GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
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GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


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é norma coativa, ou seja, a norma que, se 
inobservada, é obedecida até com o emprego da força, se necessário. 
Mas a norma jurídica não se auto­aplica. Não fala, não manifesta o que quer e 
nem como deve ser. Necessita de órgãos ou especialistas que por ela falem, isto 
é, 
autoridades,  seja  pelo  saberjurídico  (jurisconsultos),  que  estabelecem  o 
pensamento 
contido  na  norma  em  seus  pareceres  e  em  suas  obras,  seja  por  estarem 
investidas, 
pela própria norma, do poder de interpretá­la e aplicá­la (administração pública, 
polícia, judiciário). 
Aplicação, logicamente, sup<*­*>e anterioridade da norma. A anterioridade da 
norma ao affair chama­se legalidade. Eis o sentido mais importante do termo 
legalidade, desde que seja considerado em função das liberdades e direitos indivi­ 
duais (sentido democrático de legalidade). Compete aos tribunais controlar a lega­ 
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Introdução ao Estudo do Direito 
lidade dos atos  do poder  público,  cassando­os  quando  ilegais, ou seja, quando 
não 
tiverem apoio em lei. Além desse, há outro sentido mais amplo, que pode ser 
entendido como a qualidade do direito decorrente de sua própria vigência. 
O império da lei é, assim, o sentido próprio de legalidade. 
Mas o império do direito só é manifestação da sua legalidade quando for 
prescrito ou reconhecido por autoridade que, em certo momento histórico­social, 
for, em seu espaço sociopolítico, competente a prescrevê­lo. Porém, para que a 
autoridade prescreva direito que tenha legalidade, é indispensável a observância 
de 
ritos e regras previstos no próprio direito, que regem a sua própria criação. Nesse 
sentido, legalidade depende da observância de regras e princípios disciplinadores 
da criação do direito, de antemão estabelecidos. 
Compreende também o problema da legalidade da sua aplicação. Completa­se 
assim  o  sentido  de  legalidade  fazendo­a  depender  de  a  aplicação  do  direito 
observar
regras, estabelecidas de antemão pelo direito, para a sua própria aplicação, e de a 
sentença  ser  compatível  com  o  texto  aplicável  ao  caso  subjudice.  Legalidade 
nesse 
sentido é, por exemplo, ato administrativo ou sentença judicial fundados em lei. 
Levando­se em conta esses sentidos, pode­se de inir legalidade como a qua­ 
lidade do direito prescrito por autoridade competente, com observância da Consti­ 
tui<*­*>ão, aplicado de acordo com a lei, por autoridade qualificada para tal. 
NOTA 
Para que o leitor não tenha só a definição do direito dada pelo Autor, indica­ 
remos, a seguir, as que julgamos merecer figurar em uma obra introdutória como a 
presente. 
A grande maioria das definiç<*­*>es aponta ajustiça como meta do direito. Dentre 
as mais antigas, destacamos a do  jurista  romano Paulo:  &quot;o que é semprejusto e 
bom 
chama­se direito&quot; (id quod semper aequum ac bonum est, jus dicitur) ou, então, a 
de  Celso:  `  `direito  é  a  arte  do  bom  e  dojusto''.  Mais  modernas:  `  `direito  é  a 
realização 
social  da  idéia  de  justiça''  (Pillet)\u37e  `  `direito  ordena  as  relaç<*­*>es  sociais  no 
sentido da 
justiça''  (Esser)  \u37e  `  `direito  é  a  crescente  aproximação  da  justiça,  a  ordem  que 
tende 
para a perfeição sem jamais alcançá­la'' (Renard)\u37e ` `direito é o conjunto de regras 
às quais está submetida a conduta exterior do homem em suas recíprocas relaç<*­ 
*>es, 
e  que,  sob  a  inspiração  da  idéia  natural  dajustiça,  em  um  estado  dado  da 
consciência 
coletiva da humanidade, é suscetível de uma sanção social, coercitivamente&quot; 
(Geny)\u37e ` `direito é a tentativa para realizar ajustiça em um meio social'' (Gurvitch). 
