GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
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GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


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tadas pelo Governo e pelo Congresso, podem criar insegurança para as relaç<*­ 
*>es e 
situaç<*­*>es  jurídicas  criadas  pela  medida  provisória,  tornando  mais  grave  a 
situação 
de fato que a exigiu. 
Enfim, o Estado moderno, não podendo omitir­se em face de imprevisível, 
grave e extraordinária situação a exigir urgente medida jurídica, sob pena de 
fugir­lhe o controle da mesma, tem o dever de legislar, sob o controle imediato do
Congresso. Nesse caso, edita decreto­lei (§ 73) ou medida provisória. 
<012> 
<*­*><*­*>ASl<*­*><*­*> ..i. <*­*>. 
<*­*>l <*­*>7.: .I. 
j<*­*>. . , 
<*­*> <*­*><*­*><*­*>: 
<*­*> <*­*> . 
XI
DIREITO CONSUETUDINÁRIO ­ VALOR E PROVA 
DO COSTUME ­ EVOLUÇÃO DO COSTUME 
75. NOÇÃO, ELEMENTOS E TIPOS 
O costume jurídico ou direito consuetudinário' é a fonte mais antiga do direito. 
Os próprios códigos da Antigüidade, como o de Hamurabi ou a Lei das XII Tábuas, 
nada  mais  eram  do  que  compilação  de  costumes  tradicionais.  Na  sociedade 
arcaica 
era a única fonte do direito, isto por ser desconhecida a escrita. Mas, mesmo nas 
sociedades letradas da Antigüidade, o direito legislado demorou muito a aparecer. 
Não estando enunciado em um texto, não é de fácil conhecimento, formando­se 
lentamente, não tendo vigência subitamente, como no caso do decreto­lei (§ 73), 
pois  se  forma  lentamente,  depois  de uma  repetição  ininterrupta de condutas ou 
atos 
semelhantes,  salvo  quando provém de uma decisão  judicial,  caso em que pode 
ser 
estabelecida a sua origem. Forma­se sem a intervenção do Estado, ou seja, do 
legislador. Surge de maneira lenta e espontânea, emergindo dos fatos, isto é, de 
condutas sociais reiteradas por largo tempo. 
Talvez seja o costume a única regra jurídica que p<*­*>e à prova a tese de Kant 
de
que do ` ` ser'' (fato) não pode surgir o ` `dever­ser'' (norma), pois, de certa forma, 
como notou Jellinek, dos fatos repetidos surgem os costumes, ou seja, a norma 
(doutrina dafor<*­*>a normativa dosfatos). 
O costume, ou seja, o direito não­escrito, pode ser definido como a regra de 
conduta  usualmente  respeitada  em  um  meio  social  por  ser  considerada 
juridicamente 
obrigatória  oujuridicamert<*­*>e  necessária.  É  a  forma  usual  de  agir 
reputadajuridicamente 
obri<*­*>atória.  Brethe  de  la  G<*­*>r\u160ssaye  e  Marcel  Larborde­Lacoste 
(Introduction Générale 
à I'Étude dtt Droit) o definem como o usojuridicamente obrigatório.z 
1  Direito  consuetudinnrio  é  o  direito  costumeiro,  não­escrito,  usual. 
&quot;Consuetudinário&quot; vem da 
palavra latina consuetudine, que significa costume. 
2 A  respeito do  fundamento do costume variam as  teorias:  funda­se na vontade 
tácita do povo 
(Puchta, Savigny)\u37e na convicção ou crença de sua obrigatoriedade (Zittelmann, 
Haesaert e a 
doutrina  tradicional)\u37e  no  reconhecimentojudicial  (Austin,  Kantorowicz,  Lambert, 
Ross) etc. 
<012> 
116 
Paulo Dourado de Gusmão 
Os elementos do costume, segundo Bobbio ( ` `Consuetudine'' na Enciclopedia 
del Diritto), são os seguintes:1&quot;, generalidade (deve ser o comportamento ou o ato 
repetido por  razoável número de pessoas de modo a evidenciar a existência de 
uma 
regra social em um meio social, comercial ou proftssional)\u37e 2&quot;, uniformidade (deve 
ser repetido de forma semelhante ou idêntica)\u37e 3&quot;, continuidade (deve ser repetido 
ininterruptamente)\u37e 4&quot;, durabilidade (deve viger por largo espaço de tempo apto a 
criar a crença em sua obrigatoriedade, ou seja, a demonstrar ser de uso enraizado 
em um meio social, comercial ou profissional) \u37e 5&quot;, publicidade ou notoriedade (não 
deve  ser  secreto,  mas  conhecido  por  todos).  Antiga  doutrina  reduzia  esses 
elementos 
a dois:1&quot;, elemento objetivo ou material ­ observância de uma praxe ou de conduta 
usual  pela  generalidade  das  pessoas  interessadas  em  seus  efeitos, 
ininterruptamente, 
por largo tempo (longi temporis praescriptio) \u37e 2&quot;, elemento subjetivo ­ convicção 
de sua obrigatoriedade jurídica (opinio iuris) e de sua necessidade jurídica (opinio 
necessitatis). 
