GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
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GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


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(o permitido pelo direito nem sempre está 
de 
acordo com a moral). 
Deve­se, sob o império do Iluminismo, a Thomasius, em 1713, cujas idéias 
foram desenvolvidas por Kant, a distinção entre direito e moral. Partindo da 
consideração da coercibilidade como a marca do direito, considerou os deveres 
morais  incoercíveis,  em  contraposição  aosjurídicos,  que  seriam  coercíveis.  Já 
Kant 
atribuiu à moral o julgamento dos motivos, das resoluç<*­*>es, da intenção e da 
consciência, enquanto ao direito, a disciplina da conduta exterior do homem e das 
manifestaç<*­*>es da vontade. Por isso, diz Kant, é o direito coercitivo, enquánto a 
moral, incoercível. Contra Kant, podemos dizer que no direito penal a intenção é 
1 Roubier, Théorie Générale du Droit, Paris, 2' ed., Capítulo I, § 5. 
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Paulo Dourado de Gusmão 
levada  em  conta.  No  direito  civil,  contrato  e  testamento  são  interpretados  em 
função 
da vontade declarada e da  intenção do contratante ou do  testador. No plano da 
Teoria 
Geral  do  Direito,  uma  escola,  `  `escola  de  exegese'',  sustentou  que  na 
interpretação 
da lei deve­se indagar a intenção do legislador. Tais exemplos demonstram que o 
ponto de vista de Kant deve ser acolhido com reservas. 
Todavia, algunsjuristas, como Jellinek, entre outros, definiram o direito como 
o minimo ético. Petrone foi mais além, considerando­o &quot;precipitado histórico da 
moral''. Maggiore, seguindo essa linha, compreendeu­o como a petrificação da 
moral.  Ripert  e  Josserand  também  não  se  afastaram  dessa  posição. Ripert  (La 
Régle 
Morale dans les Obligations Civiles,1925) chega a dizer: ` `entre a regra moral e a 
jurídica  inexiste  diferença  de domínio,  de  natureza e  de  finalidade. E não  pode 
haver, 
prossegue Ripert, por dever o direito realizar a justiça, que é idéia moral. Porém, 
como nota o citado civilista francês, há uma diferença formal: a regra jurídica é a 
regra moral imposta mais energicamente, dotada de sanção exterior, necessária a 
atingir o seu objetivo. Mas, acrescenta Ripert, o direito só pode aperfeiçoar­se se 
continuamente receber a influência da moral, que é a sua origem e lhe serve de 
fundamento''. Timasheff pensa ser o direito a moral imposta pelo poder, enquanto 
J. Freund considera­o resultante da dialética entre política e ética. 
Del Vecchio, por sua vez, além da coercibilidade específica ao direito, indicou
a bilateralidade como elemento que o distingue da moral. O direito enlaça­se com 
deveres, enquanto a moral só imp<*­*>e deveres.2 
Para nós, a coercibilidade e a bilateralidade são, de modo geral, notas especí­ 
ficas  ao  direito.  É  incompatível  com  a  moral  o  constrangimento\u37e  o  dever moral 
deve 
Piaget,  do  ponto  de  vista  psicogenético,  preocupou­se  em  demonstrar  a 
heteronomia tanto da 
norma  moral  como  da  norma  jurídica,  bem  como  o  fato  de  ambas,  em  suas 
origens, pressuporem 
uma autoridade, passando a primeira, gradualmente, da heteronomia para uma ` 
`antonomia'' 
relativa. A criança, diz Piaget, inicialmente como deveres só conhece as instruç<*­ 
*>es de seus pais\u37e 
dessas  instruç<*­*>es  ela  tira  novas  normas  por  generalização  e  aplicação  a 
outras pessoas, &quot;até 
alcançar  uma  interiorização  espiritualizada e autônoma deste conjunto que será 
incessantemente 
trabalhado''.  Na  origem  de  ambas  as  normas  encontra­se  uma  autoridade:  na 
moral, a autoridade 
dos  pais  ou  do  educador,  enquanto  no  direito  a  dos  mais  velhos.  Assim,  a 
coercibilidade não seria 
específica ao direito, pois, em sua origem,  também estaria presente na moral. A 
censura e as 
puni^<*­*>es dos pais às transgress<*­*>es das regras morais por parte dos filhos 
são sanç<*­*>es extemas que 
não  se  distinguem,  por  natureza,  das  do  direito.  Por  tudo  isso,  Piaget  acabou 
considerando ser a 
nota característica da moral a impossibilidade de substituição na relaçâo moral da 
individualidade 
das partes, enquanto na relação jurídica poderia ser substituída, circunstância que 
permitiria a 
generalização da regra e, conseqtientemente, a codificação. A moral seria, assim, 
pessoal, 
enquanto  o  direito,  transpessoal.  O  direito  seria  o  `  `conjunto  de  relaç<*­*>es 
normativas transpessoais 
da sociedade&quot;  (Estudos Sociológicos, Rio, Forense,1973,  trad.,  &quot;As relaç<*­*>es 
entre a moral e o 
direito'', ps.197/231 ). 
