), para o concurso formal imperfeito 
(art. 70) e para o concurso em relação as penas de multa (art. 72). 
 Pelo sistema da absorção, cometidos dois ou mais crimes, deve-se 
aplicar somente a pena do mais grave, pois as demais presumem-se 
absorvidas por esta. A Lei de Falência (Lei n.º 11.101/05) adota esse 
sistema em relação aos crimes cometidos pelo falido. 
 Já pelo sistema da exasperação, cometidos dois ou mais crimes, 
deve-se aplicar a pena do mais grave aumentada proporcionalmente, desde 
que não iguale a quantidade de pena que seria obtida no caso do concurso 
material. O Código Penal adotou o sistema da exasperação em relação ao 
concurso formal perfeito (art. 70) e ao crime continuado (art. 71). 
 Sobre as espécies mencionadas, passa-se a discorrer sucintamente 
sobre elas. 
 
 
6.1 Concurso material 
 
 Verifica-se o concurso material quando o agente, mediante mais de 
uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não. Nesse 
caso, ser-lhe-á aplicada cumulativamente as penas privativas de liberdade 
em que haja incorrido (art. 69, do CP). 
 Na hipótese de concorrência de penas de reclusão e detenção, 
executa-se primeiro a de reclusão, conforme determinação do artigo 69, 
caput, do Código Penal. 
 Portanto, para que se fale em concurso material, há que se falar em 
pluralidade de condutas (mais de uma ação ou omissão) e pluralidade de 
crimes (dois ou mais). Se os crimes praticados forem idênticos, estar-se-á 
diante de um concurso material homogêneo. Em contrapartida, se os crimes 
praticados forem diversos, estar-se-á diante de um concurso material 
heterogêneo. 
 Conforme disposição do parágrafo primeiro, do artigo 69 do Código 
Penal, nada impede seja fixada pena privativa de liberdade em cumulação à 
pena restritiva de direitos, desde que tenha havido a suspensão condicional 
da primeira. No entanto, se à pena privativa de liberdade não houver sido 
aplicado o sursis, não haverá como cumulá-la com a pena restritiva de 
direitos. 
 
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 Quando ao condenado forem aplicadas apenas penas restritivas de 
direitos, ele deverá cumprir simultaneamente as que forem compatíveis entre 
si, e sucessivamente as demais (art. 69, §2º, do CP). 
 
 
6.2 Concurso formal 
 
 Verifica-se o concurso formal quando o agente, mediante uma só 
ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não. Nesse caso, 
aplica-se-lhe a mais grave das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma 
delas, mas aumentada, em qualquer caso, de 1/6 (um sexto) até a metade. 
No entanto, as penas aplicam-se, cumulativamente, se a ação ou omissão é 
dolosa e os crimes concorrentes resultam de desígnios autônomos, 
conforme disposição atinente ao concurso material. 
 Portanto, para que se fale em concurso formal, há que se falar em 
unidade de conduta (uma só ou omissão) e pluralidade de crimes (dois ou 
mais crimes). Se os crimes forem idênticos, estar-se-á diante de um 
concurso formal homogêneo, caso em que a pena a ser aplicada será a de 
qualquer dos crimes, acrescida de 1/6 (um sexto) até a metade. Em 
contrapartida, se os crimes praticados forem diversos, estar-se-á diante de 
um concurso formal heterogêneo, caso em que a pena a ser aplicada deverá 
ser a do crime mais grave, acrescida de 1/6 (um sexto) até a metade. 
Nesses casos, se está a abordar o concurso formal perfeito, que é o descrito 
na primeira parte do caput do artigo 70 do Código Penal. 
 Já a segunda parte do mencionado dispositivo, apresenta o concurso 
formal imperfeito, que é aquele que se verifica diante de uma ação ou 
omissão que possui pluralidade de desígnios. Nesse caso, embora o agente 
pratique apenas uma conduta, ele tem intenção (dolo) de causar dois ou 
mais resultados criminosos, o que motiva ser-lhe aplicada a pena somada 
dos mesmos, assim como ocorre no concurso material. 
 Enquanto no concurso formal perfeito há unidade de desígnios, no 
concurso formal imperfeito há pluralidade deles, o que impede a aplicação 
do sistema da exasperação, pertinente apenas para aquele que tenha 
atuado com unidade de desígnios. 
 Em qualquer caso, a pena aplicada mediante o concurso formal não 
pode extrapolar aquele que seria cabível caso fossem aplicadas as regras 
do concurso material (art. 70, parágrafo único, do CP). 
 
 
6.3 Crime continuado 
 
 Verifica-se o crime continuado quando o agente, mediante mais de 
uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma espécie e, 
pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras 
semelhantes, devem os subsequentes ser havidos como continuação do 
primeiro. Nesse caso, aplica-se-lhe a pena de um só dos crimes, se 
idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em qualquer caso, de 
1/6 (um sexto) a 2/3 (dois terços), conforme redação legal do caput do artigo 
71, do Código Penal. 
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Portanto, para que se fale em crime continuado, há que se falar em 
pluralidade de condutas (mais de uma ação ou omissão) e pluralidade de 
crimes (dois ou mais crimes), embora estes devam ser sempre da mesma 
espécie, considerando-se também que em razão das condições de tempo, 
lugar e maneira de execução, os subsequentes devem ser reputados como 
continuação do primeiro. 
 Reputa-se que os crimes subsequentes sejam continuação do 
primeiro quando cometidos no intervalo médio de 30 (trinta) dias entre um e 
outro, quando praticados na mesma cidade ou em cidades próximas, quando 
o agente se beneficia da condição criada pelo primeiro para prática dos 
subsequentes etc. 
 Nos crimes dolosos, praticados contra vítimas diferentes, com 
violência ou grave ameaça à pessoa, o juiz pode, considerando a 
culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do 
agente, assim como os motivos e as circunstâncias, aumentar a pena de um 
só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, até o triplo, 
observadas as regras do concurso material e o limite das penas, que não 
pode ser superior a 30 (trinta) anos (art. 71, parágrafo único, do CP). 
 Caso a aplicação das regras do concurso material se mostre mais 
benéfico ao réu do que a aplicação das regras da continuidade delitiva, 
autoriza-se a aplicação do primeiro, o denominado concurso material 
benéfico. 
 Enquanto o caput do artigo 71 do Código Penal apresenta a hipótese 
de crime continuado comum, isto é, aqueles praticados sem violência ou 
grave ameaça à pessoa, o parágrafo único do mesmo dispositivo apresenta 
a hipótese de crime continuado específico, verificável mediante a prática 
dolosa de crimes com emprego de violência ou grave ameaça em relação a 
vítimas diferentes. 
 
 
7. Penas 
 
 Por meio das penas atinge-se uma das finalidades do direito penal, 
que é repressão ao ilícito, período no qual o agente suportará a privação da 
liberdade ou a restrição de direitos. O caráter repressivo da pena incide 
sobre o agente, assim como o caráter ressocializador da mesma, que deve 
propiciar ao condenado meios de retorno ao convívio social, de forma 
harmônica. 
 Há, ainda, outro efeito decorrente da aplicação da pena, este dirigido 
à sociedade