GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
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GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


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norma ou conjunto de normas que dão o modo 
(re<*­*>as) de 
criação  de  normas  jurfdicas  (Constituição,  lei,  regulamento  etc.).  Temos,  nesse 
caso, fonte de 
produção  fundamental  ou  primnria,  que  prescreve  a  forma  de  elaboração  de 
noimas jurídicas, 
contida na Constituição, e fontes de produção subordinadas ou secw<*­*>dárias, 
produzidas com 
observância  daquela  peis,  regulamentos  etc.).  O  Código  de  Processo  é  fonte 
desse último tipo em 
relação à sentença. As fontes de produção sãofontesformais (§ 67). Há quem faça 
distinção entre 
fonte de qualificação e de conhecimento, dando a primeira juridicidade e validade 
às demais 
normas, enquanto a segunda estabelece as formas pelas quais pode­se conhecer 
o direito (lei, 
costume, regulamento,  tratado etc.). Finalmente,  temos  também quem reduza as 
fontes à autori­ 
dade qualificada competente para prescrever normas jurídicas. 
Fonte do direito, que Gurvitch (Théorie Pluraliste des Sources Du Droit Positi<*­*> 
considera o 
problema crucial de toda reílexão jurldica, é uma metáfora tradicionalmente usada 
na ciência do 
direito, podendo, como metáfora,  ser entendida, como diz Horvath (Les Sources 
du Droit Positif, 
trad. publicada na Revista de Direito do MPGB, vol. 9), &quot;por extensão do termo, as 
imediaç<*­*>es 
do ponto de emergência de um curso d'água natural, o  lugar onde ele passa de 
invisível a visível, 
onde sobe do subsolo à superfície'', ou seja, a  forma que o pré jurídico toma no 
momento em que 
setornajurídico. 
<012> 
9g 
Paulo Dourado de Gusmão 
Dito isso, passemos à primeira questão: que se deve entender porfontes 
materiaisdo  direito?  São  as  constituídas  por  fenômenos  sociais  e  por  dados 
extraídos
da  realidade  social,  das  tradiç<*­*>es e  dos  ideais  dominantes,  com as  quais o 
legislador, 
resolvendo  quest<*­*>es  que  dele  exigem  solução,  dá  conteúdo  ou matéria  às 
regras 
jurídicas, isto é, às fontes formais do direito (lei, regulamento etc.). ' 
Tais fontes se confundem com os fatores sociais do direito e, poitanto, com a 
realidade histórico­social. Quais são eles? São de várias espécies, dentre os quais 
destacamos o econômico, o geográfico, moral, religioso, técnico, histórico e até o 
ideal predominante em uma época (valores). 
No que concerne ao fator econômico, a sua influência é enorme no direito 
privado, principalmente no direito comercial, no direito dos contratos e no direito 
de  propriedade.  Ao  escrevermos  isto  não  estamos  acolhendo  o  determinismo 
econô­ 
mico do século XIX, mas, sim, dizendo que há campos do direito em que se faz 
mais 
sentir  a  influência  de  um  dos  fatores.  Ripert  demonstrou  a  influência  da  regra 
moral 
nos contratos e no exercício do direito de propriedade, em que maior é o impacto 
do 
econômico. Para evidenciar a influência do fator econômico, lembraremos dois 
exemplos: em 1929 deu­se, em Nova lorque, o crack da Bolsa de Valores, inician­ 
do­se o fenômeno conhecido por ` `Grande Depressão'', causando pânico em todo 
o  mundo,  falências  de  bancos,  de  indústrias  e  de  fazendeiros.  Resultado: 
intervenção 
do Estado no campo econômico, leis limitando preços, limitando a liberdade 
contratual e o exercício do direito de propriedade. Outro exemplo: a Revolução 
Industrial,  criando  novas  riquezas  e  o  declínio  das  que  se  fundavam  na 
propriedade 
de terras, fez com que fossem suprimidos os privilégios dos proprietários rurais. 
