AnaLuizaPinheiroFlauzina
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aparato de tortura. Tudo isso para dar fim efetivo aos quilombos 
materialmente consolidados, recuperando escravos e investimentos, mas também para 
sinalizar simbolicamente para a inviabilidade de qualquer forma de resistência contra o 
empreendimento escravista. 
 Além dessa faceta do controle social penal que incidia visivelmente sobre os corpos, 
na contenção às insurreições mais flagrantes, a exemplo dos quilombos, há ainda uma outra 
 
81 SILVA, Jônatas Conceição da. Vozes quilombolas: uma poética brasileira. Salvador : Edufba, Ilê Aiyê, 
2004, p. 26. 
82 MOURA, Clóvis. Rebeliões da Senzala. 4ª ed. Porto Alegre: Mercado Alegre, 1988, p. 103. 
 
dimensão que se vincula aos usos punitivos do mercantilismo colonial, que apesar de pouco 
trabalhada, deve ser levada em conta. Primeiramente, é preciso atentar para o fato de que, a 
partir da noção de poder em Foucault83, que entende a categoria para além de seu aspecto 
repressivo, o sistema penal passa a ser compreendido como um instrumento vocacionado, 
num primeiro plano, à configuração da vida social e não aos fins repressivos mais tangíveis 
e imediatos. Explica Zaffaroni: 
Na realidade social, o verdadeiro e real poder do sistema penal não é o 
poder repressor que tem a mediação do órgão judicial. O poder não é mera 
repressão (não é algo negativo); pelo contrário, seu exercício mais 
importante é positivo, configurador, sendo, a repressão punitiva apenas 
um limite ao exercício do poder.84
 Dessa forma, para além da aplicação da pena formalmente considerada, o foco do 
sistema está voltado, em primeira instância, para o controle, a gerência do modo de vida 
dos segmentos mais vulneráveis. Nesses termos, dentro da empresa mercantil que formulou 
sua arquitetura punitiva a partir do discurso racista da inferioridade negra, o manejo do 
sistema penal, principalmente pela difusão do medo e seu poder desarticulador, cumpriu um 
papel fundamental nos processos de naturalização da subalternidade. Ou seja, os 
mecanismos de controle, mais do que manter a população negra na posição da 
subserviência, deveriam ser capazes de fazer com que os negros internalizassem, 
assumissem a inferioridade como parte da constituição de seu caráter. Assim, a partir desse 
instrumental, que não se confunde com a violência aberta, mas se garante por ela, foi 
possível pela via do discurso racista, transferir boa parte das funções de controle para os 
membros do próprio grupo mantido sob suspeita. 
Willie Lynch, célebre traficante de escravos caribenho, produziu a imagem mais 
bem acabada desse modelo de dominação que, tendo marcado várias das experiências 
 
83 De acordo com Foucault, a visão que enxerga o poder somente a partir de seu aspecto repressivo é limitada. 
Para ele, a principal atribuição do poder, não está centrada nas proibições, mas na capacidade de gerir a vida 
social. Em suas palavras : \u201cO que faz com o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não 
pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma 
saber, produz discurso. Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social 
muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir\u201d. A esse respeito ver : FOUCAULT, 
Michel. Microfísica do poder. 21ª ed. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro : Graal, 
1979, p. 8. 
 
84 ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Em busca das penas perdidas. Op. cit., p. 22-23. 
 
