GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
559 pág.

GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


DisciplinaIntrodução ao Direito I88.161 materiais526.814 seguidores
Pré-visualização50 páginas
conceitos e normas 
oriundos do direito social, como a teoria do abuso do direito, a responsabilidade 
civil 
objetiva e a revisão judicial dos contratos, ou, então, a jurisprudência dos pretores 
romanos da qual resultou o direito romano\u37e a jurisprudência, dizíamos, apresenta 
desvantagens, devendo ser admitida, com certas reservas, como fonte do direito. 
Não há dúvida de que espelha o direito vivo, traçando novos rumos para o direito, 
colaborando  para  atualizar  o  direito  quando  o  legislador  primar  pela  ausência. 
Tudo 
isto é verdade, mas daí não se deve concluir ser ela superior às demais fontes. 
Principalmente porque, como nota Roubier (Théorie Générale du Droit), a jurispru­ 
dência tem o seu lado fraco "que reside na circunstância de que a regra de direito 
125 
Introdução ao Estudo do Direito 
por ela estabelecida não se estende sobre toda uma questão, s"não, somente, em 
virtude de ser ditada para um caso individual, sobre um ponto particular\u37e por isso, 
freqüentemente,  são  necessárias  numerosas  decis<*­*>es  para  chegar  a  um 
conjunto 
coerente, sobre o qual o direito esteja def'inido&quot;. &quot;Entretanto&quot;, prossegue Roubier, 
&quot;a  competência  técnica  e  a  imparcialidade  dos  juízes  são  garantia  de  primeira 
ordem
do valor de regra&quot;. 
Finalmente, a jurisprudência, para ser conhecida, deve ser divulgada, pois do 
contrário fica perdida nos processos. No Brasil, a jurisprudência da Justiça Federal 
é  divulgada  no  Diário  Oficial,  bem  como  em  revistas  especializadas,  dentre  as 
quais 
devem ser citadas a Revista Trimestral de Jurisprudência do Supremo Tribunal 
Federa<*­*>  a  Revista  do  Superior  Tribunal  de  Justiça,  a  Revista  Forense,  a 
Revista dos 
Tribunais, as revistas de jurisprudência dos tribunais estaduais etc. Na Inglaterra e 
nos  Estados  Unidos  é  conhecida  e  divulgada  através  de  reports,  isto  é,  de 
coleç<*­*>es 
de julgados. Advogados e juízes fundam­se na jurisprudência publicada nos reper­ 
tórios especializados. Arrazoados, sentenças e acórdãos dostribunais transcrevem 
ou citam decis<*­*>es anteriores. É comum, sendo até previsto em lei,  recursos, 
como o 
recurso especial, para o Superior Tribunal de Justiça, e o recurso extraordinário, 
para o Supremo Tribunal Federal, motivados pela inobservância da jurisprudência 
predominante  nesses  tribunais. Portanto,  ajurisprudência  é,  na  verdade,  a  fonte 
viva 
do direito. O mais, mistiftcação. z 
81. DOUTRINA 
É o conjunto de idéias enunciadas nas obras dos jurisconsultos sobre determi­ 
nadas matérias jurídicas. Pode ser definida, commais singeleza, como a opiniãd 
comum dos jurisconsultos sobre determinada questão juridica. Adquiriu força de 
fonte do direito em Roma com a opinião dos jurisconsultos clássicos (prudentes ou 
jurisprudentes) manifestada nas respostas às consultas (responsa) a eles feitas. 
Inicialmente, como ensina Declareuil (Roma y la Organización del Derecho, trad.), 
os  prudentes  faziam  obra  literária,  devendo  à  sua  cultura  e  ao  seu  prestígio 
pessoal 
a  influência  que  exerceram  sobre  a  formação  do  direito.  Depois,  Augusto 
(princeps) 
concedeu a alguns deles o jus publice respondendi ex auctoritate princeps, isto é, 
&quot;o direito de dar consultas escritas e seladas, cuja solução se impunha ao juiz no 
processo  originador  da  consulta,  salvo  se  as  partes  tivessem  obtido  consultas 
contrárias 
2  Consultar  entre  nós  o  trabalho  de  Oscar  Tenbrio:  &quot;A  Formação  Judicial  do 
Direito&quot;, in Revista 
de  Jarisprudência do TJEG, n&quot; 9,1965, e o de Femando Pinto,  Jurisprudência, 
fontefownal do 
direito, Rio de Janeiro,1971, bem como o capítulo &quot;O Direito, a Lei e o Juiz&quot; do 
nosso livro 
Filosofia do Direito, Forense,1994.
