GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
559 pág.

GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


DisciplinaIntrodução ao Direito I88.148 materiais526.258 seguidores
Pré-visualização50 páginas
art. 72). Estabelece a Constituição os poderes do 
Estado  e  as  suas  recíprocas  relaç<*­*>es.  Dita  os  princípios  fundamentais  que 
devém ser 
respeitados pela legislação (leis ordinárias). Prevê a forma de sua própria revisão 
(reforma  constitucional  através  de  emendas  constitucionais)  e  a  forma  de 
elaboração 
das leis (produção jurídica), bem como os limites do poder do Estado em relação 
às
pessoas,  reconhecendo­lhes  direitos  que  pelo  poder  público  devem  ser 
respeitados 
<012> 
94 
Paulo Dourado de Gusmão 
(declaraç<*­*>es  de  direitos),  dando­lhes  meios  de  defender  essas  garantias 
(direito de 
ação). Prescreve os meios para reagir aos abusos do poder público (mandado de
segurança,  habeas  corpus  etc.).  Como  vemos,  vasta  é  a matéria  constitucional 
que, 
com o intervencionismo estatal nb setor econômico, ocorrido desde 1929, após a 
Grande Depressão, se tem ampliado muito. 
Em resumo: a lei constitucional compreende a Constituição e a emenda 
constitucional, que, sem alterar substancialmente a Constituição, a reforma. 
Mas em função dos tipos de Constituição (vide § 69) varia a conceituação de 
lei constitucional. Sendo a Constituição rigida, alterável somente por leis observa­ 
doras de um procedimento especial (quorum especial etc.), não exigido para as 
demais leis, a lei constitucional caracteriza­se, príncipalmente, pelaforma, sendo, 
nesse  caso,  constitucional  somente  a  que  observar  tal  procedimento.  No  caso 
desse 
tipo de Constituição, a forma, ou seja, a observância de procedimento especial 
previsto  na  Constituição  para  a  sua  revisão,  transforma  qualquer  matéria  em 
matéria 
constitucional,  mesmo  que  por  natureza  não  seja.  Mas  se  a  Constituição 
forflexivel, 
é  emendável  por  lei ordinária. Nesse caso, a  lei  constitucional caracterizar­se­á 
pela 
matéria, sendo constitucional a que contiver matéria constitucional. A Constituição 
brasileira é do tipo rígido, caracterizando­se, assim, entre nós, a lei constitucional 
pelaforma e pela matéria. 
Na hierarquia das leis, entre a norma constitucional e a lei ordinária temos a 
lei complementar, que, não inovando matéria constitucional, complementa a Cons­ 
tituição, sem ferir preceito constitucional\u37e se o fizer, é inconstitucional. Está para a 
Constituição como o regulamento (vide § 72) para a lei (§ 71). Exige a lei comple­ 
mentar procedimento legislativo especial. 
Há lei constitucional fiirulamental ou primária, isto é, a Constituição, e lei 
constitucional secundciria, ou seja, emendas constitucionais. 
As demais leis são leis ordinárias, quer disponham sobre matéria de direito 
público, como o Código Penal, o Código de Processo Civil, quer sobre direito 
privado, como o Código Civil. 
64. LEI AUTO­APLICÁVEL E LEI REGULAMENTÁVEL 
As leis podem ser, também, auto­aplicáveis (selfexecuting), quando não 
dependem  de  regulamentação  por  outra  lei  ou  por  regulamento.  São  as  leis 
imedia­ 
tamente  <*­*>plicáveis,  independentemente  de  qualquer  ato  legislativo  ou 
regulamentar. 
Assim, por exemplo, qualquer norma do Código Civil ou a maioria do Código Penal 
é auto­aplicável. Há leis (constitucionais ou ordinárias), porém, que dependem de 
regulamentação, que não são auto­aplicáveis, supondo ato legislativo (lei ordinária 
ou  regulamento)  que  a  torne  executável,  dando  as  condiç<*­*>es  de  sua 
aplicação. É o 
caso da lei regulamentável, que depende, para sua aplicação, de regulamentação.
Nesses  cas<*­*>s,  a  lei  (regulamentável)  enuncia  somente um princípio ou uma 
regra 
95 
Introdução ao Estudo do Direito 
muito ampla, que necessita de critérios para ser aplicada. A dependência de 
regulamentação pode ser prevista pelo próprio legislador, quando, depois de pres­ 
crever  a  regra,  disp<*­*>e  expressamente:  `  `na  forma  que  a  lei  regular&quot;,  ou 
decorre da 
própria  natureza  da  matéria.  Outras  normas  não  são  auto­aplicáveis  por 
dependerem 
de fatos ou de ocorrência de certas condiç<*­*>es de fato. Assim, a norma penal 
que 
determinar  o  cumprimento  de  medida  de  segurança  em  colônia  agrícola  dela 
depende 
para ser aplicável. 
