GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
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GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


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Destarte,  o  tratado  internacional,  para  ter 
valor 
de  direito  interno,  ou  seja,  de  lei,  depende  de  dois  atos  normativos  :  decreto 
legislativo 
do Congresso Nacional e decreto do Presidente da República. Exemplo pode ser 
de  natureza  comercial\u37e  concordata,  com  a  Igreja.  A  distinção  entre  tratado­lei 
(tratado de 
produçãojurídica, estabelecedor de norma de validez geral) e tratado­contrato ou 
tratado­negócio 
(fonte de relaç<*­*>es ju6dicas, estabelecedor de normas concretas) não é aceita 
pela maioria dos 
intemacionalistas. 
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Introdução ao Estudo do Direito 
dado  :  o  Supremo  Tribunal  Federal,  no  Recurso  Extraordinário  n&quot;  71.154, 
considerou 
ter  vigência,  no  plano  do direito  interno,  a  Lei Uniforme  sobre  cheque,  adótada 
pela 
Convenção  de  Genebra  de  1931,  aprovada  pelo  Congresso  Nacional,  pelo 
Decreto 
Legislativo n&quot; 54, de 1964, promulgada pelo Decreto n&quot; 57.595, de 1966. Incorpo­ 
rado ao direito interno, o tratado passa a ter força de lei. 
O direito resultante dos tratados denomina­se direito internacional convencional. 
Finalmente, os tratados, desde a Convenção de Viena de 1969, são regidos por 
normas  escritas  (direito  dos  tratados)  que  disciplinam a  elaboração,  aprovação, 
ratifi­ 
cação, adesão, interpretação, aplicação, modificação e extinção dos mesmos. 
84. COSTUMES INTERNACIONAIS 
São os usos observados e reconhecidos unifornzemente pelos Estados sobera­ 
nos  em  suas  relaç<*­*>es.  São  necessários  ao  comércio  e  às  comunidades 
internacionais. 
O art. 38, letra b, do Estatuto da Corte Internacional de Justiça (§ 95), de 1945,
deftne­os como ` `práticas gerais aceitas como direito ' '. São, no dizer de Sibert 
(Traité de Droit International Public), &quot;juridicamente necessários para manter e 
desenvolver as  relaç<*­*>es  internacionais&quot;. Não  têm as mesmas características 
do 
direito  interno  consuetudinário,  pois  são  mais  usos  ou  práticas  aceitos  como 
obriga­ 
tórios pelos Estados soberanos que os observarem. Resultam de fatos, ou seja, 
de 
atos  reiterados,  observados  nas  relaç<*­*>es  internacionais,  que  criam  a 
presunção de 
serem respeitados. No dizer de Anzilotti (Corso di Diritto Internazionale Pubblico), 
decorrem  de  &quot;atos  dos  Estados  no  campo  das  relaç<*­*>es  internacionais  dos 
quais 
resulta a sua vontade de se comportarem recíproca e obrigatoriamente em dado 
modo''.  Não  podem  transgredir  ou  se  opor  aos  tratados  internacionais  e  aos  ` 
`prin­ 
cípios gerais do direito dos povos cultos&quot; (§ 83). . 
Podem ser regionais ou particulares, ou seja, praticados por alguns Estados 
soberanos,  por  exemplo,  válidos  no  Continente  americano,  como  podem  ser 
gerais, 
válidos  para  países  de  continentes  diferentes.  Os  regionais  não  valem  contra 
tercei­ 
ros­Estados, ou seja, contra países de outras regi<*­*>es. 
A obrigatoriedade dos costumes internacionais funda­se no principiofunda­ 
mental  do  direito  intemacional:  consuetudo  est  servanda,  segundo  o  qual  os 
países 
devem  agir  da  maneira  que  usualmente  agem  nas  suas  relaç<*­*>es 
internacionais. 
Segundo Kelsen, esta é a norma fundamental do direito internacional. 
85. PRINCÍPIOS GERAIS DO DIREITO DOS POVOS 
CIVII.IZADOS 
No dizer de Verdross (Derecho Internacional Público, trad.), são os ` `princí­ 
pios concordantes que informam os ordenamentos jurídicos dos povos civilizados'' 
, 
aplicáveis  às  relaç<*­*>es  internacionais.  Por  isso,  são  denominados  principios 
gerais 
<012> 
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Paulo Dourado de Gusmão 
do direito reconhecidospelas na<*­*><*­*>es civilizadas. São os princípios gerais 
do direito
de países que, segundo Cansacchi (Istituzioni di Diritto Internazionale Pubblico), 
têm ` `corr<*­*>um grau de civilização''. São assim princípios comuns aos direitos 
de 
povos que têm afinidades na sua formação cultural e que têm, portanto, sistemas 
jurídicos semelhantes. Não são, dessa forma, princípios do direito natural ou 
decorrentes da eqüidade ou da razão, mas princípios do direito dos povos cultos. 
