GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
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GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


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ou melhor, do conheci­ 
mento pelo sentido objetivo, contido na obra humana, na ação e no fato social, 
reconhecemos  que  o  problema  do  método  jurídico  depende  da  natureza  da 
investi­ 
gação  que  se  pretende  realizar.  Se  partirmos  do  geral  (norma),  utilizaremos  o 
método 
dedutivo, raciocinando através de silogismos\u37e se de casos singulares para o geral, 
o 
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Introdução ao Estudo do Direito 
método indutivo\u37e com muita freqüência o método comparativo\u37e se a investigação 
tiver por objetivo as raízes sociais ou os efeitos sociais do direito, o método 
sociológico  terá  de  ser  usado, mas,  se  o  passado  do direito  estiver  na mira  do 
jurista, 
deverá ser empregado o método histórico. 
Mas em todos esses casos ojurista partirá da compreensão ou da interpretação, 
para captar o sentido do objeto de seus estudos (norma, conduta, sentença etc.).
3. TÉCNICA JURÍDICA 
A ciência do direito, como qualquer ciência, tem sua técnica (técnicajuridica), 
que pode ser entendida como conjunto de procedimentos por meio dos quais são 
mais  perfeitas,  fáceis  e  eftcazes a  criação  e  aplicação  do direito, bem como se 
torna 
mais completo o seu conhecimento.5 Se distinguirmos aforma do conteúdo ou da 
matéria da regra de direito, acabaremos, com Gény, dizendo que a técnica jurídica 
dá a ` `forma'' do direito, construindo­a, enquanto a ciência fornece o seu conteúdo 
, 
dando os elementos para que a técnica o formule com o auxílio das ciências afins 
do  direito,  bem  como  do  Direito  Comparado  e  da  História  do  Direito.  Nesse 
sentido, 
a técnicajurídica é a arte deformular a regra de direito com precisão, objetividadé, 
clareza  e  espirito  de  sintese.  Pensamos  que  a  técnicajurídica  é  tripartida:  la, 
técnica 
deformulação  do  direito\u37e  2a,  técnica  da  ciência  do  direito,  e  3a,  técnica  de 
aplicação 
do direito. A primeira e a segunda se servem de um vocabuláriojuridico, que deve 
ser  simples,  preciso  e  uniforme,  composto  de  vocábulos  oriundos  de  outras 
ciências, 
bem  como  de  palavras  que  têm  sentido  jurídico  próprio  e  de  palavras  que 
pertencem 
ao vocabulário comum. Outro recurso da técnica deformulação do direito são as 
fórmulas,  que  outrora  eram  sagradas,  apesar  de  ainda  em  uso  no  direito, 
geralme<*­*>te, 
Coube  a  Gény  (Science  et  Tecnique  du  Droit  Privé  Positif,  Paris,1914­24) 
distinguircom precisão 
a  técnica  da  ciência  jurídica.  À  ciência,  segundo  Gény,  compete  estabelecer  a 
matéria do direito, 
enquanto à técnica, aforma dessa matéria, a sua criação, interpretação, aplicação 
e revogação. 
Mas na determinação da matéria do direito a opinião de Gény tornou­se discutível. 
Para ele, à 
ciência jurídica compete descobrir os dados do direito, de quatro espécies: donné 
&quot;real&quot; ou 
&quot;material&quot;,  formado  de  &quot;condiç<*­*>es  de  fato  em  que  se  encontra  colocada  a 
humanidade&quot;, sejam 
de &quot;natureza física ou moral&quot; (clima, solo e seus produtos, constituição anatômica 
e fisiológica 
do  homem,  estado  psicológico,  aspiraç<*­*>es  morais,  sentimentos  religiosos 
etc.), de condiç<*­*>es 
econômicas  que  intluem  sobre  a  sua  atividade  e  de  forças  políticas  ou  sociais 
existentes\u37e donné
&quot;histórico&quot;, formado de &quot;fatos e circunstâncias da vida humana e social&quot; (tradiç<*­ 
*>es, precedentes, 
costumes,  leis,  doutrina,  jurisprudência,  solidamente  estabelecidos)\u37e  donné 
&quot;racional&quot;, constituí­ 
do pela essência das coisas, apreendida pela razão, tendo por reduto o &quot;irredutível 
direito natural&quot;, 
imutável e absoluto\u37e donné ` `ideal' ', captado pela intuição, formado pelos ideais 
sociais, que 
iniluem sobre a conceituação histórica desses &quot;dados'', contribuindo assim para o 
processo 
histórico­social do direito. Vide, sobre Gény, §§ 137,196 e 199, nota 52. 
