GUSMÃO, PAULO DOURADO DE   INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO
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GUSMÃO, PAULO DOURADO DE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO


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italiano, alemão etc.) e de cada matéria jurídica (sistema de direito civil brasileiro, 
de direito penal etc.). Para construi­lo, agrupam­se, por afinidade de matérias, 
conceitos  e  princípios,  buscando os  laços que  os  unem ou os aproximam, para 
depois 
inferir deles princípios muito gerais e compreensivos que os informam e que os 
tornam afms. O verdadeiro sistema, conclui Cogliolo, não é um índice esquemático 
a  seguir,  mas  a  organização  científica  da matériajurídica,  que,  com  precisão  e 
rigor, 
formula conceitos, delimitando o alcance dos mesmos, bem como atribui o valor e 
a importância de cada norma, entrelaçando­as e subordinando­as, de modo a que 
cada  uma  tenha  o  lugar  que  lhe  compete,  sem destacar  umas  com prejuízo  de 
outras. 
Além disso, ojurista parte desses dados para os princípios gerais e fundamentais 
das 
várias instituiç<*­*>es jurídicas, conciliando­os, quando necessário. Partindo deles 
entrega­se à tarefa de formular os princípios gerais do direito. A construção do 
sistema tem por objetivo, nota Cogliolo, descobrir os pontos obscuros e contraditó­ 
rios ou incompletos contidos nos princípios e nas normas, bem como harmonizar e 
coordenar as tendências opostas de dois ou mais institutos. 
Cada país tem seu sistema jurídico. Se sistema jurídico é unidade lógica do 
direito,  impossível,  logicamente,  como  dissemos,  haver  mais  de  um 
sistemajurídico 
em um país. 
Pode, no entanto, a ciência construir um sistemajurídico mais amplo do que o 
nacional,  levando  em  conta  os  princípios  que  informam  os  sistemas  de  vários 
países 
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Paulo Dourado de Gusmão
e os conceitos formulados pela doutrina estrangeira com base nesses princípios. 
Assim, por exemplo, é lícito falar em sistemajurídico europeu (§ 163), formado 
pelos direitos da América Latina e da Europa Continental, inspirados no regime 
democrático e nos códigos civis europeus, que, como nota René David (Traité 
Élémentaire  de Droit Civil Compare<*­*>,  &quot;nascidos de uma origem comum,  têm 
todos 
atualmente  uma  estrutura  análoga  e  utilizam  os  mesmos  conceitos'',  estando 
vinculados 
entre si,  `  `porque estão  fundados no direito romano''. Mas, na Europa dos anos 
90, com 
a União Européia (§ 96), os países que a comp<*­*>em, além de seus respectivos 
direitos 
nacionais, estão submetidos a um sistema jurídico comum, comunitário, europeu, 
ora 
em formação. 
5. DIREITO COMPARADO 
O direito comparado consiste no esforço do Racionalismo para unificar o 
direito de um mundo dividido. Não é um ramo tradicional da ciênciajuridica\u37e não foi 
cogitado  pelos  romanos,  mestres  construtores  dos  alicerces  do  direito  privado 
ocidental. 
É um ramo da ciência  jutídica ocidental, e, se quisermos precisar, da ciência do 
direito 
de nossa época. Pode­se dizer ­ se é possível nesses casos ixar datas ­ que o ano 
de 
1900 marca, com o Congresso Internacional de Direito Comparado, realizado em 
Paris, 
o momento de sua aparição oficial no cenáriojuridico mundial.&quot;' 
Todavia, antes de 1900, os estudos etnológicos de Bachofen, Post e Summer 
Maine,  no  terreno  das  organizaç<*­*>es  jurídico­sociais  dos  povos  arcaicos, 
podem ser 
considerados como de direito comparado. Porém, foi com a obra de Lambert ­ Lci 
Fonction du Droit Civil Comparé ­, aparecida em 1903, portanto depois do Con­ 
gresso de Paris,  que  se  iniciou,  na França,  como nos demais países europeus, 
uma 
série de estudos metodologicamente rigorosos, comparativos do direito. 
