Curso Direito Penal SP
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novatio legis in mellius. A 
inovação legal que reduz a gravidade da conduta delituosa aplica-se 
retroativamente, inclusive em relação aos casos já definitivamente julgados. 
É mandamento constitucional, albergado no artigo 5º, inciso XL, que \u201ca lei 
penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu\u201d. 
 Outra situação que não pode deixar de ser mencionada é a 
possibilidade de ultratividade da lei benéfica ao réu. Como se viu, a lei penal 
só pode retroagir quando tiver por objetivo beneficiar o réu, e, nesse sentido, 
também pode a lei penal ser aplicada depois de sua revogação, pelo mesmo 
objetivo. A ultratividade é, pois, a aplicação da lei penal em momento 
posterior à sua revogação, o que se permite apenas quando ela for 
beneficiar o réu. Por exemplo, se o réu comete um crime que, à época, era 
apenado com detenção, e, posteriormente (durante o trâmite processual) é 
 
 
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publicada nova lei (novatio legis in pejus), que pune com reclusão a mesma 
conduta, a ele deverá ser aplicada a lei da época dos fatos (lei revogada), 
por lhe traduzir um benefício penal. 
 Conduto, note-se, a ultratividade e a retroatividade em benefício do 
réu vigem apenas na seara penal, mas não na processual penal. As regras 
de direito material tendem sempre a beneficiar o réu, o que não ocorre com 
as normas processuais, que são aplicáveis imediatamente, tão logo se 
tornem vigentes. 
 Para o processo penal impera o princípio tempus regit actum, e, 
portanto, iniciada a vigência de uma lei processual durante o trâmite de um 
processo, essa lei tem aplicação imediata, traga benefícios ou prejuízos ao 
réu. 
 
 
1.4.2 Leis temporárias e excepcionais 
 
 A lei penal pode ser ordinária, isto é, vigente em qualquer 
circunstância, mas também pode ser excepcional ou temporária. Tanto a lei 
excepcional como a temporária são auto-revogáveis, isto é, findo o motivo 
ou o prazo motivo para o qual foram instituídas, elas são automaticamente 
revogadas. 
 Lei temporária é aquela com prazo de vigência previamente 
estipulado, ou seja, é uma lei por prazo determinado, o qual, uma vez 
transcorrido, gera, automaticamente, a revogação da mesma. 
 Lei excepcional é aquela com vigência durante específicas e 
determinadas situações emergenciais. Finda a situação de emergência, 
revogada estará a lei excepcional. 
 No entanto, é importante estar atento para o fato de que tanto as leis 
temporárias como as excepcionais são dotadas de ultratividade, isto é, elas 
surtem efeitos mesmo depois de revogadas. Por exemplo, imagine-se uma 
crise nacional no abastecimento de água, onde seja publicada uma lei 
excepcional que tipifique a conduta de todos os que forem flagrados 
desperdiçando água. Nesse caso, superada a situação emergencial, a lei 
será automaticamente revogada, porém quem praticou aquela conduta que 
ela descrevia como crime, na época de sua vigência, suportará os efeitos do 
processo e da condenação criminal mesmo depois de sua revogação. A 
revogação da lei excepcional, assim como da temporária, não gera uma 
abolitio criminis para os que cometeram o ilícito quando elas eram vigentes, 
o que evita que as pessoas, cientes dessa circunstância, descumpram 
intencionalmente seus mandamentos à época de sua vigência. 
 
 
1.5 Tempo do crime 
 
 Três são as teorias apontadas pela doutrina para identificar o 
momento em que se considera praticada uma infração penal: 
 a) teoria da atividade; 
 b) teoria do resultado; e 
 
