AnaLuizaPinheiroFlauzina
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afirma Zaffaroni: 
constitui um equívoco a recorrente afirmação de que as Ordenações 
Afonsinas foram as primeiras leis vigentes no Brasil colonial. A 
predominância de um poder punitivo doméstico, exercido 
desregulamentadamente por senhores contra seus escravos, é facilmente 
 
70 BATISTA, Nilo. Novas tendências do direito penal. Rio de Janeiro: Revan, 2004, p. 105-106. 
71 A esse respeito ver : BATISTA, Nilo. Matrizes ibéricas do sistema penal brasileiro\u2212 volume I. 2. ed. Rio de 
Janeiro : Revan, ICC, 2002, p. 126-128. 
72 ZAFFARONI, E. Raúl ; BATISTA, Nilo ; ALAGIA Alejandro ; SLOKAR, Alejandro. Op. cit., p. 411-412. 
73Idem, p. 413. 
 
demonstrável, e constituirá remarcável vinheta nas práticas penais 
brasileiras, que sobreviverá a própria abolição da escravatura.74
Assim, é a partir da implementação das Ordenações Filipinas que \u201cconstituíram o 
eixo de programação criminalizante de nossa etapa colonial tardia\u201d75 ao lado das práticas 
exercidas sob a égide do direito penal privado, que se deve analisar o sistema punitivo 
mercantil na Colônia portuguesa. O livro V do referido instrumento legal é reservado aos 
incidentes penais e encerra em seus postulados o ranço do tradicionalismo da monarquia 
portuguesa evidenciando o racismo, na coisificação do escravizado (no art. 62, por 
exemplo, é apenado com pena de furto o indivíduo que achando um escravo fugido não 
reportar a descoberta em quinze dias ao seu senhor ou autoridade competente), passando 
pelo patriarcalismo que abarca a dimensão do resguardo da honra familiar pelo controle dos 
corpos femininos e a imposição de um código sexual castrador (no art. 38, por exemplo, o 
marido é autorizado a matar a mulher em caso de adultério), alcançando finalmente o 
resguardo das convenções religiosas e a correlata confirmação da soberania do poder real.76
Apesar da importância desse instrumento que, com a vinda da família real 
portuguesa para o Brasil, em 1808, está em contato direto com os primeiros dispositivos 
legais efetivamente brasileiros77, não se pode dizer que se observou uma aplicação massiva 
de seus dispositivos, ainda que os incidentes tenham se avolumado a partir do século 
XVIII78. 
Um outro aspecto a ser levado em conta, no que tange ao aporte burocrático, é a 
incidência das normas da Inquisição na colônia portuguesa. Mesmo sem ter sediado um 
Tribunal inquisitório, a exemplo de outros países latino-americanos, \u201cos tentáculos do santo 
ofício manobraram intensamente por aqui\u201d79, por meio de visitações e inquirições hostis 
aos indícios de práticas diversas dos mandamentos cristãos tradicionais. Uma das principais 
conseqüências desse patrulhamento foi uma espécie de demarcação do espaço reservado 
aos cultos tradicionais, que acabavam por se professar fora da esfera pública do 
 
74Idem, p. 414. 
75 Idem, p. 417. 
76 Ordenações Filipinas. 2º volume. São Paulo : Edição Saraiva, 1960. 
77 ZAFFARONI, E. Raúl ; BATISTA, Nilo ; ALAGIA Alejandro ; SLOKAR, Alejandro. Direito Penal 
Brasileiro : primeiro volume. Op. cit., p. 421 
78 Idem, p. 422. 
79 Idem, p. 420. 
 
