GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
559 pág.

GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


DisciplinaIntrodução ao Direito I88.104 materiais525.200 seguidores
Pré-visualização50 páginas
do direito: ` `conjunto 
de  regras,  imposto  pelo  constrangimento  exterior,  que  rege  as  relaç<*­*>es dos 
homens 
entre si&quot; (Girard)\u37e &quot;regra de conduta que se imp<*­*>e aos homens que vivem em 
sociedade e cujo respeito é assegurado pela autoridade pública&quot; (Paul Roubier)\u37e 
&quot;conjunto de normas impostas e aplicadas em uma sociedade por quem tem 
atribuição e poder para tal sobre as pessoas e as coisas&quot; (Vinogradoff)\u37e &quot;norma 
obrigatória cuja violação dá nascimento a uma sanção predeterminada em sua 
natureza e condiç<*­*>es de aplicação'' (Hubert)\u37e ` `complexo de normas gerais do 
agir 
humano, indispensável ao homem'' (Del Giudice)\u37e ` `conjunto de regras de conduta 
ditadas,  ou,  ao  menos,  recebidas  e  consagradas  pela  sociedade  civil,  sob  a 
sanção da 
coação pública, a fim de estabelecer nas relaç<*­*>es entre os membros do grupo 
uma 
certa ordem'' (Dabin)\u37e ` `norma que, promulgada pelo governo, atribui a quem seria 
lesado por sua violação a faculdade de exigir o seu cumprimento'' (Goffredo Telles 
Júnior).  Mas  é  o  formalista  puro,  Kelsen  (v.  §  §  197  e  200),  quem  nos  dá  a 
clássica: 
ordem coercitiva. 
Ainda nessa linha, com conotaç<*­*>es culturalistas (v. § 198), Miguel Reale:
`  `direito  é  a  ordenação heterônoma, coercível e bilateral­atributiva das  relaç<*­ 
*>es de 
convivência, segundo uma integração normativa de fatos e valores''. 
Fora  dessas  posiç<*­*>es,  desde  que  não  se  pense  com  Kelsen,  que  se 
preocupou 
em encontrar no direito seu próprio fundamento, muitos juristas deram­lhe funda­ 
mento metajurídico. Já vimos algumas defmiç<*­*>es que encontraram na Justiça, 
na 
Razão ou na Natureza o fundamento ou a raiz do direito. Além delas estão âs 
fundadas na Moral. Dão conteúdo ético ao direito. Eis algumas: ` `direito é o 
precipitado histórico da moral'' (Petrone)\u37e ` `direito é a moral tornada estática em 
uma  norma''  (Maggiore)  \u37e  `  `direito  é  o  mínimo  ético''  (Jellinek)  \u37e  `  `direito  é  o 
mínimo 
de  moral  indispensável  para  a  vida  em  sociedade,  imposto  por  sanç<*­*>es 
materiais'' 
(Henri Beer)\u37e &quot;direito é acoordenação ético­imperativa&quot; (Timasheff)\u37e &quot;direito é 
a moral em ação, a moral na medida em que se torna suscetível de coerção&quot; 
(Josserand)\u37e  &quot;direito  é  experiência  ética  de  caráter  atributivo&quot;  (Petrazycki). 
Ecletica­ 
mente, Del Vecchio (v. § § 192 e 197) o define como &quot;coordenamento objetivo das 
aç<*­*>es  possíveis  entre  vários  sujeitos,  segundo  o  princípio  ético  que  o 
detexmina, 
excluindo o impedimento''. Definição formal, desprovida de conteúdo, é a de Kant 
(v. 
§ 197): ` `conjunto de condiç<*­*>es sob as quais o arbítrio de cada um pode se 
harmonizar 
com o arbítrio de todos, segundo uma lei universal de liberdade''. 
Inegavelmente, a coercibilidade tem sido, segundo a grande maioria dos 
juristas, a nota característica do direito. Mas a encontramos também em definiç<*­ 
*>es 
<012> 
62 
Paulo Dourado de Gusmão 
dejuristas  que  se  op<*­*>em  ao  positivismojurídico  (v.  §  196),  como  em  outra 
definição 
do direito de Geny (§ 192), jusnaturalista moderado. Eis como ele define o direito: 
&quot;ordenamento imposto, sob uma sanção social coercitiva, à conduta dos homens 
que vivem em sociedade ''. 
A noção do direito varia conforme pertença ojurista à área do direito codificado 
(direito continental) ou à do direito não codificado (Estados Unidos e Inglaterra). 
