GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
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GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


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Paulo Dourado de Gusmão 
ética. A noção de boa­fé, pressuposta em todas as relaç<*­*>es jurídicas, é, antes 
de ser 
jurídica, noção moral. Portanto, o direito não é indiferente à moral. Apesar de 
distintos, a moral exerce influência sobre o direito. 
Mas nem todas as prescriç<*­*>es morais são tuteladas pelo direito, pois, se o 
fossem, o direito seria a imposição, pelo poder social, da moral de yma época, 
civilização  ou  sociedade.  Muitas  das  prescriç<*­*>es  morais,  que  não  são 
essenciais à 
paz, à segurança e ao convívio sociais, não se encontram no direito. 
Concluindo: o direito é heterônomo, bilateral e coercivel, enquanto a moral, 
autônoma, unilateral e incoercivel. 
44. DIREITO E EQlJIDADE 
Alguns juristas, seguindo a orientação que vem desde Roma, identif'icaram a 
eqüidade com o direito natural. Os romanos tinham sempre presente a aequitas 
naturalis, chegando a afirmar que quod semper bonum et aequum est, jus dicitur 
(O 
direito é sempre o que é bom e eqüitativo). 
Outros compreenderam a eqüidade como noção moral. 
Maggiore (Diritto Penale, T. I) a posicionou nos limites da moral com o 
direito, como forma de possibilitar o retorno do direito (moral petrificada, codifica­ 
da) ao seio de sua verdadeira fonte: a moral histórica. 
Windscheid (Diritto delle Pandette, trad.) pensa ser a eqüidade a adaptação do 
direito  ao  fato,  aproximando­se,  assim,  de  certa  forma,  do  pensamento  de 
Aristóteles 
(Ética), que a vê como &quot;o meio de corrigir a lei' ', aplicando­a comjustiça ao caso 
concreto. 
Outros  entenderam­na  como o  sentimento  dojusto, provocado nojuiz pelo caso 
sub
judice. 
Há quem a identifique com as noç<*­*>es de humanidade, clemência, moderação 
e mitigação. 
Para nós, a eqüidade, que entre os romanos teve grande influência na época 
dos  pretores,  e,  atualmente,  tem  grande  valor  na  Inglatena,  onde  o  Lord 
Chancellor, 
através  dela,  pode  negar  efeito  a  uma  normajurídica,  a  eqüidade,  dizíamos,  é 
ajusta 
aplicação da norma  jurídica geral ao caso concreto que impede a transformação 
do 
su<*­*>nmumjus em swruncc injuria. 
Essa é a eqiiidade secundum leges, que consiste na justa concretização do 
preceito legal, de grande valor na aplicação do direito. 
Ao lado dela está a contra legem, que conflita com o direito positivo, corres­ 
pondendo  aos  novos  ideais  históricos  dajustiça.  Nesse  caso,  a  eqüidade  é  a 
adaptação 
do ideal de justiça de uma época a um caso concreto. Algumas vezes, a eqiiidade 
implica a idéia de humanidade, de clemência e de mitigação. Aí, então, é correto 
entendê­la como fonte do direito. 
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Introdução ao Estudo do Direito 
Tendo em vista essa última acepção, o juiz, ao decidir, padece de um drama 
de consciência muito intenso: terá de decidir de acordo com a lei, julgando contra 
sua consciência, contra seu ideal de justiça, contra o que ele compreende por 
eqizidade  para  o  caso  concreto.  Mas,  nesse  caso,  o  direito  positivo  deve 
prevalecer 
sobre a eqüidade, por assim exigir um de seus fins: a segurança, e uma de suas 
raz<*­*>es 
de ser: a certeza do direito. 