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Paulo Dourado de Gusmão 
a  fórmula  imperativa.  Não  deve  ser  esquecido  outro  recurso,  construído  pela 
técnica 
jurídica, destinado a dar certeza às relaç<*­*>es jurídicas e a facilitar as provas: a 
presunção e a ficção. A presunção, baseada na verossimilhança, generaliza o que 
normalmente ocorre em certos casos, estendendo as conseqüências jurídicas de 
um 
fato conhecido a um desconhecido. Daí Brethe de la Gressaye e Laborde­Lacoste 
(Introduction Générale à l 'Étude du Droit) dizerem que na presunção considera­se 
como verdadeiro o que é provável. Exemplos de presunção: 1&quot;, presumem­se 
concebidos na constância do casamento os ftlhos nascidos 180 dias, pelo menos, 
depois de estabelecida a convivência conjugal, bem como os nascidos dentro dos 
300 dias subseqüentes à dissolução da sociedade conjugal por morte, desquite 
(separação  judicial)  ou  anulação  do  casamento\u37e  2&quot;,  quando,  em  virtude  de 
desastre 
, 
duas pessoas ligadas por vínculo de parentesco (pai e filho, irmãos etc.), falecem, 
não se podendo precisar qual delas faleceu primeiro, presume­se então terem 
falecido simultaneamente. Presunção dispensa prova. 
Já aficção, outro recurso muito empregado pelo legislador e pelo jurista, atribui 
realidade  ao  que  não  tem,  considerando  verdadeira  uma  criação  artificial  do 
pensamento. 
Daí Ihering (L'esprit du droit romain, trad.) tê­la definido como mentira técnica 
consagrada pela necessidade. A ficção, como esclarece Ferrara (Trattato di Diritto 
Civile Italiano), não transforma em real o que não tem realidade, mas só lhe dá as 
mesmas conseqüências, como se fosse real. Caracteriza­se ­ diz Ferrara ­ por dar 
igual 
tratamento  a  relaç<*­*>es em si materialmente diversas. Exemplos de  ficção: os 
acessórios 
de um imóvel, móveis por natureza, são juridicamente imóveis.
O legislador emprega também a técnica da publiccdade, de modo a poder 
presumir conhecida a lei por todos, bem como exige a publicidade de certos atos 
jurídicos. Para dar­lhe eficácia hájornais oficiais (Diário Oficial), que publicam leis, 
decretos, decis<*­*>es judiciais, atos etc., e o sistema de registro público de atos 
jurídicos, destinado a dar­Ihes publicidade, prioridade e segurança, bem como 
facilitar  a  prova  dos mesmos.  Usa,  também,  a  técnica  daforma,  que  visa  a  dar 
certeza 
e segurança à relação  jurídica, sendo, em certos casos, essencial ao ato, como, 
por 
exemplo, a escritura pública. 
Já a técnica da ciência do direito se destina a concentrar, sistematizar e unificar 
a matéria jurídica. Para tal, serve­se da redução e da concentração dessa matéria, 
de modo a reduzir o número de princípios, regras e conceitosjurídicos. A redução, 
por 
exemplo, das coisas a móveis e imóveis é uma forma de concentração da matéria 
jurídica. Outra é a técnica da formulação de categoriasjuridicas, que, levando em 
conta 
a  natureza,  elementos  comuns  e  específicos,  distribui  a  matériajuridica  em 
quadros bem 
definidos.  Tais  categorias,  segundo  Gaius,  jurista  romano,  são  as  seguintes: 
pessoas, 
coisas  e  aç<*­*>es.  Hoje,  podemos  ampliá­las:  pessoas,  coisas,  aç<*­*>es, 
direitos, atos e fatos 
jurídicos,  propriedade,  responsabilidade  civil,  poder  legislativo  etc.  São  assim 
consti­ 
tuídas  de  um  conjunto  de  regras  jurídicas  que  disciplinam  matéria  jurídica 
autônoma, 
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Introdução ao Estudo do Direito 
integrada em um corpo mais amplo de direito. Assim, por exemplo, a propriedade 
é uma categoria do direito civil, que é um corpo mais amplo de direito. Como bem 
notou Roubier (Théorce Générale du Droit, 2a ed., Chapitre Préliminaire, § 3o letra 
A), 
muitas categorias  jurídicas são  também  instituiç<*­*>es  jurídicas, como é o caso 
da 
propriedade. Mas, prossegt<*­*>e Roubier, nem toda categoriajurídica é instituição 
jurídica, 
sendo, contudo, verdadeira a recíproca. 
No que tange às categorias, é possível concentrá­las, unificá­las, reduzi­las e 
simplificá­las com o emprego