reconhecimento, como forma de se resguardarem das eventuais punições. As religiões de 
matriz africana, em especial, sofreram esse tipo de restrição, conforme ilustra Luiz Mott: 
\u201cAlguns adeptos dos rituais africanos optavam por instalar seus locais de culto distantes da 
povoação, não apenas para estarem mais próximos dos cursos d\u2019água e de florestas mais 
densas, habitat propício para o contato com os deuses d\u2019África, mas também para gozar de 
privacidade e escapar dos olhares e ouvidos dos donos do poder.\u201d80 Os estigmas que, até 
hoje, acompanham essas tradições religiosas, conferindo um estatuto inferior e pecaminoso 
que não deve ser revelado publicamente têm suas origens centradas nesse tipo de 
intervenção. 
Assim sendo, lançando um olhar à programação criminalizante vigente na Colônia, 
que teve nas Ordenações Filipinas seu o grande marco, podemos constatar, sem negar-lhe a 
devida importância, que, de uma maneira geral, as normas tiveram um alcance limitado na 
regulamentação da vida social. Com a organização da atividade produtiva centrada no 
sistema escravista, as práticas de controle tenderam a ser pensadas e materializadas no 
interior desse domínio. Nesse sentido, o privado passa a ser o espaço aonde se regula 
fundamentalmente a extensão das práticas punitivas. O sistema penal colonial-mercantil 
está mesmo situado nos quintais da casa-grande. 
Na leitura desse cenário, há duas dimensões da atuação desse sistema penal que 
devem ser levadas em conta. A primeira e mais difundida relaciona-se à face mais visível 
de um aparato da barbaridade que, pela apropriação dos corpos e a imposição de toda sorte 
de mazelas, que vão da tortura psicológica às mutilações, investiu no disciplinamento da 
mão-de-obra, no controle das fugas e em todos os episódios de insurreição mais latentes 
que encontravam a morte como limite de sua expressão. 
Nesse tocante, merece destaque a orientação da engenharia punitiva para fora dos 
limites da grande propriedade, com o intuito de conter e eliminar os quilombos, como uma 
das formas mais temidas e correntes da resistência negra. Partindo dos pressupostos 
 
80 MOTT, Luiz. Cotidiano e vivência religiosa : entre a capela e o calundu. In : História da vida privada do 
Brasil : cotidiano e vida privada na América Portuguesa- volume I. Coordenador geral da coleção Fernando 
A. Novais ; organização Laura de Mello e Souza. São Paulo : Companhia das Letras, 1997, p. 206. 
 
 
trabalhados pelo pan-africanismo podemos afirmar que \u201ca história de luta do povo 
quilombola no Brasil ocorria como um continuum de fatos que estavam acontecendo no 
continente africano\u201d81. Experiência que carregava similitudes muito acentuadas com vários 
outros empreendimentos que se ergueram em todo o continente americano no decurso do 
processo escravista, os quilombos eram o espaço de recuperação das tradições africanas e 
da vida comunitária típica desses agrupamentos. Pela capacidade ofensiva e simbólica que 
representava ao regime de trabalhos forçados, o quilombo parece ter sido o instrumento 
mais acessado como forma de resistência, consoante assinala Clóvis Moura: 
O quilombo foi, incontestavelmente, a unidade básica de resistência do 
escravo. Pequeno ou grande, estável ou de vida precária, em qualquer 
região em que existisse a escravidão lá se encontrava ele como elemento 
de desgaste do regime servil. O fenômeno não era atomizado, circunscrito 
a determinada área geográfica, como a dizer que somente em 
determinados locais, por circunstâncias mesológicas favoráveis, ele podia 
afirmar-se. Não. O quilombo aparecia onde quer que a escravidão 
surgisse. Não era simples manifestação tópica. Muitas vezes surpreende 
pela capacidade de organização, pela resistência que oferece; destruído 
parcialmente dezenas de vezes e novamente aparecendo, em outros locais, 
plantando a sua roça, construindo suas casas, reorganizando a sua vida 
social e estabelecendo novos sistemas de defesa. O quilombo não foi, 
portanto, apenas um fenômeno esporádico. Constituía-se em fato normal 
dentro da sociedade escravista. Era reação organizada de combate a uma 
forma de trabalho contra a qual se voltava o próprio sujeito que a 
sustentava.82
 Diante desse tipo de articulação que servia como uma plataforma viva da 
contestação negra atingindo, necessariamente, a \u201charmonia\u201d da vida no interior da 
propriedade, o sistema punitivo se municiou com todos os instrumentos de contenção que 
agregam uma legislação repressiva, recrutamento de milícias e capitães-do-mato, além de 
um sofisticado