GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
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GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


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não mais declara o direito, a doutrina por si só, sem o acolhimento dos 
tribunais ou sem a formação de costumes, não cria direito. 
A doutrina pode ser secundum legem, se resulta da interpretação dada por 
jurisconsultos de um texto legal\u37e pode ser praeter legem, quando das obras dos 
jurisconsultos podemos tirar soluç<*­*>es para as lacunas do direito, e, finalmente, 
contra legem, se contrária ao disposto no direito vigente. Neste último caso, no 
sistema codificado, isto é, legislado, a nosso ver, a doutrina tem valor para os 
legisladores,  indicando  reformas  a  serem  introduzidas  no  d  reito  positivo. Mas 
nem
sempre  é  assim  na  prática,  pois,  como  já  dissemos  no  parágrafo  anterior,  a 
doutrina 
francesa criou as teorias do abuso do direito e da responsabilidade civil decorrente 
de riscos, incompatíveis com o Code Civil, mas que foram acolhidas pela jurispru­ 
dência francesa. No sistema anglo­americano, em que o direito é declarado pelos 
juízes, a doutrina contrária ao direito vigente (contra legem), incompatível com os 
precedentesjudiciais, em oposição à orientação dominante najurisprudência, pode 
levarjuízes e tribunais a modificarem ajurisprudência e, assim, o direito. 
Razão tem, pois, Morin (&quot;Le rôle de la doctrine dans 1'élaboration du droit 
positif',  em  Le  Probl\u160me  des  Sources  du  Droit  Positi<*­*>:  deve  a  doutrina  se 
esforçar 
para abrir caminho para a ordem jurídica nova, mantendo a antiga, através da 
conciliação das noç<*­*>es  fundadas no direito  retrógrado com as exigências do 
direito 
novo. Não deve assim ser exclusivamente conservadora, pois deve dar soluç<*­ 
*>es 
jurídicas para as quest<*­*>es criadas pelas modificaç<*­*>es da realidade social. 
Daí Morin 
ter sustentado ser a missão mais elevada da doutrina construir a estrutura técnica 
da 
ordem jurídica nova. Respondendo a Ripert, no Congresso de Filosofia do Direito 
realizado em Paris em I 933, disse Morin: &quot;A doutrina não deve ser conservadora 
ou revolucionária, deve corresponder aos fatos&quot;. E indaga: &quot;Será conforme ao 
espírito científico manter as categorias tradicionais do direito civil quando os fatos, 
isto é, a realidade jurídica viva está manifestamente em oposição com eles? Será 
ato 
de  ciência  utilizar  para  as  construç<*­*>es  jurídicas  princípios  incapazes  de 
exprimir a 
realidade do direito que se deve descrever e compreender?&quot; Achamos que não, a 
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doutrina deve ser conservadora quando assim exigir a realidade social, avançada, 
nas  épocas  de  transformaç<*­*>es,  antecipando­se  ao  legislador,  facilitando  o 
trabalho 
dos  tribunais,  indicando  novos  caminhos  e  novas  soluç<*­*>es  para  problemas 
imprevi­ 
síveis ao legislador quando formulou a legislação vigente. A doutrina francesa, tão 
citada  neste  livro,  demonstrou  o  valor  da  Ciência  do  Direito  no  progresso  do 
direito. 
Finalmente, a doutrina tem, como nota Roubier (Théorie Générale du Droit), 
a  &quot;vantagem  de  constituir  um  conjunto  coerente  de  soluç<*­*>es,  estabelecidas 
indepen­
dentemente  de  toda  consideração  de  espécie\u37e  a  competência  técnica  e  a 
irnparciali­ 
dade  do  jurisconsulto  são  garantias  do  valor  da  regra,  posto  que  esta  não  se 
imp<*­*>e 
senão por suas próprias qualidades&quot;. 