 
latino-americanas, foi, no Brasil, levado às últimas conseqüências, pelo legado fundamental 
que representou enquanto engenharia de controle assumida no marco da democracia racial. 
Falando para uma platéia de senhores de escravos estadunidenses em 1712, Lynch 
consegue nos dar a dimensão do alcance efetivo dos mecanismos de controle dentro de um 
sistema de ordem fundamentalmente privada. Atentemos para um trecho de seu discurso: 
Tenho aqui em minha pasta um comprovado método de controle de 
negros escravos. Eu garanto que, se implementado corretamente, este 
método será capaz de controlar escravos por pelo menos 300 anos. Meu 
método é simples, qualquer membro da família e até o feitor pode usá-lo. 
Eu listei algumas diferenças existentes entre negros escravos e pego essas 
diferenças e as torno maiores ainda. Eu uso o medo, a desconfiança e a 
inveja como elementos de controle. Esse método tem funcionado em 
minha modesta plantação lá nas Índias do Oeste e funcionará também aqui 
no Sul. Leiam esta pequena lista de diferenças e pensem a respeito. No 
início da minha lista está a \u201cidade\u201d, mas poderia começar com outro item. 
O segundo é a \u201ccor\u201d ou \u201cgradação de cor\u201d, existe também a inteligência, a 
estatura, o sexo, o tamanho da plantação, o comportamento do senhor, se 
o escravo vive no vale ou na colina, se é do leste, do oeste, do norte ou do 
sul, se tem cabelos lisos ou crespos, ou se são altos ou baixos. Agora que 
os senhores já têm a lista das diferenças, devo enumerar-lhes algumas 
atitudes a serem tomadas, mas, antes disso, devo assegurar aos senhores 
que a desconfiança é mais forte que a confiança e a inveja é mais forte do 
que a lisonja, o respeito e a admiração. 
Os negros escravos depois de receberem essa doutrinação deverão 
incorporar-se a ela e se tornarão, eles próprios, reprodutores dela por 
centenas de anos, talvez milhares de anos. 
Não se esqueçam, os senhores devem jogar um negro velho contra um 
negro novo e um jovem escravo contra um velho escravo. Os senhores 
devem usar o escravo de pele escura contra o escravo de pele clara e o 
escravo de pele clara contra o escravo de pele escura. Deverão também os 
senhores terem os seus criados e capatazes negros, implementando a 
desconfiança entre os negros, mas é necessário que vossos escravos 
confiem e dependam de vós. Eles devem amar, respeitar e confiar 
apenas em nós. 
Cavalheiros, esse conjunto de medidas são a chave do controle, usem-nas. 
Façam com que vossas esposas e filhos também as usem, nunca percam 
uma oportunidade. Meu plano é garantido, e o bom desse plano é que se 
usado intensamente durante um ano, os próprios escravos permanecerão 
eternamente desconfiados uns dos outros. Obrigado Cavalheiros (grifos 
nossos)85. 
 
Está desenhada a tela que, pela dinâmica do controle social efetuada nos redutos 
privados que caracterizam a sociedade escravista, foi capaz de quebrar a espinha dorsal do 
 
85 LYNCH, Willie. Discursos. http://www.angonoticias.com/full_headlines.php?id=7286. Acessado em 20 de 
dezembro de 2005. 
 
segmento negro. Fisicamente ameaçados pela violência que visava seus corpos, os cativos 
contaram ainda com a edificação de um projeto de desarticulação simbólica. A partir desse 
estatuto desumanizador, que gera seres fraturados, longe do reconhecimento da humanidade 
completa em seu próprio meio, foi possível ao sistema recrutá-los como seus próprios 
algozes. Estão aí instaladas as origens dessa espécie de \u201csíndrome do capitão-do-mato\u201d que, 
atualmente materializada em toda incongruência das fardas policiais, serve à desarticulação 
do contingente, posicionando negros em lados opostos de uma luta de usufruto 
exclusivamente branco. Definitivamente Lynch ficaria orgulhoso com a justeza de suas 
palavras. 
Dessa maneira, o discurso racista que, assentado na tradição teológica, tornou viável 
o empreendimento colonial, serviu com fartura à regulamentação do sistema de controle e 
punição. A população negra foi mesmo a inspiração primeira, a razão de ser fundamental 
desse empreendimento de maculação de corpos e almas, que tinha \u201c...na morte aflitiva \u2212 
(...) seu máximo e espetaculoso patamar e na tortura o meio probatório