<012> 
126 
Paulo Dourado de Gusmão 
no mesmo negócio&quot;. Foi assim reconhecida a autoridade de declarar o direito aos 
jurisconsultos Papiniano, Paulo, LTlpiano, Gaio e Modestino.3 
A opinião desses juristas, em regra, consiste em comentários do direito vigente 
em Roma. Entretanto, não se furtaram eles, em certos casos que fugiam da rotina, 
de  introduzir princípios novos, ditados pelas necessidades práticas ou sugeridos 
pela 
experiência,  ao  buscarem  as  raz<*­*>es  profundas  das  quest<*­*>es  a  eles 
submetidas. Na 
Idade  Média,  quando  os  &quot;doutores&quot;  estavam  de  acordo  sobre  unta  questão 
juridica, 
a doutrina tinha grande autoridade (communis opinio doctorum). 
Tiveram os jurisconsultos, como dissemos, grande importância no período 
clássico do direito romano, bem como na Idade Média, quando foi introduzido o 
direito romano na Europa por obra dos juristas medievais com base na opinião dos 
citados jurisconsultos romanos. Pode­se dizer ser o direito comum dominante na 
Alemanha até 1900, isto é, até a entrada em vigor do Código Civil alemão, obra da 
doutrina. 
Depois das codificaç<*­*>es, a doutrina foi, como fonte autorizada, colocada à 
margem,  tornando­se  os  códigos  as  fontes  únicas  do  direito.  Desde  então,  o 
legisla­ 
dor  dominou  a  cena,  pelo  menos  até  os  anos  20,  quando  reapareceu  o 
jurisconsulto, 
respeitado  pelo  seu  saberjurídico,  fazendo  renascer  a  doutrina  como  fonte  do 
direito, 
porque os códigos estavam envelhecidos, não correspondendo mais às condiç<*­ 
*>es 
sociais e econômicas do começo do século. 
A doutrina não é, segundo a opinião dominante, em nossa época, fonte imediata 
do direito, pois não tem o jurista mais jus respondendi\u37e só indiretamente contribui 
para a formação do direito, não só sugerindo reformas legislativas, como, também, 
dando interpretação autorizada do direito vigente. 
Se,  porém,  teoricamente,  essa  é  a  posição  da  doutrina  em  relação  com  as 
demais 
fontes do direito em nossa época, principalmente no direito continental (direito 
europeu codificado e latino­americano), na prática, a doutrina é, sem dúvida, fonte 
inspiradora  das  decis<*­*>es  judiciais.  A  autoridade  de  certos  juristas'  leva  os 
juízes a 
acolher a interpretação do direito por eles dada. É comum encontrarmos nas 
sentenças e nos pareceres citação da opinião de jurisconsultos, e, muitas vezes,
3 Nesse caso, a doutrina, ou seja, a opinião desses jurisconsultos, tinha força de 
lei. O Digesto (§ 
161 ), de Justiniano nada mais era do que a compilação da doutrina dos juristas 
romanos da época 
clássica. 
4  A  obra  de  Aubry  e  Rau  exerceu  profunda  influência  na  Corte  de  Cassação 
francesa, enquanto a 
de  Laurent,  na  jurisprudência  dos  tribunais  belgas,  como  nota  Boulanger  (&quot;II 
método dell'inter­ 
pretazione giudiziaria&quot;, na Rivista di Diritto Commerciale,1951). As opini<*­*>es 
de Clóvis Beviláqua, 
Pontes  de  Miranda  etc.  têm  exercido  intluência  na  jurispnidência  de  nossos 
tcibunais. O Código dc 
Napoleão, ou seja, o Código Civil fiancês, inspirou­se nas idéias de Domat e de 
Pothier, enquanto nas 
de Windscheid, o Código Civil alemão. 
127 
Introdução ao Estudo do Direito 
nessas  opini<*­*>es  se  fundam  os  julgados.  Quantas  vezes  os  pareceres  dos 
doutos têm 
modi icado a opinião de juízes ! 
Assim, não devemos fugir à realidade e pretender escondê­la, mas sim desejar 
que os  juízes se aproximem da boa doutrina, da verdadeira autoridadejurídica, e 
não 
dos falsos mitos jurídicos. 
A doutrina, como fonte do direito, é o conjunto de regras, idéias e princípios 
jurídicos  extraídos  das  obras  dosjurisconsultos.  Deve  ser  uniforme,  isto  é, 
sustentada 
pela maioria dos jurisconsultos de uma época. Mas, em certos casos, um único 
jurisconsulto, de grande fama pela sua cultura, inteligência e erudição, com suas 
obras, tem autoridade (cultural) para criar direito, desde que suas idéias sejam 
acolhidas pelos tribunais. Assim, em nossa época, em que o jurisconsulto oficial­ 
mente