Se o fator econômico é preponderante no direito de propriedade, no de crédito, 
no contratual, no mercantil ou no industrial, bem como no direito fiscal, osfatores 
religiosos e morais são relevantes no direito de farzu'lia. Quem pode negar a 
influência da moral cristã no direito de farrulia? Basta lembrar a indissolubilidade 
do vínculo conjugal, que impede o divórcio, proveniente do catolicismo, que 
prevaleceu  entre  nós  até  1977.  Ripert  nos  lembra  a  origem  moral  de  certas 
normas 
do direito moderno, como, por exemplo, o ` `dever de não fazer mal injustamente a 
outros'', fundamento do princípio de responsabilidade civil\u37e o dever de não enrique­ 
cer à custa dos outros, origem da ação de enriquecimento sem causa etc. Planiol, 
Ripert e Rouast (Traité Pratique de Droit Civi<*­*> fazem depender a organização 
familia<*­*> de uma moral rigorosa. 
O fator moral está, de certa forma, ligado à religião. Difícil seria, pode­se dizer 
mesmo impossível, separar­se a moral dominante no Ocidente do cristianismo. 
Posso  lembrar  um  exemplo:  na  Síria  predomina  o  islamismo.  Entretanto,  em 
matéria 
de familia o direito sírio admite que as comunidades religiosas sejam regidas pelos 
seus direitos canônicos. Pillet (Traité Pratique de Droit International Privé) e René
David (Traité Élémentaire de Droit Civil Compare<*­*>, estudando essa questão, 
sus­ 
99 
I<*­*>trodução ao Estudo do Direito 
tentam  não  ser  aplicável,  em matéria  de  facmlia,  aos  cristãos  lá  domiciliados  o 
direito 
muçulmano, profundamente influenciado pela religião islâmica. 
No direito arcaico, ou melhor, até Roma, é difícil nos códigos e nos direitos 
antigos distinguir o direito da religião e da moral. O antigo direito judaico é direito 
religioso. O próprio direito romano, sistemajurídico laico, secular, ao ser acolhido 
pela 
Civilização Européia, na Idade Média, sofreu a influência do cristianismo, sendo 
modificado nas partes que se referem a casamento, divórcio, filiação etc. 
Pode­se dizer, para concluir, que no direito arcaico a religião desempenha papel 
relevante na criação do direito. Daí Fustel de Coulanges (A Cidade Antiga, trad.) 
ter 
dito que o verdadeiro legislador entre os antigos não foi o homem, mas as suas 
crenças religiosas. Na sociedade desenvolvida, em que o direito está secularizado 
pelo que Ripert (Le Régime Democratique et le Droit Civil Moderne) denomina de 
principe de laicité, foi a religião substituída pela moral, que, nas épocas de crise, 
influi na elaboração, na interpretação e na aplicação do direito. Exemplo: no Brasil, 
o impeachment do Presidente Collor e nos Estados Unidos, o de Nixon. 
Se o direito sofre a influência da moral, da religião e da economia, além da 
pressão defatorespoliticos, como negar a influência das ideologias no direito? No 
direito público, principalmente no direito constitucional, são decisivas. A ideologia 
do absolutismo e a do feudalismo foram as responsáveis pelo Ancien Régime, que 
caiu  com  a  Revolução  Francesa\u37e  a  do  socialismo  estruturou  todo  o  direito 
soviético, 
não só o direito público como também o Código Civil soviético, derrogado depois 
de dezembro de 1991. O liberalismo deixou a sua marca nos direitos contratual e 
de 
propriedade do Code de Napoléon (Código Civil francês até hoje em vigor). Por 
outro lado, no direito público, a Revolução Francesa foi que impôs legislativamente 
a igualdade civil, a lei como vontade gerat, isto é, da maioria, sendo postos abaixo 
os privilégios da aristocracia. Entre nós, o nacionalismo exerceu influência rta 
legislação que disciplina o capital estrangeiro aqui aplicado. Finalmente, a demo­ 
cracia no Ocidente  tem sido, no direito constitucional, a nota dominante, apesar 
de, 
transitoriamente,  dela  se  desviarem  algumas  Constituiç<*­*>es.  Por  outro  lado, 
não se 
pode  negar  que  as  revoluç<*­*>es  (§  29), movimentos  políticos  por  excelência, 
sejam 
fontes de direito, sendo dotadas de poder constituinte, como, por exemplo, foram a
Americana, a Francesa e a Russa. Igualmente as contra­ revoluç<*­*>es. 
Não estaria completo esse relato de fontes se nos esquecêssemos dos ideais ou 
valores jurídicos, como a justiça, a paz e a segurança. Eis alguns: o principio de 
legalidade, que em direito penal impede a aplicação da lei nova mais prejudicial ao 
réu  e  no  direito  público,