Não  se  confundem  também com os principios gerais do direito  (§ 139), que, no 
caso 
de lacuna (§ 139), insanáveis com o recurso às disposiç<*­*>es concernentes aos 
casos 
análogos ou aos costumes, podem dar a solução ao juiz para o caso não previsto 
no 
direito interno (§ 90). 
Ditos princípios aplicam­se no caso de lacuna (§ 139) do direito internacional 
(§ 91), ou seja, quando inexistir tratado ou costume internacional ou, ainda, juris­ 
prudência da Corte Internacional de Justiça (§ 95) para solucionar uma questão 
internacional.  Por  isso,  esses  princípios  sãofontes  subsidiárias  do  direito 
internacio­ 
nal. Facilitam a interpretação dos tratados. Limitam a vontade dos Estados sobera­ 
nos,  pois  contra  os mesmos  regra alguma deve ser estabelecida por  tratado ou 
por 
costume internacional. 
De todos esses princípios, dois são fundamentais: consuetudo est servanda, 
que  obriga  os  países  a  observarem  os  costumes  internacionais,  epacta 
suntservanda, 
que os obriga a observarem os tratados internacionais. 
XIV 
CODIFICAÇÃO ­ RECEPÇÃO DE DIREITO 
ESTRANGEIRO 
86. CODIFICAÇÃO 
A Codificação como movimento jurídico alcança o seu apogeu no século 
XIX.  Em  razão  dela  os  direitos  ocidentais,  quanto  à  forma,  se  dividem  em:  a) 
direito 
continental, ou direito codificado, que compreende o grupo francês, balizado pelo 
Código  de  Napoleão  (Code  Civil  des  Français)  de  1807,  e  o  grupo  alemão 
marcado 
pelo Código Civil alemão (BGB) de 1900\u37e b) sistema da Common Law ou do grupo 
anglo­americano, em que predomina o precedente judicial. ' 
O movimento, apesar de não ser muito antigo, pois data de pouco mais de um 
século, foi conhecido desde a Antigüidade. A história do direito romano processa­ 
se
entre  duas  códificaç<*­*>es:  a  Lei  das  XII  Tábuas  e  o  Corpus  luris  Civilis  de 
Justiniano. 
Na Suméria existiram codificaç<*­*>es famosas. Até bem pouco tempo era tido o 
Código 
de Hamurabi como a mais antiga codiftcação. Não só a mais antiga como também 
a mais desenvolvida, prevendo vários tipos de contrato e, sem caráter obrigatório, 
a 
reparação do dano, em vez da &quot;lei de Talião&quot; (&quot;dente por dente, olho por olho&quot;), 
que também era admitida. Até a última guerra, tinha­se esse código como o mais 
antigo. Mas na Suméria, em 1947, foi descoberto outro código, atribuído a um rei 
chamado Lipit­Istar, que reinou 150 anos antes de Hamurabi. Entretanto, em 1948, 
outro código mais antigo foi encontrado, escrito na língua semítica­babilônica, de 
autoria do rei Bilalama, que viveu 70 anos antes de Lipit­Istar. Mas essa prioridade 
foi posta abaixo pela descoberta de um código muito anterior ao de Lipit­Istar, o 
Código de Ur­Namu, que, apesar de estar gravado em uma tabuinha muito danifi­ 
cada, demonstra o alto espírito de justiça desse rei, substituindo a lei do ` `olho por 
olho'' por multa em dinheiro. Está contido em uma ` `tabuinha'' de argila, cozfda ao 
sol, conhecida por ` `tabuinha de Istambul''. Desses códigos sumerianos se conclui 
I O Brasil, pafs em que domina o direito escrito, ou seja, a legislação, pertence ao 
grupo do direito 
continental. Sobre o sistema continental e da Common Law, vide § 166. 
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Paulo Dourado de Gusmão 
que  o  de  Hamurabi  deve  ter  sido  compilação  de  antigas  leis.  Neles  não  se 
encontra 
distinção entre direito civil e penal e desses com o processual. 
Pondo de lado essas quest<*­*>es, pode­se dizer que na civilização européia o 
movimento codificador desponta no século XVlll. Não se manifestou, a princípio, 
em códigos, mas em compilaç<*­*>es, isto é, na reunião em um único texto de leis 
esparsas ou de costumes,  como Les  lois civiles dans  leur ordre