GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
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GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


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ocorrem necessariamente, resultantes das mesmas 
causas, produzindo os mesmos efeitos. Como a lei física é o modo de racionalizar 
o que ocorre na natureza, podemos dizer que a lei física é descoberta, enquanto a
norma jurídica, prescrita. A primeira não admite violação, enquanto a segunda 
admite­a. Korkounov disse: "as normas jurídicas ou éticas podem ser violadas, o 
que  é  impossível  à  lei  em sentido científico", e Ferrara, no mesmo sentido,  `  `a 
norma 
de conduta, ética ou jurídica, caracteriza­se pela sua violabilidade''. Tal não ocorre 
com a lei física. 
Desta forma, temos duas categorias de normas: as que admitem a transgressão 
(jurídica, ética, religiosa, costumes, técnica) e a cuja violação é, cientificamente, 
inconcebível: lei física. 
Entre as normas que admitem transgressão estão as normas técnccas, que, no 
dizer  de  Korkounov,  são  regras  que  indicam  a  maneira  de  agir  para  atingir 
determi­ 
nado  fim,  ou,  analogamente,  como  quer  Ferrara,  instruç<*­*>es  sobre  meios 
idôneos para 
obter certo resultado. São normas das ciências e das artes indispensáveis para 
alcançar determinados resultados. Também as normas jurídicas e as técnicas têm 
finalidades.  Mas  são  os  efeitos  que  decorrem  da  inobservância  das  normas 
técnicas 
que as distinguem das de direito. Estas são acompanhadas de sanç<*­*>es, que 
não têm 
aquelas, que, se inobservadas, nenhuma conseq<*­*>iência sofre o transgressor, 
a não ser 
não  atingir  o  seu  objetivo,  podendo  ter  prejuízo  econômico,  etc.,  enquanto  nas 
regras 
de  direito  a  violação  dá  lugar  à  aplicação  de  uma  sanção  pelo  Judiciário,  e  o 
infrator, 
além de não  atingir  o  fim prático  que  tinha  em vista, sofre uma pena  (perdas e 
danos, 
multa,  prisão  etc.).  Finalmente,  nada  impede  que  a  normajurídica  tenha 
porconteúdo 
norma  técnica,  como,  por  exemplo,  a  disciplina  do  uso  da  energia  nuclear  ou 
Código 
de Limpeza Urbana. 
<012> 
VI
NORMA JURmICA ­ CARACTERES ­ SANÇÃO 
E CLASSIFICAÇÃO ­ DESTINATÁRIOS 
DA NORMA JURÍDICA 
48. NORMA JURÍDICA 
É a proposição normativa inserida em uma fórmulajurídica (lei, regulamen­ 
to, tratado internacional etc.), garantida pelo poder público (direito interno) ou 
pelas organizaç<*­*>es internacionais (direito internacional). Proposição que pode 
disciplinar aç<*­*>es ou atos (regras de conduta), como pode prescrever organiza­
ç<*­*>es,  impostos,  de  forma  coercitiva,  provida  de  sanção.  Temporobjetivo 
principal 
a  ordem  e  a  paz  social  e  internacional.  As  normas  do  direito  das  sociedades 
letradas 
e evoluídas distinguem­se por ser dotadas de generalidade (vide § 50), não tendo 
por  objeto  situaç<*­*>es  concretas  (casos),  enquanto  as  do  direito  arcaico  são 
domi­ 
nadas pelo casuismo, disciplinando casos. As normas jurídicas disciplinadoras 
de conduta são bilaterais, sendo, portanto, a bilateralidade (vide § 49) sua nota 
específica. Geralmente, a suaforma típica é imperativa, geral e abstrata. Comp<*­ 
*>e­se, 
em  sua  maioria,  de  preceito  e  sanção.  Exemplo:  &quot;Aquele  que,  por  ação  ou 
omissão 
voluntária, negligência ou imprudência, violar direito, ou causar prejuízo a 
outrem, fica obrigado a reparar o dano&quot; (art.159 do nosso Código Civil). Nesse 
éxemplo o preceito estabelece as condiç<*­*>es da responsabilidade civil, ou seja, 
da 
sanção,  que  consiste  em  reparar  o  dano.  Na  norma  penal  é  evidente  essa 
estrutura 
, 
pois  consta  de  &quot;preceito&quot;,  que  define  o  crime,  e  de  &quot;sanção&quot;,  que  estabelece a 
pena. 
Exemplo  de  norma  penal  :  &quot;Matar  alguém.  Pena:  Reclusão  de  6  a  20  anos&quot; 
(art.121, 
Código Penal). Já em outras, as sanç<*­*>es podem se encontrar em outra parte 
da lei 
ou em outra lei. Muitas vezes não está a sanção, como no caso do direito interna­ 
cional, prevista em norma escrita, como, por exemplo, bloqueio econômico, 
represália ou guerra.' 