O que distingue o costume dos usos é a convicção de sua obrigatoriedade e
necessidade jurídica (opinio iuris et necessitatcs), ou seja, a convicção de que 
determinada regra costumeira éjurídica, obrigatória e necessária. Temos, portanto, 
no costume a repetição constante,  ininterrupta, por  largo  tempo de uma conduta 
ou 
de um ato, que gera a convicção jurídica de sua obrigatoriedade para os negócios, 
para  a  convivência  social  etc.  Em  se  formando  essa  convicção,  opera­se  à 
transfor­ 
mação em costume jurídico. 
O direito consuetudinário caracteriza­se por ser em sua origem direito não­es­ 
crito, o que não impede a sua compilação (§ 84) depois de enraizado. Sem falar 
dos 
códigos  da  Antigüidade,  que,  como  dissemos,  são  compilaç<*­*>es,  pode­se 
apontar 
como as mais antigas compilaç<*­*>es os Consuetudines de Gênova (1056) e o 
Consti­ 
tutum usus (1161) de Pisa\u37e que deram origem ao direito comercial (§ 118). Mas a 
compilação, seja of'icial ou obra de juristas, não tem força de lei, só servindo para 
dar certeza e publicidade ao costume. Assim, a parte pode provar em juízo estar 
em 
desuso o costume compilado, que, não mais séndo obrigatório, é  inaplicável ao 
caso 
subjudice. 
O costume tem vantagens e desvantagens. Corresponde melhor à realidade 
social e ao sentimento de justiça da coletividade. Modifica­se com a mudança do 
contexto social, atendendo­o mais rapidamente do que o legislador. Acompanha, 
portant<*­*>, mais de perto as transformaç<*­*>es sociais do que a lei. Porém, não 
estando 
contido em um texto, é de conhecimento difícil. Daí depender de prova e daí a sua 
incerteza. 
Aforça  obrigatória  do  costume  decorre  da  crença  de  sua  obrigatoriedade, 
resultante 
de  sua  observância  por  longo  tempo  em  um  grupo  social.  Em  razão  disso 
proporciona 
certeza e segurança aos negócios  jurídicos. Segtuança que cria com o  tempo a 
convicção 
da necessidade e utilidade do costume. 
117 
Introdução ao Fstudo do Direito 
Pode ser o costume:1&quot;, secundum legem, ou costume interpretativo, que dá a 
usual  interpretação  de  uma  lei\u37e  2&quot;,  praeter  legem,  que  supre  a  lacuna  da  lei, 
dispondo 
sobre matéria não disciplinada por ela\u37e 3&quot;, contra legem, que estabelece norma 
contrária à estabelecida pela lei, ou que torna usual a não­aplicação de uma lei
(desuso). O costume contrário à lei, no sistema em que a lei é a fonte principal do 
direito, não temjuridicamente validade. 
Tem, em nossa época, o costume certa limitação em sua eficácia nos países 
em que prevalece o direito codificado. Nesses países ­ como no Brasil ­ o costume 
é considerado fonte subsidiária do direito, só aplicável quando a lei permitir. 
Portanto,  onde  domina  o  direito  codiftcado,  o  costume,  sendo  fonte  subsidiária, 
tem 
eftcácia subordinada à lei, admitindo­se somente os costumes secundum legem e 
praeter legem. 
Mas o costume não tem o mesmo valor em todos os ramos do direito. Se no 
direito comercial desempenha relevante papel, no direito civil tem valor mais 
restrito. No direito penal, no regime democrático­liberal, em que predomina o 
princípio de legalidade (só há crime definido em lei), não tem aplicação. No direito 
público,  principalmente  no  direito  constitucional  e  no  direito  internacional,  tem 
larga 
aplicação. Mas, para que se forme o costume constitucional, é necessário que a 
ordem  constitucional  tenha  certa  estabilidade,  não  sofrendo  modificaç<*­*>es 
constan­ 
tes. No direito internacional público é a principal fonte, ao lado do princípio pacta 
suntservanda. 
Cessa a vigência do costume com o desuso ou com a regulamentação de sua 
matériapor lei. 
Do costume se distinguem os usos, destituídos de obrigatoriedade, apesar de 
úteis.  Podem