GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
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GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


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apesar  de,  na  Idade Média,  ter  sido  usada pela 
primeira vez a 
expressão  ius  positivum.  É  com  os  jusnaturalistas  que  o  problema  do  direito 
positivo e da 
` `positividade'', como nota específica do direito, começou a ser questionado. 
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Introdução ao Estudo do Direito 
por não ter eficácia o direito natural, como aliás já dissera Dabin ­ mera exigência, 
aspiração  ou  ideal  jurídico.  Adveitimos  no  nosso  livro  Introdução  à  Teoria  do 
Direito 
(1%2)  que  ao  considerarmos  o  direito  natural  como  prescrição  moral  não 
estávamos 
reduzindo o seu valor, salvo se forjulgado, o que não fazemos, valer mais o direito 
do que 
a Moral. 
Mas, como tornou­se tradicional tal adjetivação do direito, somos obrigados a 
nos pronunciar sobre o direito positivo. É o direito efetivamente observado em uma 
comunidade  ou,  então,  o  directo  efetivamente  aplicadopelas  autoridades  do 
Estado 
epelas  organizaç<*­*>es  internacionais.  É  promulgado  no  caso  da  lei  (§  71  )\u37e 
declarado 
pelos tribunais, no caso do direito norte­americano, contido em precedentes 
judiciais (§ 166)\u37e estabelecido por consenso das naç<*­*>es em tratados (§ 83) no 
caso 
do direito internacional (§ 91). Não se p<*­*>e em dúvida: a &quot;existência do direito 
positivo'', escreve Ripert, ` `não é contestada por pessoa alguma''. Não é só o 
prescrito  pela  lei  ou  pelos  precedentes  judiciais, mas  o  que  os  tribunais  dizem 
estar 
na  lei,  quando muitas  vezes  não  está,  como  a  revisão  dos  contratos  leoninos, 
colocada 
pelajurisprudência francesa no Código de Napoleão, atual Código Civil francês. 
Precisando o nosso pensamento, diremos que o direito positivo é o direito 
histórica e objetivamente estabelecido, efetivamente observado ou, então, passivel 
de  serimposto  coercitivamente,  encontrado  em  leis,  códigos,  tratados 
internacionais,
costumes, resoluç<*­*>es, regulamentos, decretos, decis<*­*>es dos tribunais etc. 
É, assim, 
o direito determinável na história de um país com pouca margem de erro, por se 
encontrar em documentos históricos (códigos, leis, repertórios de jurisprudência, 
compilação de costumes, tratados internacionais etc.). É o direito vigente ou o que 
teve vigência. É direito positivo tanto o vigente hoje como o que vigorou ontem ou 
no passado longínquo, como, por exemplo, o Código de Hamurabi ou o direito 
romano. . 
Finalmente, o direito positivo é a garantia da certeza do direito. É, como nota 
Ripert, o direito cuja existência não é contestada por ninguém. 
Direito positivo tem dimensão temporal, pois é direito promulgado (legislação) 
ou declarado (precedente judicial, direito anglo­americano), tendo vigência a partir 
de determinado momento histórico, perdendo­a quando revogado em determinada 
época. Reflete valores, necessidades e  ideais históricos. É o direito que  tem ou 
teve 
vigência.  Tem  também dimensão espacial ou  territorial, pois vige e  tem eficácia 
em 
determinado território ou espaço geográfico em que impera a autoridade que o 
prescreve  ou  o  reconhece,  apesar  de  haver  a  possibilidade  de  ter  eficácia 
extraterri­ 
torial. Espaço que geralmente coincide com o território do Estado que o imp<*­*>e, 
porém  pode  ser  mais  amplo.  Assim,  por  exemplo,  no  direito  aeronáutico,  a 
Conven­ 
ção de Roma, que prevê limites para a responsabilidade civil dos proprietários de 
aeronaves, vige no espaço geográfico em que têm autoridade os países que a ela 
aderiram. O direito positivo tem ainda caráterformal, pois é instituído por meio de 
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Paulo Dourado de Gusmão 
fonte formal (tratado, lei, decreto­lei, costume, precedente judicial, regulamento 
etc.). Caracteriza­se, também, por autocontrolar a sua própria criação, modificação 
ou revogação, pois estabelece regras para a elaboração legislativa. Finalmente, 
imp<*­*>e uma ordem em que há hierarquia de suas normas, sendo as superiores, 
como, 
porexemplo,  a  constitucional,  mais  ricas  em  conteúdo  e  quantitativamente 
reduzidas 
em número, enquanto as inferiores ou subordinadas, à medida que particularizam 
a 
matériajurídica,  tornam­se  menos  gerais,  por  isso  mais  numerosas.  Acima  de 
todas 
as normas do direito positivo estão os princípios gerais do direito  (§ 139),  fonte 
das
fontes,  inspiradores  do  direito  positivo.  Mas,  pairando  acima  do  direito  estatal, 
como 
uma superconstituição, não no sentido dado por Hauriou a tal vocábulo, encontra­ 
se a 
Declara<*­*>ão  Universal  dos  Direitos  do  Homem,  estabelecida  pela  0M1, 
ratificada pelos 
Estados­membros. 
