GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
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GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


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tratamento excepcional, por interesse público, a um caso. 
Mas pode ser por ato de direito privado, quando, por exemplo, em um clube, o 
estatuto  dá  aos  sócios  fundadores  ou  beneméritos  privilégios  que  não  têm  os 
demais 
sócios. 
61. DIREITO COERCITIVO OU Il<*­*><*­*>OSITIVO E DIREITO 
DISPOSITIVO 
O primeiro, também chamado dejus cogens ou de norma taxativa, é o direito 
obrigatório, inderrogável e não modificável pelas partes nos atos que praticarem. 
Limita  a  autonomia  de  vontade  das  partes,  isto  é,  à  liberdade  contratual.  É 
constituído 
de normas de direito privado (§ 114), tuteladoras de interesse social, que as partes 
não podem alterar, como, por exemplo, as que organizam a famtlia. De norrnas 
taxativas  é  formado  o  direito  público.  Ojus  cogens  compreende  dois  tipos  de 
normas : 
preceptivas  e  proibitivas.  As  primeiras  ordenam  uma  ação,  imp<*­*>em  ato, 
regime 
jurídico, obrigação etc. Exemplo de norma &quot;preceptiva&quot;: casamento de viúvo ou 
viúva que tiver filho do cônjuge falecido, enquanto não fizer inventário dos bens do 
casal e der partilha aos herdeiros, é obrigatoriamente pelo regime da separação 
de 
bens. As proibitivas são as que proíbem determinada ação, determinado ato etc., 
ou 
seja, as que prescrevem omissão ou proibição. Exemplo de norma ` `proibitiva'' : 
não 
podem casar os ascendentes com os descendentes, seja o parentesco natural ou 
civil 
(adoção). Já o direito dispositivo, também denominado direito supletivo ou direito 
ekistico, é o que as partes nos contratos podem alterar, podendo servir, entre<*­*> 
tanto, 
para suprir, integrar ou interpretar a vontade por elas manifestadas no ato, quando 
incompleta, defeituosa ou obscura. Também denominado direito supletivo ou de­ 
clarativo,  deve  ser  aplicado  imperativamente  pelojuiz  no  silêncio  das  partes. 
Assim, 
não se manifestando as partes, a norma dispositiva é aplicável obrigatoriamente, 
como se fosse norma coercitiva. Exemplo desse direito encontramos no direito dos 
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Paulo Dourado de Gusmão 
contratos, em que o legislador disciplina os vários tipos de contrato, admitindo que 
as  partes  possam  dispor  de  forma  diferente,  sendo,  entretanto,  obrigatórias  no 
caso 
de silêncio ou obscuridade dos contratantes. 
Dentre as normas coercitivas se destacam as normas de ordem pública2, que 
têm por objeto instituiç<*­*>es jurídicas fundamentais e tradicionais (familia, por 
exemplo),  bem como as que garantem a segurança das  relaç<*­*>es  jurídicas e 
protegem 
os direitos personalíssimos (nome etc.) e situaç<*­*>es  jurídicas que não podem 
ser 
alteradas pelo juiz ou pelas partes (herdeiro). São normas de ` `ordem pública'' as 
de direito público, as que organizam a farru7ia, as que disciplinam a capacidade, a 
incapacidade, nome, prescrição, nulidade de atos etc. 
As normas se dizem rigidas quando inflexíveis, não permitindo ao juiz 
ampliá­las ou  restringi­las. São normas  rigidas as que estabelecem exceção, as 
que 
restringem direitos  etc. Tais normas,  como dissemos, não podem ser ampliadas 
pelo 
intérprete e nem aplicadas analogicamente. Já as normasfiexiveis permitem ao 
intérprete ou juiz ampliá­las ou restringi­las, quando exigir o caso concreto. 
62. NORMA FUNDAMENTAL, NORMA SECUNDÁRIA 
E NORMA DE VALIDADE DERIVADA 
Eis uma distinção básica aplicável à totalidade das normasjurídicas, que, pelo 
aspecto  formal,  abrange  todas  as  espécies  de  normas.  A  idéia  de 
normafundamental 
(Grundnorm) deve­se a Kelsen (§ § 197 e 200). Pode ser entendida como a norma 
que  é  fonte  da  validade  de  todas  as  demais  normas  jurídicas  de  um 
sistemajurídico. 