No entanto, no caso de lacuna, quando o juiz não encontra nos prin­ cípios gerais 
do  direito  anorma  aplicável  ao  caso  novo,  a  ele  submetido  ajulgamento,  a 
eqiiidade 
de que se deve socorrer o juiz é a praeter legem correspondente ao ideal histórico 
de justiça, ainda não presente no direito positivo.j 
45. DIREITO E JUSTIÇA 
Têm sido confundidos por filósofos, políticos, literatos e até mesmo por 
juristas: juris nomem ajustitia descendit (o direito deriva seu nome dajustiça). Não 
há por que confundi­los, porquanto o direito é (ou deve ser) o veículo para a 
realização da justiça, que é (ou deve ser) a meta da ordem jurídica. Mas como 
entendê­la? A  idéia  dejustiça  que  nós,  ocidentais,  temos é herdada, em grande 
parte,
de  Platão,  Aristóteles  e  dos  juristas  romanos.  Os  dois  primeiros  deram  dela  o 
sentido 
ético e formal, enquanto os romanos o sentido jurídico e material. A justiça ­ pensa 
Platão  ­ é virtude suprema, harmonizadora das demais vittudes. A harmonia é a 
sua 
nota  fundamental.  Mas  Platão  também  considera­a  como  equilc7irio.  Como 
equilcôrio 
e proporção a def'miu Aristóteles. É clássica a distinção que formulou entre justiça 
distributiva ejustiça corretiva (sinalagmática ou comutativa) em função do critério 
da 
proporção e da igualdade. A primeira, pelo critério da proporção, distribui os bens 
cor­ respondentes ao mérito e às necessidades de cada um, enquanto a justiça 
corretiva  ou  sinalagmcizica,  com  base  no  princípio  de  igualdade,  tomajustas  as 
trocas 
entre as pessoas. A distributiva dependeria do Estado, que pode distribuir bens e 
honras,  levando  em  conta  o mérito  de  cada  um.  Já  a  sinalagmática  preside as 
relaç<*­*>es 
entre os homens, equilibrando­as de modo que cada um receba o que merece, o 
que lhe 
é devido. Esta última subdivide­se em comutativa, em sentido estrito, e judicial. A 
primeira  preside  as  relaç<*­*>es  de  troca,  isto  é,  as  relaç<*­*>es  contratuais, 
enquanto a judicial 
(juiz ou árbitro) aplica a sanção adequada e proporcional ao delito. 
3  A  eqilidade,  além  de  fonte  no Direito  do  Trabalho  e  no Direito  Internacional, 
principalmente nas 
arbitragens  internacionais,  juntamente  com  os  princípios  gerais  do  direito  das 
naç<*­*>es desenvol­ 
vidas,  é  fonte  fundamental  nojuizo  arbitral,  que  soluciona  litígios  sem  a 
intervenção do Judiciário, 
com solução dada por árbitro eleito pelas partes de comum acordo. Essa forma 
de solução de 
litigios tem a rapidez que o procedimento judiciário não pode alcançar. 
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<*­*>o 
Paulo Dourado de Gusmão 
Em síntese, de Aristóteles acolt<*­*>emos duas notas foimais características da 
justiça 
igualdade eproporcionalidade.
Vieram depois os romanos, que, com seu espírito prático, não cogitaram dos 
aspectos  formais  da  justiça,  mas  de  seus  princípios,  de  seu  conteúdo.  É  no 
Digesto 
que  vamos  encontrar  a  definição  romana  dajustiça:  Justitia  est  constans 
etperpetua 
voluntasjus suum cuique tribuendi (justiça é a constante e perpétua vontade de dar 
a 
cada um o que é seu). ` `Dar a cada um o que é seu '', eis a regra fundamental 
da justiça 
dos  romanos,  completada  com  outra,  alterum  non  laedere  (não  causar  dano 
injusto a 
outrem  ou  &quot;a  ninguém  ofendet&quot;).  Eis  os  preceitos  do  direito  justo  romano  que 
serviram 
de  fonte  e  de  manancial  inesgotável  para  as  legislaç<*­*>es  da  Civilização 
Européia. 
Com tais princípios, o Ocidente, através de sua história, criou a sua idéia de 
justiça, formulando, em função de situaç<*­*>es histórico­sociais, um conceito do 
justo, 
que,  variando com a modificação dessas situaç<*­*>es, não se alterou em sua 
substância. 
Resumindo:  justiça  é  igr,<*­*>aldade  de  tratamento  jurídico,  bem  como 
proporciona­ 
lidade da pena ao delito, da indenização ao dano, do preço à coisa vendida, da 
prestação 
à  contraprestação  etc.  Daí  ser  ajustiça:1)  comutativa,  tendo  por  critério  a 
igualdade, 
aplicável  às  relaç<*­*>es  entre  os  indivíduos  (direito  de  fami7ia,  direito  dos 
contratos, 
direito das sociedades comerciais etc.)\u37e 2) distributiva, tendo por critério a propor­ 
cionalidade, que rege o direito penal, a reparação dos danos, o direito ftscal, a 
distribuição de bens ou de encargos etc. 
Mas o Ocidente não se limitou a construir apenas uma teoria da justiça, pois, 
desde os romanos, vem elaborando teorias jurídicas para atender a necessidades 
sociais com o objetivo de legitimar a ordem jurídica dominante (§ 191). Não se 
satisfez, portanto, em formular os elementos componentes da idéia de justiça, por 
ser muito mais