XIII
FONTES SUPRA­ESTATAIS DO DIREITO­ 
TRATADO INTERNACIONAL ­ COSTUME 
INTERNAGIONAL E PRINCÍPIOS GERAIS DO DIREITO 
DOS POVOS CIVILIZADOS 
82. FONTES SUPRA­ESTATAIS 
O Estado não é, como jamais foi, auto­suficiente. Depende da economia e 
da cooperação dos demais países, ou seja, da ordem econômico­financeira 
interoacional. O desenvolvimento nacional depende do volume do comércio 
interoacional, bem como do estabelecimento em seu território de empresas multi­ 
nacionais, de investimentos de instituiç<*­*>es financeiras ou de contribuiç<*­*>es 
de 
instituiç<*­*>es culturais internacionais. Por isso o Estado tem interesse em se 
submeter às regras do direito internacional (§ 91). Participa compulsoriamente 
da comunidade internacional, como membro de organização internacional (§ 95) 
de âmbito mundial (ONU) ou regional, como, por exemplo, a OEA (§ 96), no caso 
da América. Normas internacionais não escritas e princípios de direito que desde a 
Idade Média vêm sendo estabelecidos pelos doutos, regem a comunidade interna­ 
cional. Do consenso dos Estados depende a vigência dos tratados internacionais, 
áos 
quais soberanamente se submetem e dos quais, também soberanamente, podem 
se
desvincular,  denunciando­os.  Assim,  há  fontes  do  direito  que  estão  acima  do 
Estado, 
ou  seja,fontes  supra­estatais  do  direito  independentes  do  consentimento  do 
Estado, 
como,  por  exemplo,  os  costumes  internacionais,  e  fontes  dependentes  desse 
consen­ 
timento, como os tratados e convenç<*­*>es internacionais. 
83. TRATADO INTERNACIONAL 
É o acordo concluido por escrito entre Estados soberanos, contendo regras 
gerais  disciplinadoras  de  suas  relaç<*­*>es.  I  Também denominado  convenção, 
pacto
1 Têm sido feitas distinç<*­*>es, sem grande alcance, no gênero tratado: tratado, 
quando tiver conteúdo 
político  (tratado  de  aliança,  de  não­agressão,  de  paz,  de  neutralidade  etc.)\u37e 
pacto, com conteúdo 
político mais restrito\u37e convenção, de natureza econômica,judiciária ou de direito 
privado\u37e acordo, 
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ou convênio internacional, estabelece norma de validez internacional circunscrita 
aos países que o celebrarem, ratificarem ou a ele aderirem. 
O tratado obriga, assim, os Estados que o tiverem ratificado ou os que a ele 
tiverem  aderido.  Portanto,  não  obriga  terceiros­Estados,  isto  é,  os  que  não  o 
tiverem 
ratificado ou não tiverem a ele aderido, salvo se se tratar de tratado consolidador 
ou 
codificador de costume internacional (§ 82) preexistente. 
A adesão a um tratado pode ser com reservas, desde que declarada expressa­ 
mente e especificada. A ratificação é ato que pode ser praticado por representante 
do Estado, pelo Chefe de Estado, pelos Ministros das Relaç<*­*>es Exteriores e 
pelos 
chefes de miss<*­*>es diplomáticas, ou seja, por autoridade constitucionalmente 
autori­ 
zada a celebrá­lo. 
Como a lei (§ 69) o tratado prevê a data de sua entrada em vigor. 
Sendo um acordo por escrito, em sua interpretação deve ser perquirida, como 
nota Verdross (Derecho Internacional Público, trad.), a &quot;autêntica vontade das 
partes''. Os termos nele empregados devem ser entendidos no ` `sentido comum'' 
e 
` `à luz de seu objetivo e finalidade'' (ConvenÇão de Viena de 1969). 
Pela denúncia do tratado, o Estado que o tiver subscrito ou a ele tiver aderido 
poderá  deixá­lo  de  observar.  Porém  essa  decisão  deve  ser  comunicada  aos 
demais 
Estados­partes em prazo razoável. 
A obrigatoriedade dos tratados funda­se no princípio fundamental do direito 
internacional: pacta sunt setvanda, segundo o qual os Estados devem respeitar os 
pactos  por  eles  estabelecidos.  Esse  princípio,  segundo  Kelsen,  Verdross  e 
Anzilotti, 
constitui a norma fundamental do direito internacional convencional (§ 89). Não é 
esse  princípio  suscetível  de  demonstração  jurídica,  por  não  se  encontrar  em 
norma 
alguma, não sendo, portanto, deduzível do direito escrito. Apesar disso, é pressu­
posto da eficácia dos tratados intemacionais. É, portanto, fonte primária do direito 
internacional convencional. 
Tratado transforma­se em norma de direito interno, tendo assim força de lei, 
obrigando o juiz a respeitá­lo e aplicá­lo aos casos a ele submetidos, quando, na 
forma prevista na Constituição, for por ato legislativo do Congresso Nacional 
(decreto  legislativo)  aprovado,  e  por  decreto  do  Presidente  da  República 
promulga­ 
do,  dando­lhe  assim  executoriedade.