É a norma dotada de validez pressuposta, pois,  se não  fosse válida, as demais 
normas 
que dela derivam também não seriam. A Constituição, sendo a fonte de validade 
do 
ordenamento jurídico estatal, é a sua norma fundamental, como a regra pacta sunt 
servanda é a norma fundamental do direito internacional. Pode­se de inir a norma 
fundamental como a que disciplina a cria<*­*>ão de normas juridicas, ou seja, a 
produçãojuridica (criação de normas jurídicas), bem como estabelecem principios 
fundamentais da ordem jurídica. É ela que dá validade às normas criadas com 
observância  das  regras  disciplinadoras  da  criação  do  direito  por  ela  mesma 
estabe­ 
lecidas: A norma fundamental é normaprimária por excelência. Em sentido restrito, 
norma primária é a que estabelece modelo de conduta (lícita ou ilícita), de atos, de
organiz<*­*>ç<*­*>es etc. Neste sentido, direito civil, direito comercial, direito penal 
e direito 
administrativo são constituídos de normas primárias. Já a norma secundária dá os 
2 Como notam Brethe de L,a Gressaye e Iaborde­Lacoste (Introduction Générale à 
I 'Étude du Droit) 
apesar de definição difícil, ordem p Gblica pode ser entendida como a `  `parte 
essencial, fundamen­ 
tal,  da  ordem  social,  necessária  para  manter  a  sociedade:  as  leis  de  ordem 
pública são as bases 
jurídicas da sociedade''. 
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Introdução ao Estudo do Direito 
meiospara  a  eficácia  das  demais  normasjuridicas,  tendo,  geral<*­*>wtente,  por 
destina­ 
tário o Poder Judiciário. Nessa categoria encontram­se as normas processuais e 
as
judiciárias. Tanto as primárias, em sentido amplo (exemplo: emendas constitucio­ 
nais)  como  as  secundárias  têm  validade  derivada,  deconente  da  norma 
fundamental 
(Constituição), desde que formuladas com observância das regras de produção 
jurídica estabelecidas pela norma fundamental (vide, sobre norma fundamental, a 
teoria de Kelsen, § § 197 e 200), isto é, pela própria Constituição e desde que 
compatíveis  com  ela.  Assim,  por  exemplo,  a  validade  de  nosso  Código  Civil 
decorre 
de terem sido observadas, em sua elaboração legislativa, as normas previstas na 
Constituição de 1891, de ter sido promulgado e sancionado (§ 71) por autoridade 
competente, publicado no Diário Oficial e de ainda não ter sido revogado. 
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VIII
LEI CONSTITUCIONAL E LEI ORDINÁRIA­ 
LEI AUTO­APLICÁVEL E LEI REGULAMENTÁVEL­ 
LEI RÍGIDA E LEI ELÁSTICA 
63. LEI CONSTITUCIONAL E LEI ORIlINÁRIA 
Lei constitucional é a que tem por conteúdo matéria constitucional. Entende­ 
se por matéria constitucional, no sentido próprio, a que diz respeito à organização
do Estado e às suas funç<*­*>es. É a que disp<*­*>e sobre a forma de Estado e 
de governo 
e, depois das Revoluç<*­*>es Americana e Francesa, disp<*­*>e sobre os direitos 
do homem. 
Este é o sentido genuíno e específico de lei constitucional. Exemplo de norma 
constitucional no sentido próprio: &quot;Todos os poderes legislativos conferidos por 
esta Constituição serão confiados ao Congresso dos Estados Unidos, composto 
do 
Senado  e  da  Câmara  de  Representantes''  (art.  I,  seção  I,  da  Constituição  dos 
EUA) \u37e 
&quot;A República Federal da Alemanha é um Estado Federal, democrático e social&quot; 
(Constituição  da  República  Federal  da  Alemanha,  isto  é,  Lei  Fundamental,  de 
1959, 
art. 20) e &quot;A Nação Brasileira adota como forma de governo, sob o regir<*­*>e 
representativo, a República Federativa'' (art.1&quot; da Constituição de 1891 ). Exemplo 
de norma constitucional cuja matéria reflete as conquistas das citadas Revoluç<*­ 
*>es: 
`  `A  dignidade  do  homem  é  intangível. Respeitá­la  e  protegê­la  é  obrigação de 
todo 
poder público&quot; (art. 1&quot;, § 1&quot;, da Lei Fundamental alemã)\u37e &quot;Os seguintes direitos 
fundamentais vinculam os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário a título de 
direito diretamente aplicável'' (Constituição citada da Alemanha, art.1&quot;, § 3&quot;) \u37e e ` 
`A
Constituição  assegura  a  brasileiros  e  a  estrangeiros  residentes  no  país  a 
inviolabili­ 
dade  dos  direitos  concernentes  à  liberdade,  à  segurança  individual  e  à 
propriedade'' 
(Constituição brasileira de 1891,