Devemos esclarecer, desde logo, que o direito comparado, apesar de ter por 
objeto direitos de diferentes países ou de diferentes épocas e sociedades, não é 
normativo, não sendo, assim, aplicável obrigatoriamente pelos tribunais, apesar de 
servir, entretanto, para fundamentar decis<*­*>es de seus órgãos, principalmente 
no caso 
de lacuna da lei (§ 139). Serviu­se dele o Autor, como desembargador, ao julgar
10 Devemos esclarecer, com Cândido Luís Maria de Oliveira (Curso de legislação 
comparada, Rio 
de  Janeiro,1903),  que  em  1830,  na  França,  Lerminier,  no Colégio  de  França, 
inaugura a cadeira 
de  História  Geral  das  Legislaç<*­*>es  Comparadas  e,  em  1837,  Ortolan,  na 
Faculdade de Direito de 
Paris, profere a primeira lição de legislação penal comparada. No Brasil, continua 
o ilustrejurista 
pátrio, o Decreto no 7.427, de 19 de abril de 1879, prescrevia que o &quot;estudo do 
direito 
constitucional,  criminal,  civil,  comercial  e  administrativo  será  sempre 
acompanhado da compa­ 
ração da  legislação pátria com a dos povos cultos&quot;. O estudo comparativo das 
leis foi feito por 
alguns legisladores e pensadores ao longo da História. Licurgo, segundo Plutarco 
(Vidas), 
comparou as legislaç<*­*>es de Creta com as dosjônios e de outras cidades para 
legislar para Esparta. 
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Introdução ao Estudo do Direito 
recurso  para  reforma  de  sentença  que  não  dera  indenização  pela  rescisão 
unilateral 
e  abrupta  de  contrato,  de  prazo  indeterminado,  celebrado  entre  fábrica  de 
automóveis 
e revendedor autorizado, por bastar, segundo a decisão recorrida, aviso prévio de 
30 
dias, que fora dado. A sentença estava certa à luz da disciplina legal dos contratos 
típicos, previstos na lei, e não em relação aos atípicos e novos, que o legislador 
não 
havia  disciplinado. O  Autor  valeu­se  da doutrina  francesa para  conceder, muito 
antes 
da lei nacional específica, a indenização pretendida, definindo como concessão 
comercial o contrato rescindido, por compreender vários negócios, cuja rescisão 
unilateral  e  abrupta  não  seria  possível,  mesmo  sendo  indeterminado  o  prazo 
contra­ 
tual,  pelos  prejuízos  consideráveis  que  causaria  (Revista  de  Jurisprudência  do 
TJERJ, 
n&quot; 45, ps. 87 a 110). 
O direito comparado pode ser investigação científica pura, destinada a facilitar 
a  obra  de  intérpretes,  legisladores  e  juristas  que  pretenderem  possuir 
conhecimento 
mais vasto do direito. &quot;Todos os dias&quot;, escreve Paulo Ferreira da Cunha (Direito,
Porto,1990, p. 94), ` `sucede que, para fazer ou alterar legislação, se vai consultar 
a 
de outros países, em busca de exemplo e inspiração'' sem abandonar, entretanto, 
a 
tradição jurídica (obra citada, p. 94) de cada país. 
Há quem pense não se tratar de uma ciência, ou seja, de uma parte da ciência 
jurídica ao lado da Sociologia Jurídica, da Criminologia, da Teoria Geral do Direito 
e da dogmática juridica. Daí preferirem alguns juristas chamarem­na de ` `método 
comparativo'', ou, como dizem os alemães, Rechtsvergleichung, ou ` `comparação 
de direitos&quot;, em vez de &quot;direito comparado&quot;.&quot; Entre estes está René David, 
entendendo  ser  o  direito  comparado  a  `  `comparação  de  direitos  diferentes, 
método 
comparativo aplicado às ciências jurídicas''. Outra não é a posição do ilustre 
comparatista inglês Gutteridge (El derecho comparado, trad.), definindo­o como 
&quot;método de estudo e investigação, e não ramo ou divisão especial do direito'z 
, 
porquanto, continua Gutteridge, sendo o ` `direito conjunto de regras, é evidente 
que 
não  pode  existir  direito  comparado  na  forma  de  legislação.  O  processo  de 
comparar 
normas de distintos sistemas legislativos não origina novas regras aplicáveis às 
relaç<*­*>es humanas''. (De certa maneira o exemplo citado refuta essa tese.) 
Como vemos, grandes comparatistas, como René David, na França, e Gutte­ 
ridge, na Inglaterra, seguidos por De Francisci, na Itália, e Kaden, na Alemanha, 
para citar só os pioneiros, negam cientificidade ao direito comparado, consideran­ 
do­o simplesmente método de estudo jurídico. 
11  Alguns  juristas  denominaram  os  estudos  jurtdicos  comparativos  de 
comparativejurisprudence 
(Pollock), enquanto outros, de législation comparée, que teve certa aceitação