Anteriormente, em L 'Idée du Droit Social, Gurvitch dava ao direito uma definição 
mais ampla:  ` `ordem positiva que representa um ensaio de realizar a justiça em 
um 
meio social dado, por um conjunto de  regras multilaterais de caráter  imperativo­ 
atri­ 
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Paulo Dourado de Gusmão 
butivo, instituidoras da interdependência estritamente determinada entre deveres e 
pretens<*­*>es  correspondentes,  que  extraem  sua  força  obrigatória  dos  fatos 
normativos 
e admitem em certos casos a possibilidade de execução pela coerção, que,
entretanto, não lhe é necessária''. Passados alguns anos, Gurvitch (v. § 199), em 
sua Sociologia do Direito, formulou uma definição analítica: ` `direito representa a 
tentativa de realizar a idéia de justiça em um meio social dado ­ isto é, uma 
reconciliação prévia e essencialmente variável dos valores espirituais em conflito, 
integrados em uma estnztura social ­ mediante a regulação multilateral imperativa­ 
atri­ 
butiva, baseada em uma determinada união entre pretens<*­*>es e deveres, que 
deriva sua 
validez dos fatos normativos, que têm em si uma garantia social de sua efcácia e 
podem 
em certos casos executar seus preceitos mediante a coação concreta e extema, 
porém sem 
a  pressupor  necessariamente&quot;.  Mas,  antes  de morrer,  no  capítulo  dedicado  ao 
direito, do 
Tratado de Sociologra, por ele organizado com vários sociólogos, definiu­o com 
espírito 
de síntese, que tomou emprestado dos franceses, mas que não soube empregá­ 
lo, talvez 
devido à sua formação germânica. Nesse tratado disse representar o direito ` `um 
ensaio 
de realização dajustiça ­ isto é, reconciliação prévia e essenciahnente variável das 
obras 
da  civilização  em  contradição  ­  por  meio  da  imposição  de  encadeamentos 
multilaterais 
entre pretens<*­*>es e deveres, cuja validez deriva dos fatos normativos que têm 
em si mesmos 
a garantia da eficácia das condutas correspondentes''. Era o sociólogo, outrora, 
mais 
jusfilósofo, estabelecendo a sua última definição do direito... 
Outros, jusnaturalistas (v. § 182), encontram na Razão ou na Natureza a matéria­ 
prima do direito. Em Roma, Cícero assim o deflnia: ` `manifestação da lei natural'' 
enquanto São Tomás de Aquino, &quot;mandato da razão a serviço do bem comum 
, 
promulgado pelo governo da sociedade''. Na mesma linha, Grotius, ` `regrada reta 
razão 
pela  qual  julgamos  justa  uma  ação  pela  sua  conformidade  com  a  natureza 
racional''. 
Mas não eram só os antigos que assim pensavam, pois, para o romanista Cuq, é o 
`  `conjunto  de  regras  fundadas  sobre  a  razão,  com a  finalidade de perpetuar  e 
garantir 
os direitos imprescritíveis do homem, respeitando a sociedade e os indivíduos''. 
Há os que reduzem o direito às normas garantidas ou criadas pelo Estado, 
esquecendo­se, por exemplo, do direito comercial, que, oriundo das corporaç<*­ 
*>es de 
mercadores, só tardiamente teve sua formulação pelo Estado, bem como a ordem 
constitucional inglesa. Nessa linha, a clássica deftnição é de Ihering: ` `direito é a
soma  das  condiç<*­*>es  da  vida  social,  asseguradas  pelo  poder  do  Estado, 
mediante a 
coerçãr  externa''  \u37e  ou  então  Vanni  (v.  §  196):  `  `direito  é  o  conjunto  de normas 
gerais 
impostas  à  ação  humana  em  suas  relaç<*­*>es  exteriores,  feitas  valer  pela 
autoridade do 
Estado  para  garantir  os  indivíduos  e  a  comunidade  na  consecução  de  suas 
finalida­ 
des''. Acrescentemos as seguintes: ` `direito é o corpo de princípios, reconhecido e 
aplicado  pelo  Estado  na  administração  dajustiça  (Salmond)  \u37e  `  `complexo  de 
normas 
gerais, bilaterais e coativas, impostas pelo Estado aos indivíduos e aos grupos 
sociais,  para  disciplinar  o  poder  de  agir  e  para  assegurar  a  ordem  social'' 
(Groppali)\u37e 
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Introdução ao Estudo do Direito 
` `direito é o complexo de normas gerais de conduta que o Estado faz valer com a 
coação''  (Schlesinger).  Estas,  além  de  outras,  são  definiç<*­*>es  do  direito  de 
juristas 
que se filiaram ao positivismojurídico (v. § 196). 
Não se afastam da posição acima indicada os que, não sendo positivistas 
ortodoxos, consideram a coercibilidade o traço característico