GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
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GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


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jurídica as noç<*­*>es e os 
princípios  jurídicos  fundamentais,  indispens<*­*>veis  ao  raciocínio  jurídico,  bem 
como 
noç<*­*>es  sociológicas,  históricas  e  filosóficas  necessárias  à  compreensão  do 
direito 
na totalidade de seus aspectos. Foroece uma visão de conjunto, bem como as 
possíveis raízes sociais e históricas do direito e o seu fundamento filosóftco. É, 
portanto, uma disciplina enciclopédica, motivo por que já fora denominada de
Enciclopédia Juridica. Dando os conceitos fundamentais do direito, tem pontos de 
contato com a Teoria Geral do Direito, apesar de com ela não se confundir. 
Denominada,  entre  nós,  anteriormente,  IntroduÇão  à  Ciência  do  Direito, 
denomina­ 
ção ainda usada em outros países. 
A importância dessa disciplina tem sido ressaltada por muitos juristas e 
professores.  Confirma  essa  assertiva  a  Circular,  de  29  de  junho  de  1840,  do 
Ministre 
de 1'Instruction da França, Guizot, transcrita no prefácio do Prof. F. Larnaude, da 
Universidade de Paris, à tradução francesa do Curso de Teoria Geral do Direito, 
de 
Korkounov (Paris, V. Giard E. Briére,1903). Na referida circular, justificando a 
criação da cadeira de Introduction générale à I'étude de droit, na Faculdade de 
Direito de Paris (25 .06.1840), Guizot assim se pronunciou: há uma lacuna grave 
no 
ensino jurídico (em 1840), os &quot;alunos, que ingressam na Faculdade, não têm uma 
cadeira preliminar que os faça conhecer o objeto e o fim da ciência jurídica, as 
diversas  partes  que  a  comp<*­*>em,  os  laços  que  as  unem,  a  ordem  em  que 
devem ser 
sucessivamente estudadas, e, sobretudo, o método que preside essa ciência. . . ''. 
Esse 
é o propósito dessa disciplina: fornecer uma visão de conjunto do direito como 
ciência e como sistema de normas. Com esse propósito foi escrito este livro. 
10. FILOSOFIA DO DIREITO 
A questão de saber o que seja a Filosof'ia do Direito é, como em toda filosofia,&quot; 
o primeiro problema do filosofar. 
A problematicidade da filosof'iajurídica desafia o jurista, como a questionabi­ 
lidade da filosofia preocupa os filósofos. 
Até o século XIX, no Ocidente, os juristas filosofaram sobre o direito, sem se 
preocuparem se era ou não filosofia o que faziam. 
A crise da teoria jurídica clássica (teoria do direito natural) e da metafísica, 
aliada à crise do Iluminismo, acarretou a problematicidade da própria Filosof'ia do 
Direito. Esta, confizndida com a teoria do direito natural, não pôde resistir aos 
impactos do historicismo e do positivismo. Foi assim que a f'<*­*>losofia jurídica, 
pela 
14  Simmel,  &quot;Pc'oblemas  Fundamentales  de  la  Filosofia&quot;,  Madri,  Revista  de 
Occidente,1946, trad., p.11. 
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Paulo Dourado de Gusmão
primeira vez,  foi posta à prova. Desde então os juristas começaram a desconfiar 
de 
suas filosofias. 
Surgiram, para substituí­la, a Teoria Geral do Direito (Allgemeine Rechtslehre) 
dos alemães, a Enciclopédia Juridica dos italianos e a Analytical Jurisprudence do 
inglês  Austin,  como  filosofias  do  direito  positivo,.  segundo  o  modelo  do 
positivismo. 
Seus propugnadores consideravam­nas como filosofias apropriadas para a época 
cien­ 
tífica  do  Ocidente,  isto  é,  para  um  período  histórico  que  depositava  grande 
confiança 
no progresso das ciências e na possibilidade de cientificamente serem resolvidas 
todas 
as quest<*­*>es. 
Mas, como o cientificismo aspirava a um tipo de conhecimento claro, ordena­ 
do, sistemático, inquestionável, o que se viu, depois da crise do jusnaturalismo, foi 
a problematicidade da ciência do direito e o entrechoque de enorme variedade de 
teorias jurídicas. 
Por isso, os juristas­filósofos continuam e continuarão formulando filosofias 
jurídicas. 
Como entendê­la? De modo geral, dizendo estar a Filosofia do Direito fora do 
domínio da ciência do direito, sem confundi­la com a Teoria do Direito Natural, que 
nada mais é do que um de seus modos de ser. Pode­se hoje entendê­la como o 
conhecimento resultante da auto­reflexão sobre o ser, o sentido, o fundamento, a 
finalidade e os valores do direito, sem deixar de ser o tribunal do direito positivo. 