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 c) teoria da ubiquidade. 
 Segundo a teoria da atividade, considera-se praticado o crime no 
momento da ação ou omissão delituosa. 
 Segundo a teoria do resultado, considera-se praticado o crime no 
momento da consumação do crime, sendo irrelevante o momento em que foi 
praticada a ação ou omissão delituosa. 
 Por fim, segundo a teoria da ubiquidade, considera-se praticado o 
crime no momento da ação ou omissão delituosa ou no momento da 
consumação do crime, ou seja, considera-se como tempo do crime tanto o 
momento da conduta como aquele em que ocorre o resultado. 
 O Código Penal brasileiro adotou, pois, a teoria da atividade, 
conforme disposição do seu artigo 4º: 
Art. 4º - Considera-se praticado o crime no momento da ação ou 
omissão, ainda que outro seja o momento do resultado. 
 Por isso, nos crimes permanentes e nos continuados, caso 
sobrevenha legislação mais grave para o ofensor (novatio legis in pejus), ela 
será perfeitamente aplicável, não havendo que se falar em ultratividade da 
lei mais benéfica. Tanto o crime permanente como o crime continuado tem 
sua execução prolongada no tempo, ou seja, o momento da ação ou 
omissão não é único, mas diferido, e, sobrevindo legislação durante o 
período em que o crime (permanente ou continuado) está em atividade, a ele 
se aplica a nova legislação, seja ela mais benéfica ou gravosa. 
 Por derradeiro, quanto à prescrição, é importante mencionar que o 
Código Penal não adotou a teoria da atividade, mas sim a do resultado. 
Portanto, quando se tratar de prescrição, esta tem início a partir da 
consumação do crime, e não a partir da data em que o mesmo foi praticado, 
haja visto expressa ressalva legal: 
Art. 111 - A prescrição, antes de transitar em julgado a sentença 
final, começa a correr: 
I - do dia em que o crime se consumou; 
II - no caso de tentativa, do dia em que cessou a atividade 
criminosa; 
III - nos crimes permanentes, do dia em que cessou a 
permanência; 
IV - nos de bigamia e nos de falsificação ou alteração de 
assentamento do registro civil, da data em que o fato se tornou 
conhecido. 
 
 
1.6 Lei penal no espaço 
 
1.6.1 Territorialidade 
 
 O Código Penal aplica-se ao território brasileiro. A afirmação óbvia 
carece de esclarecimento para que se identifique, com exatidão, o que pode 
ser considerado como território brasileiro. 
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Além do solo, considera-se território brasileiro: 
 a) o subsolo; 
 b) o espaço aéreo; 
 c) o mar territorial (faixa de 12 milhas, contadas da baixa maré); 
 d) as ilhas fluviais ou lacustres (ilhas de lagos ou rios nas faixas de 
fronteiras); 
 e) as ilhas oceânicas (afastadas do continente, como a ilha de 
Fernando de Noronha); 
 f) os navios e aeronaves de caráter público, onde quer que se 
encontrem; 
 g) os navios e aeronaves brasileiros, mercantes ou particulares que 
estejam em águas ou no espaço aéreo internacional; 
 h) as embaixadas, consulados ou representações diplomáticas 
brasileiras; e 
 i) a estação brasileira no continente antártico. 
 Em qualquer destes locais, cometida uma infração penal, esta se 
sujeita às leis brasileiras, leis que também são aplicáveis para os crimes 
praticados a bordo de aeronaves ou embarcações estrangeiras de 
propriedade privada, desde que elas estejam em pouso no território nacional 
ou em voo no espaço aéreo correspondente, e estas em porto ou mar 
territorial do Brasil (parágrafo segundo, do art. 5º, Código Penal). 
 Caso o Brasil tivesse admitido, com exclusividade, a aplicação da lei 
penal brasileira para o crime cometido em qualquer dos locais considerados 
como território brasileiro, estar-se-ia diante da adoção do critério da 
territorialidade. 
 No entanto, o caput do artigo 5º do Código Penal é claro ao dispor 
que \u201caplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e regras 
de direito internacional, ao crime cometido no território nacional\u201d. Ao admitir 
a aplicação da lei estrangeira no país, em algumas situações, o Brasil 
adotou o critério da territorialidade temperada. 
 
 
1.6.2 Lugar do crime 
 
 Assim como ocorre quanto ao tempo, também quanto ao lugar do 
crime a doutrina apresenta 3 (três) teorias para identificar o local em que se 
considera praticada uma infração penal: 
 a) teoria da atividade; 
 b) teoria do resultado; e 
 c) teoria da ubiquidade. 
 Segundo a teoria da atividade, considera-se