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Introdução ao Estudo do Direito
ser  observado  voluntariamente,  enquanto  o  constrangimento  é  essencial  ao 
direito. 
A consciência, a vontade e a intenção em si são incontroláveis juridicamente. A 
sanção jurídica é bem diferente da sanção moral. 
O dever moral não é exigível por ninguém, reduzindo­se a dever de consciên­ 
cia, ao tu deves, enquanto o dever jurídico deve ser observado sob pena de sofrer 
o 
devedor os efeitos da sanção organizada, aplicável pelos órgãos especializados 
da 
sociedade.  Assim,  no  direito,  o  dever  é  exigível,  enquanto  na  moral,  não. 
Entretanto, 
não é só, pois, enquanto o direito é heterônomo, por ser imposto ou garantido pela 
autoridade competente, mesmo contra a vontade de seus destinatários, a moral é 
autônoma, pois é  imposta pela consciência ao homem. Destarte, podemos dizer 
que 
o direito, se não observado voluntariamente, poderá sê­lo pela intervenção dos 
aparelhos  policial  ejudiciário,  o  que  não  ocorre  com  a  moral,  que  exige  a 
observância 
espontânea, voluntária, de seus preceitos. 
O direito, apesar de acolher alguns preceitos morais fundamentais, garantidos 
com sanç<*­*>es eficazes,  aplicáveis  por  órgãos  institucionais,  tem campo mais 
vasto 
que  a  moral,  pois  disciplina  também matéria  técnica  e  econômica  indiferente  à 
moral, 
muitas vezes com ela incompatíveis, como, por exemplo, alguns princípios orienta­ 
dores do direito contratual, fundados no individualismo e no liberalismo, inconci­ 
liáveis com a moral cristã e, portanto, com a moral ocidental. Mas, apesar disso, o 
jurídico  não  está  excluído  dejulgamentos  éticos.  Somente  na  sociedade  pré­ 
letrada 
ou primitiva é que a regra do direito se confunde com a da moral. Porém, nesse 
remoto passado, direito, moral e religião estavam confundidos. Mas mesmo no 
direito  das  altas  civilizaç<*­*>es  há  infiltração  damoral  no  direito.  Infiltração 
constatável 
facilmente no direito privado e no direito penal. Neste, regras morais, como, por 
exemplo,  não  matar,  não  furtar,  respeitar  os  mortos,  os  túmulos,  o  culto  e  os 
símbolfls 
sagrados, são impostas pela norma penal, enquanto no direito privado é no direito 
de família que os deveres e as regras morais estão mais presentes. Mas, também, 
no 
direito  das  obrigaç<*­*>es,  principalmente  nas épocas de  crise,  se  faz sentir  tal 
influência. 
Assim,  regras  jurídicas  que  proíbem  o  enriquecimento  sem  causa\u37e  a  regra  que 
veda 
o ato emulativo, isto é, o exercício do direito só para prejudicar outrem (§ I 52) e o 
abuso do direito  (§ 152)\u37e a que proíbe a  transmissão de mais direito que  tem o 
titular\u37e
a que proíbe causar dano injusto a outrem\u37e bem como a obrigação natural tutelada 
indiretamente pelo direito, isto é, a obrigação não mais exigível pelo credor por ter 
ocorrido  a  prescrição,  bem  como  a  dívida  de  jogo,  são  exemplos  de  deveres 
morais 
tutelados pelo direito obrigacional, porque, não podendo ser exigida no Judiciário a 
observância dessas obrigaç<*­*>es, se espontaneamente pagas,  irrestituível é o 
que for 
pago. No direito público, a obediência à autoridade legítima, alicerce da ordem 
política, tem origem moral. Os princípios fundamentais dajustiça segundo a Civili­ 
zação Ocidental, oriundos dos romanos, neminem laedere (não causar prejuízo a 
ninguém) e suum cuigue tribuere (dar a cada um o que lhe é devido), têm origem 
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