GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
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GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


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ou  reduzindo  a  intervenção  estatal  na  economia, 
possibilitan­ 
do a revisãojudicial de contratos quando, por exemplo, acontecimento imprevisível 
ao tempo da celebração do mesmo acarrete para o devedor enorme sacrifício para 
cumprir a obrigação, proporcionando ao credor lucro anormal, quebrando assim o 
equilíbrio das prestaç<*­*>es. O direito sofre, pois, a influência das condiç<*­*>es 
sociais, 
sem  contudo  ser  a  conseqüência  direta  das  mesmas,  porque  a  experiência 
jurídica, 
as  tradiç<*­*>es históricas,  ideais sociais,  valores e dados científicos e  técnicos 
dão ao 
jurista e ao legislador meios e elementos para a formulação da norma jurídica 
adequada à situação social criada por esses fatores. 
Deve ser dito finalmente inexistir fator social único determinador do direito, 
que  reflete  uma  totalidade  de  condiç<*­*>es,  podendo  em  uma  sociedade  ou 
situação 
ocorrer o predomínio de uma delas, sem excluir a influência das demais. Todavia, 
os  mesmos  fatores,  em  outra  situação  ou  sociedade  semelhante,  podem  não 
influir 
no direito. 
24. DIREITO E ECONOMIA 
Já havia dito Stammler (§ 197) que o direito é a &quot;forma&quot; das relaç<*­*>es 
econômicas. Mas a vinculação do direito à Economia, ou seja, o determincsmo 
econômico, foi pela primeira vez defendido por Marx (§ 199). Disse Marx: na 
`  `produção  social  os  homens  estabelecem  relaç<*­*>es  independentes  de  sua 
vontade, 
necessárias, determinadas. Tais relaç<*­*>es de produção correspondem a certa 
etapa 
do  desenvolvimento  de  sua  força  material  de  produção.  O  conjunto  dessas 
relaç<*­*>es
de produção  constitui  a  estrutura econômica da sociedade, a base  real sobre a 
qual 
se  erguem  as  superestruturasjurídica  e  política,  que  correspondem  a  formas 
sociais 
bem definidas de consciência''. Assim, para o materialismo histórico, não só o 
direito como também as instituiç<*­*>es políticas, a arte, as formas de saber e os 
valores 
seriam deterniirtados pela estnitura econômica da sociedade. Coube a Max Weber 
(§ 
199)  demonstrar,  à  luz  de  estudos  histórico­comparativos,  não  ser  fatal  essa 
influên­ 
cia, por haver sociedades em que fatores diversos do econômico influenciaram em 
suas estruturas econômicas. Cita o exemplo do capitalismo, que teria sofrido a 
influência  do  espírito  da  ética  protestante,  menos  rígida  quanto  ao  lucro  e  aos 
juros 
do  que  a  católica,  razão  por  que  teria  o  capitalismo aparecido e  florescido nos 
países 
em  que  ela  é  dominante,  e  não  nos  sob  o  domínio  do  catolicismo.  Apesar  da 
análise 
de Max Weber ser sustentada em fatos sociais, não deve ser esquecido o fato de 
terem 
brotado  nas  cidades medievais  da  Itália,  em  que  dominava  a  Igreja  Católica,  o 
direito 
comercial e as sociedades comerciais, elementos básicos do capitalismo europeu. 
Mas, sem tomar partido por uma dessas posiç<*­*>es, reconhecendo variar com 
as
épocas, culturas e sociedades a força dos fatores sociais, não podemos negar ser 
grande a influência da economia no direito, principalmente no regime jurídico da 
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Paulo Dourado de Gusmão 
propriedade,  no  direito  dos  contratos,  no  direito  das  sociedades,  no  direito 
comercial, 
no direito econômico (§ 123), no direito fiscal, e até no direito político. A crise de 
1929, no Brasil, derrubou a ` `República Velha'', instalando a ` `ditadura Vargas'' \u37e 
na Alemanha, crise econômica gravíssima esfacelou a República de Weimar facili­ 
tando a vitória do nazismo. 