1  O  kantismo  (§  197)  define  a  normajurídica  comojuizo  hipotético.  Em  Kant 
encontramos a origem 
da  distinção  entre  imperativo  categórico  e  imperativo  hipotético.  O  primeiro 
imp<*­*>e dever sem 
qualquer  condição  (norma  moral),  enquanto  o  hipotético  é  condicional.  O 
categótico ordena por 
ser  necessário,  enquanto  no  hipotético  a  conduta  imposta  é meio  para  atingir 
uma finalidade. Assim, 
<012> 
76 
Paulo Dourado de Gusmão 
49. BII.ATERALIDADE E FUNÇ ÃO DA NORMA JURÍDICA
Já vimos que o direito é o sistema de normas jurídicas. Portanto, os caracteres 
do  direito  são  também  das  normasjurídicas.  Fica  desde  logo  esclarecido  que  a 
norma 
jurídica, quando disciplina condutas (norma de conduta), se caracteriza pela bilate­ 
ralidade, ou seja, por enlaçar o direito de uma parte com o dever de outra, isto é, 
por 
disciplinar uma relação social entre duas ou mais pessoas, na qual uma parte tem 
a 
faculdade  de  exigir  a  observância  do  deverjurídico  imposto  pela  norma  à  outra 
parte. 
Mas não é só, pois é também bilateral ao conferir imperium a uma parte e impor 
obediência a outra, como ocorre no direito público. 
Além disso, a norma jurídica prevê uma condição (fato ou ato jurídico) que, 
ocorrendo, forçosamente produzirá um efeito jurídico\u37e exemplificando: maioridade 
(fato) para a obtenção da capacidade plena (§ 153)\u37e ilícito (ato), para a reparação 
do 
dano dele resultante ou aplicação de uma pena etc. 
As características formais, escreve o sociólogo Sorokin, das normas jurídicas, 
que as diferenciam de outras normas, são as seguintes: &quot;independentemente de 
seu 
conteúdo, qualquer norma de conduta (de fazer, não­fazer ou tolerar), que atribua 
um direito determinado a uma parte (sujeito do direito) e certa obrigação a outra 
parte (sujeito da obrigação) é norma jurídica&quot;. Estabelece, portanto, &quot;entre as duas 
partes uma relação bilateral, imperativo­atributiva, definida mediante a indicação 
daquilo que uma das partes se acha autorizada a pretender da outra, e aquilo que 
a 
outra  se  acha  obrigada  a  fazer  para  satisfazer  a  esta  pretensão&quot;  (Sociedad, 
Cultura 
y Personalidad, trad., Cap. IV). Tal é a estrutura bilateral da regra de direito. Nela, 
escreve Gurvitch (Traité de Sociologie, t. II, § 4o), está o caráter multilateral do 
direito: enlaça as pretens<*­*>es de um aos deveres de outro: jus et obligatio sunt 
correlata  (a  todo  direito  corresponde  uma  obrigação).  Tal  característica  é 
específica 
às  regras  jurídicas,  ou  seja,  às  que  sejam  regra  de  conduta,  enquanto  a  regra 
ética 
só imp<*­*>e deveres, da mesma forma que as demais regras sociais. 
A  normajurídica  desempenha  várias  funç<*­*>es,  que  não  devem  ser 
confundidas 
com as finalidades ideais da norma (justiça, segurança etc.), e com os seus fins 
históricos, estes, na dependência de interesses ou de exigências sociais etc., mas 
que 
são  funç<*­*>es  a  ela  inerentes,  motivo  por  que,  como  dissemos  em  nossa 
Filosofia do 
Direito (1994), são funç<*­*>es formais do direito. Ei­las, em linhas gerais, função
no  imperativo  hipotético  é  ela  prescrita  como  condição  para  a  produção  de 
determinado efeito. 
Kelsen  (§§  197  e  200)  retomou  essa  distinção,  considerando  juízo  hipotético  a 
normajurídica por 
depender a sua conseqiiência da ocorrência de uma condição: se ocorrer deve ser 
aplicada uma 
sanção. Daí, Kelsen ter dito que a estrutura da norma jurídica é a seguinte: &quot;em 
detecminadas 
circunstâncias, determinado sujeito deve observar determinada conduta\u37e se não a 
observar, outro 
sujeito, órgão do Estado, deve aplicar ao infrator uma sanção&quot;. 
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Introdução ao Estudo do Direito 
distributiva, pela qual a norma atribui, no direito privado, direitos e obrigaç<*­*>es 
entre 
as  partes,  bem  como  situaç<*­*>es  juridicas  (marido,