De modo muito amplo: o saber decorrente da auto­refiexão sobre o direito sem 
qualquer limitação, por não ser limitável opensamentofilosófico. Querendo: o saber 
que,  pondo  à  prova  o  conhecimento  jurídico,  sem  dar  soluç<*­*>es  definitivas, 
suscita 
problemas. Estes, e não as  respostas, é que, desde Atenas, desafiam o  tempo. 
Em 
nossa Filosofia do Direito (1985) assim escrevemos: &quot;O valor da filosofia reside 
mais nas perguntas ­ que são eternas ­, nas quest<*­*>es que suscita, do que nas 
respostas'' que dá historicamente. A ` `pergunta é mais importante, lança a dúvida, 
quebra o gelo que encobre a realidade jurídica, abre novos horizontes, novas 
perspectivas, colocando em questão o estabelecido por respostas do passado. As 
perguntas  são  os  temas,  as  respostas,  as  fllosofias&quot;,  e  não  a  Filosofia 
propriamente 
dita, inexaurível. A ` `filosofia que pretender ter resposta definitiva para os eternos 
problemas é dogma, incompatível com o espírito filosófico&quot;... ou, como disse Paul 
Valéry, um dos &quot;desejos idiotas do homem&quot;. 
Antes de Hegel, foi tratada por filósofos, incluída em seus sistemas, como fez 
o própria Hegel. Depois dele, tem sido obra de juristas. Stammler foi o jurista que 
primeiro construiu um sistema filosófico do direito. O primeiro, quiçá o último.
II 
RELAÇÊES DA CIÊNCIA JURÍDICA 
COM OUTRAS CIÊNCIAS 
11. O DIREITO E AS CIÊNCIAS SOCIAIS 
Os séculos XIX e XX modificaram profundamente a noção do homem culto e 
de  fonte  do  saber.  Assim,  até  bem  pouco  tempo,  bastava  ao  jurista,  para  ter 
cultura 
geral compatível com o seu papel social, ser iniciado em Filosofia e História. Hoje, 
a Filosofia, que perdeu muito de sua supremacia, é somente uma das  fontes do 
saber 
utilizada pelo  jurista para compreender, em sua totalidade, a  realidade social de 
seu 
tempo. 
Desta forma, em nossa época, não mais se pode pensar em estudar o direito 
sem o conhecimento de outras ciências que facilitam a exegese, a aplicação e, 
principalmente, a criação do direito. 
Daí não ser exagero afirmar: o desconhecimento dessas ciências muito tem 
contribuído  para  a  perda  do  papel  social  que  desempenhou  o  jurista  no  nosso 
passado 
até  os  anos  60,  para  a  qual  concorreu  também  a  crise  do  ensino  jurídico, 
divorciado das 
demais  ciências  sociais,  destinado  exclusivamente  a  formar  profissionais 
eficientes, 
&quot;doutores em leis&quot;, e não juristas. 
Para que ojuristatenhaumavisão atual do direito é necessário que sejainiciado 
nas  ciências  sociais  dentre  as quais destacamos a Sociologia, pela  importância 
que 
tem para o direito, pois, hoje, não se pode formular, interpretar ou aplicar o direito 
sem o conhecimento dessas ciências e, muito menos, construir a ciência jurídica, 
como autêntica ciência, sem uma visão sociológica. Basta, para comprovar nosso 
pensamento, meditar sobre o que é a Sociologia, que, como nota Sorokin, é não 
só
a ciência das &quot;relaç<*­*>es e correlaç<*­*>es entre várias classes de fenômenos 
sociais 
(correlaç<*­*>es entre os fatores econômicos e os religiosos\u37e a família e a moral\u37e o 
jurídico e o econômico\u37e a mobilidade e os fenômenos políticos etc.)&quot;, como, 
também, o estudo das relaç<*­*>es &quot;entre os fenômenos sociais e os não­sociais 
(geográ­ 
ficos,  biológicos  etc.)&quot;,  que  a  habilita  a  dar  as  &quot;características  gerais  comuns a 
toda 
classe de  fenômenos sociais''  (vide Capítulo  lln e a entendê­los como realmente 
são. 
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Paulo Dourado de Gusmão 
E assim é porque a Sociologia estuda os fatos sociais, ou seja, os fenômenos 
sociais. Ora, o direito é um fato social, resultante do impacto de diversos fatores 
sociais (religião,