65. LEI RÍGIDA E LEI ELÁSTICA 
No terreno das normas jurídicas, é lícito distinguir as normas rígidas das 
elásticas ou flexíveis. As primeiras não admitem modificação por parte do juiz. É, 
portanto, lei imutável. Não dão, pois, margem ao arbítrio judicial: dura lex sed lex. 
Quando a lei diz, por exemplo, que o prazo para anulação do casamento é de dois 
anos a partir da data da celebração do mesmo, estabelece norma rigida, pois o 
juiz 
não pode dilatá­lo ou restringi­lo. Não admitem tais normas outra solução jurídica 
além  da  que  prescreve.  Já  a  normaflexivel  ou  elástica  dá  margem  ao  arbítrio 
judicial. 
Não são preceitos firmes. Como bem observa Ferrara (Trattato di Dirctto Civile 
Italiano), a aplicação da norma flexível depende de como o juiz entende o caso a 
ser 
julgado, que, em função de sua naturezajurídica, poderá ser ou não por ela regido. 
A maioria das normas jurídicas que dizem respeito à proteção de filhos menores 
não 
são normas rígidas, mas flexíveis, porquanto o juiz, no interesse do menor, pode 
decidir  de  forma  contrária  ao nelas  prescrito. Assim,  por  exemplo,  existe norma 
que 
dá, no caso de filho havido fora do casamento, a posse do mesmo ao progenitor 
c<*­*>ue 
o reconhecer\u37e tal norma é flexível, porquanto o interesse do menor pode exigir 
entregá­lo até, por exemplo, a terceiro. Igual solução pode ser dada a filho oriundo
do  casamento,  por  ser  sempre o  interesse do menor que dita a solução. Nesse 
campo, 
o direito disp<*­*>e, muitas vezes, que,  &quot;havendo motivos graves, poderá o  juiz, 
em 
qualquer caso, a bem dos filhos, regular, por maneira diferente da estabelecida'', a 
situação deles para com os pais. Eis norma que torna flexíveis todas as que dizem 
respeito à posse e guarda de  filhos de menoridade.  Igualmente  flexíveis são as 
que 
contêm conceitos elásticos que podem sofrer, como nota Ferrara, a ` `influência da 
vida  social''.  Tal  ocorre  quando  o  legislador  faz  referência  à  `  `boa­fé'',  à  ` 
`diligência 
habitual&quot;, ou aos &quot;bons costumes&quot;, que são conceitos elásticos. São essas expres­ 
s<*­*>es,  além  de  outras  usadas  pelo  legislador,  no  dizer  de  Ferrara,  ` 
`essencialmente 
mutáveis'  'que  podem  receber,  ao  ser  interpretadas  pelo  juiz,  no  tempo  e  no 
espaço 
, 
conteúdos diversos. Através delas, salienta Ferrara, &quot;penetra no direito todo o ar 
oxigenado da vida moderna'' (Ferrara, obra citada). Como vemos, a norma flexível 
quebra a rigidez do direito. 
<012> 
IX 
FONTES MATERIAIS E FONTES FORMAIS 
DO DIREITO ­ MATÉRIA DAS REGRAS DE DIREITO 
66. FONTES MATERIA1S. MATÉRIA DO DIREITO 
O direito tem suasfontes materiais e suasfontesformais.i É comum confun­ 
di­las, apesar de bem diferentes. No sentido próprio de fontes,2 as únicas fontes 
do 
direito são as materiais, pois fonte, como metáfora, significa de onde o direito 
provém.  Ora,  são  as  materiais  (fatos  econômicos,  fatos  sociais,  problemas 
demográ­ 
ficos, clima etc.) que dão o conteúdo das normasjurídicas, e não as formais, que 
dão 
as formas de que se revestem as primeiras, (Iei, costume etc.). 
Deve­se distinguirfonte de cognição dafonte de produfãojuridica. Pode­se entender 
a primeira 
como  os  meios  de  conhecimento  do  direito.  Nesse  sentido,  confunde­se  com 
asfontesformais 
(§  67).  Porém,  porfonte  de  cognição  pode­se  compreender  também  as  várias 
matérias de que o
legislador se serve para dar conteúdo às normas por ele formuladas, em função 
das quais pode­se 
ter  o  conhecimento mais  exato  das mesmas. Nesse  último  sentido,  identifica­se 
com fonte 
material. Jáfonte de produçâo é a