A História fornece­nos muitos exemplos da influência dos fatos econômicos 
sobre a ordem jurídica. A ` `Grande Depressão'' de 1929, por exemplo, determinou 
a  intervenção  do  Estado  no  setor  econômico,  promulgando  leis  alfandegárias 
prote­ 
cionistas  da  indústria  nacional,  desencorajadoras  da  importação  de  produtos 
estran­
geiros similares aos nacionais, bem como forçou a introdução, pela jurisprudência, 
da revisão judicial dos contratos leoninos\u37e ocorreram nessa época falências de 
bancos  e  de  fazendeiros  na  América  Latina,  bem  como  golpes  de  Estado  e 
revoluç<*­*>es 
com  os  seus  respectivos  estatutos  jurídicos,  como,  por  exemplo,  entre  nós  a 
Revo­ 
lução  de  1930.  A  crise  de  1929  entre  nós  conduziu  não  só  à  nossa 
industrialização, 
como,  também,  provocou  a  crise  do  café  e  criou  a  legislação  trabalhista.  Na 
década 
de setenta, a guerra entre árabes e judeus, além de ter ameaçado a paz mundial, 
provocou  o  boicote  do  petróleo  árabe  a  alguns  países  europeus,  bem  como  a 
elevação 
brutal do preço do petróleo, além de sua produção racionada pelos árabes. Tais 
fatos 
políticos e econômicos abalaram a economia capitalista. Normas disciplinadoras 
do 
uso de automóveis aos domingos foram ditadas, reajustes do preço da gasolina 
ocorreram, influindo nos preços de bens e serviços, muitos deles congelados em 
vários países. A ordem jurídico­econômica sofreu o impacto desses fatos. A 
ampliação  do  mercado  de  capitais  entre  nós  na  década  de  setenta  e  a 
multiplicação 
de instituiç<*­*>es financeiras criaram negócios jurídicos que não têm raízes nas 
fontes 
históricas de nosso direito, como, por exemplo, a alienação fiduciária. 
Os exemplos apontados bastam, a nosso ver, para convencer da influência da 
Economia  sobre  o  Direito.  Mas  tal  influência  não  deve  conduzir  à  redução  do 
direito, 
como pensava Stammler, à ` `forma'' das relaç<*­*>es econômicas, porque, como 
já 
dissemos  anteriormente,  outros  fatores  sociais,  além  do  econômico,  concorrem 
para 
formar o conteúdo das normas jurídicas. 
25. NATUREZA, CULTURA E DIREITO 
Se chegarmos àjanela de nossa casa ou apartamento e olharmos o panorama 
em frente ­ quando se tem sorte de tê­lo ­ poderemos ver em frente ou ao lado, um 
pouco  distante,  uma  montanha,  e  do  outro  lado  da  rua  prédios,  postes  de 
iluminação 
etc.  O  que  vemos  primeiro  é  natural,  independe  do  homem,  é  a  Natureza, 
enquanto 
o que deparamos depois é cultural, depende do gênio e da vontade humana, tem 
destinação,  sentido,  é  Cultura.  Comp<*­*>e­se  de  obras  humanas,  de 
transformaç<*­*>es da 
Natureza para objetivar, concretizar valores e idéias, bem como para atender
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Introdução ao Estudo do Direito 
necessidades e exigências humanas e sociais. São criaç<*­*>es com finalidades. 
Na 
Natureza, podemos distinguir o orgânico do inorgânico. O primeiro, como disse o 
falecido sociólogo de Harvard, Sorokin, tem somente um componente físico­quími­ 
co,  enquanto  o  orgânico,  tem  dois  componentes:  o  físico  e  o  vital.  Já  os 
fenômenos 
culturais,  escreve  Sorokin,  têm  o  `  `componente  imaterial  da  intencionalidade 
(valor 
significativo ou norma) superposto aos componentes físico e vital. Decisivo é o 
componente  intencional  para  determinarum  fenômeno  cultural''.  Prossegue  o 
ilustre 
sociólogo,  `  `sem sua  intencionalidade, a Vênus de Milo não é mais do que um 
bloco 
de mármore de certa forma geométrica e de determinada composição física. Sem 
o 
componente intencional inexiste diferença alguma entre rapto, adultério, matrimô­ 
nio ou concubinato, porque os atos  físicos podem ser  idênticos em  todas essas 
aç<*­*>es 
e situaç<*­*>es que variam tão profundamente em sua intencionalidade e em sua 
significação''. Poderíamos acrescentar ao exemplo acima indicado este: sem o 
componente intencional o Código de Hamurabi (§ 160) seria um enorme cilindro 
de  pedra  negra,  de  2,25m  de  altura  com  2m  de  circunferência.  Mas,  a  sua 
intencio­ 
nalidade,  ou  seja,  o  sentido  do  que  se  encontra  gravado  nesse  bloco,  teve 
vigência 
na  Babilônia,  disciplinando  efetivamente  condutas  dos  babilônicos  e  de 
seusjuízes. 
Porém, como bloco de pedra,