32. DIREITO POSITIVO E DIREITO NATURAL 
Estabelecido o que se deva entender por direito positivo: scstema de normas 
obrigatórias, aplicáveis coercitivamente por órgãos especcalizados, sob aforma de 
leis, de costumes ou de tratados, resta a indagar as relaç<*­*>es do direito positivo 
com 
o direito natural (§ 192). 
Têm naturezas diferentes, o positivo resulta de um ato de vontade, sendo, por 
isso,  heterônomo,  enquanto  o  direito  natural,  sendo  evidente,  espontâneo,  é 
autôno­ 
mo. Geralmente  estão  em  oposição\u37e  porém  ocorreu  época  em  que  coincidiram, 
como 
ao tempo da Revolução Francesa, em que o direito natural era o direito primordial, 
inspirador da &quot;Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão&quot; (1789), que o 
enunciava expressamente. Mas, depois de o Positivismo dominar nas ciências 
sociais, é comum tal oposição, da qual não se afastam os próprios jusnaturalistas 
ao 
considerarem o direito natural o sistema métrico da legitimidade do direito positivo, 
a ` `medida e linha diretriz do direito positivo'', no dizer de Rommen (Derecho 
Natural, trad.). Porém, sem tomar partido na polêmica travada entre positivistas, 
sociólogos, normativistas e jusnaturalistas, reconhecemos a validade do direito 
natural para a Civilização Ocidental, como idealjurídico dessa Civilização, admitido 
até por alguns sociólogos, que lhe atribuem origem social (portanto, não oriunda 
da 
natureza humana), e por juristas­filósofos, como Stammler, Saleilles, Lévy­U11­ 
mann,  além  de  outros,  que  defendem  as  transformaç<*­*>es  de  seu  conteúdo 
(direito 
natural  relativo,  e  não  absoluto).  Reconhecemos,  ainda,  com  Dabin  e  outros, 
perten­ 
cer  o  direito  natural  à  Moral,  sendo  assim  ideal  ou  valor,  sempre  presente  na 
História 
de nossa Civilização. 
Estabelecida a nossa posição, que não é contrária ao direito natural, mas que 
o define como ideal jurídico válido no Ocidente, incorporado a várias leis e 
declaraç<*­*>es  de  direito,  como  as  do  século  XVIII,  a  norte­americana, 
promulgada 
pela Assembléia de Virgínia (1776), a da Revolução Francesa (1789) e, em nossa 
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Introdução ao Estudo do Direito 
época,  a  da  ONU  (  1948),  pensamos  poder  responder  à  vexatissima  quaestio 
proposta 
no  tópico  desse  parágrafo  da  seguinte  forma:  o  direito  positivo  é  o  direito  que 
depende 
da vontade humana, seja na forma legislada (lei, estatuto, regulamento, tratado 
internacional etc.), seja na jurisprudencial (precedente judicial, case law), seja na 
consuetudinária (costame), em ambas, objetivamente estabelecido, enquanto o 
direito natural é o que independe da vontade, que atende a exigências naturais do 
homem,  como  igualdade  e  liberdade,  culturalmente  criação  da  literatura  grega 
(Antigo­ 
na, de Sófocles), presente em todas as épocas da Civilização Ocidental. Assim, o 
direito 
positivo  seria  histórico  e  válido  em  espaços  geográficos  determinados  ou 
determináveis, 
isto é, válido para determinado Estado (direito brasileiro, direito norte­americano 
etc.) 
ou para vários países  (direito  internacional), podendo perder a sua validade por 
decisão 
do legislador (lei, decreto­lei etc.), enquanto o direito natural seria válido