No  primeiro  caso,  encontramos  sempre  presente  nelas  o  direito  prescrito  pelo 
Estado,
ou, pelo menos, garantido pelo Estado, enquanto na área do Common Law (v. § 
166) 
o  direito  é  emanado  de  decis<*­*>es  judiciais.  Daí  Holmes,  jurisconsulto  norte­ 
america­ 
no  e Ministro  da Corte Suprema,  tê­lo  definido  como  `  `uma profecia acerca de 
como 
decidirão em realidade os Tribunais'', enquanto para outro jurista norte­americano, 
partidário do &quot;realismo jurídico&quot; (v. § 201), o direito é o que o juiz decide 
(Llewellyn).  A  maioria  dosjuristas  europeus  que  emigraram  para  os  Estados 
Unidos 
sofreu  a  influência  dessa  mentalidade,  como,  por  exemplo,  é  o  caso  dojus­ 
sociólogo 
alemão Kantorowicz, precursor da ` `escola do direito livre'' (v. § 137), que definiu 
o direito como &quot;o corpo de normas sociais que ordenam a conduta externa e que 
são consideradas aptas a serem aplicadas por um órgão judicial em procedimento 
determinado''. 
Em alguns juristas­sociólogos nota­se certo ecletismo, pois, sem abandonar as 
posiç<*­*>es  positivistas,  acabaram  por  dar­lhe  raiz  social.  Nessa  linha  de 
pensamento: 
&quot;direito é o conjunto de regras obrigatórias que determinam as relaç<*­*>es sociais 
segundo a representação que faz a todo momento a consciência coletiva do grupo 
(H. Levy Bruhl)\u37e ` `direito é o imperativo social que atende a necessidade nascida 
da solidariedade natural&quot; (Scelle)\u37e &quot;direito é a forma altamente especializada de 
fiscalização social, em uma sociedade politicamente organizada: fiscalização me­ 
diante a aplicação sistemática e ordenada da força nessa sociedade'' (Pound). 
Além das indicadas, há as que, sendo tão ecléticas, não temos como classifi­ 
cá­las.  A  título  de  exemplo,  apontamos  as  seguintes:  `  `direito  realiza  a  ordem 
social 
na  qual  está  reduzida  ao mínimo  a  possibilidade  de  abuso  de poder,  tanto  por 
parte 
dos particulares, como por parte do governo'' (Bodenheimer)\u37e ` `direito é uma regra 
de vida social, estabelecida pela autoridade competente, tendo em vista a utilidade 
geral  ou  o  bem  comum  do  grupo  e,  em  princípio, munida  de  sanç<*­*>es  para 
assegurar 
sua  efet<*­*>vidade''  (Le  Fur)\u37e  `  `direito  é  o  conjunto  de  regras  sociais 
estabelecidas pela 
autoridade pública e por ela sancionadas&quot; (Duverger)\u37e ` `direito é o ordenamento 
de 
uma comunidade sedentária com poder supremo coativo'' (Sauer)\u37e ` `direito é vida 
humana objetivada, normativa e social&quot; (Recaséns Siches)\u37e &quot;direito é uma forma 
de vida social na qual se realiza um ponto de vista sobre a justiça, que delimita as 
respectivas  esferas  do  lícito  e  do  dever,  mediante  um  sistema  de  legalidade, 
dotado 
de valor autárquico'' (Legaz y Lacambra).
63 
Introdução ao Estudo do Direito 
Finalizando, não deve ser esquecida a de um jurista romano: Ulpiano, que o 
def'miu  pelo  seu  conteúdo  mínimo:  &quot;os  preceitos  do  direito  são:  viver 
honestamente 
, 
não causar dano a ninguém, dar a cada um o que é seu&quot;  (Jurcs praecepta sunt 
haec: 
honeste vivere, alterum non laedere, suum caique trcbuere). 
<012> 
, Jli<028>I '<*­*>hi,t.... . 
DIREITO E MORAL ­ DIREITO, EQ<*­*>IDADE 
E JUSTIÇA ­ DIREITO, NORMAS SOCIAIS 
, 
E LEI FISICA ­ NORMA TÉCNICA 
43. DIREITO E MORAL 
Estabelecido o que entendemos por direito, por direito positivo e por direito 
objetivo,  devemos agora  distingui­lo  da moral. Distinção que só  foi pensada em 
um 
estado mais  evoluído  da Cultura.  Os  egípcios,  os  babilônios,  os  chineses  e  os 
próprios 
gregos  não  distinguem  o  direito  da  moral  e  da  religião.  Para  eles  o  direito  se 
confunde 
com os costumes sociais. Moral, religião e direito são confundidos. Nos códigos 
antigos preceitos jurídicos misturam­se com prescriç<*­*>es morais e religiosas. O 
direito  nesse  tempo  ainda  não  havia  adquirido  autonomia,  talvez  porque,  como 
nota 
Roubier,  `  `nas  sociedades  antigas,  a  severidade  dos  costumes  e  a  coação 
religiosa 
permitiram obter espontaneamente o que o direito só conseguiu mais tarde&quot;, com 
muita coerção.' 
Os próprios romanos, organizadores do direito, definindo­o sob a influência 
da filosofia grega, consideraram­no como ars boni et aequi. Todavia, o gran<*­*>le 
jurisconsulto Paulo, talvez compreendendo a particularidade do direito, sustentou
que non omne quod licet honestum est