AnaLuizaPinheiroFlauzina
145 pág.

AnaLuizaPinheiroFlauzina


DisciplinaSociologia28.775 materiais695.483 seguidores
Pré-visualização46 páginas
processualmente 
consagrado\u201d86. Nesses termos, o sistema penal colonial-mercantilista consolidou sua 
identidade a partir do projeto que regulamenta os destinos da população negra, tendo desde 
então mudado seus contornos sem nunca perder de vista essa função primordial. Nesse 
primeiro momento, atendendo diretamente os interesses de uma elite aristocrática, o aparato 
penal foi funcional à conservação da propriedade de terras e gentes. Finalmente, 
atravessado pelos postulados racistas que presidiam o mundo colonial foi, sem dúvida, um 
dos principais instrumentos para a instauração e manutenção das assimetrias raciais no país. 
 Se as práticas ancoradas no racismo em todos os domínios da existência colonial 
são inegavelmente marca significativa dos vínculos que nos relacionam a um mundo 
ibérico que, às vésperas de nossa independência, já começa a mostrar os sinais de sua 
decadência, não serão abandonadas ao começarmos a andar de forma cambaleante por 
nossas próprias pernas. Abraçando todas as contradições do estatuto mercantil, o Império 
será o tempo da afirmação de que, para manter intactas as assimetrias raciais, acima de 
qualquer lógica ou paradoxo, tudo seria possível. Herdeiro direto do sistema colonial-
mercantilista, o sistema penal característico do Império não rompeu com o cerne do 
 
86 BATISTA, Nilo. Novas tendências do direito penal. Op. cit., p. 106. 
 
empreendimento colonial, arrastando para um país que agora responderia pelos seus atos na 
primeira pessoa, todo o ranço de um direito penal privado assentado no escravismo. Assim, 
é por dentro da trajetória de uma continuidade desoladora que em 1822, vamos ser 
apresentados ao primeiro sistema penal genuinamente brasileiro. 
 
 
2.3. SISTEMA IMPERIAL-ESCRAVISTA 
A independência do Brasil, em 1822, chega com ares de melancolia. Não, essa não é 
a palavra. Uma vez se disse que a melancolia \u201cé a felicidade de sentir-se triste\u201d e a 
felicidade não é o sentimento adequado para se descrever esse período da história nacional. 
Ao menos do ponto de vista dos que apostavam numa reorientação das relações sociais do 
país. 
O Império representa o momento da frustração de tudo o que poderíamos ter sido. 
Desvinculados do jugo que nos convertia em mero reprodutores das ordens externas, era a 
hora de rever, com alguma autonomia, os termos de nosso pacto social. Se é bem verdade 
que nossa emancipação já começava a ser tutelada por uma outra potência, que agora 
carregava um sotaque inglês, não há como negar a ambiência favorável em termos 
internacionais para a mudança do estatuto de nossas classes dominadas. 
 Nada disso foi levado em conta. Cientes que a abolição da escravatura se daria 
inevitavelmente diante de um cenário que apontava para as formas de trabalho livre como 
meio de gerar consumo, as classes dirigentes brancas adiariam-na até o último momento. 
Nesse sentido, o Império aparece como um espaço arquitetado para evitar as rupturas, 
sedimentar as continuidades e dar o sinal definitivo de que ao projeto do controle somar-se-
ia o do extermínio. Não conseguindo enxergar no segmento negro nada além de sua 
\u201cvocação\u201d para o trabalho compulsório, era preciso criar as condições para gerenciar aquele 
contingente e o inviabilizar coletivamente em termos sociais. Foi assim que, indispostos a 
viver num país com numerosa massa de seres inferiores e mais, recusando-se a com eles 
compartilhar qualquer dimensão do poder, as elites construíram o Império como forma de 
 
preparar as condições para o descarte desses indesejáveis. Em última instância, o Império 
não só assume como sofistica o projeto colonial. 
A partir dessa perspectiva, constituindo a força política de maior peso na 
sustentação do edifício imperial, os proprietários rurais legitimam a escravidão como 
instituto a ser resguardado por todo o instrumental burocrático do novo Estado. Assim, a 
Constituição de 1824 mantém a escravidão e lança expressamente para fora do espectro da 
cidadania aqueles seres com estatuto de mercadoria, confirmando a lógica de continuidade 
como a herança colonial.87 Luís Mir comenta: 
A autopreservação sempre foi a primeira obrigação humana da etnia 
dominante. Por isso, consideravam que qualquer alteração do status quo 
colonial e étnico no novo país era não só uma agressão à dominação, mas 
algo tão perigoso como uma agressão física ao seu mundo. A natureza do 
escravo e o seu lugar na nova sociedade formaram um só conjunto e 
destino. O homem tinha sido definido por Aristóteles como uma criatura 
da polis e sua história coletiva era a história do Estado. A maioria da 
população do novo país jamais seria uma criatura humana e sua histórica 
coletiva jamais seria a história do Estado.88
Se no plano prático a perenização de relações sociais racialmente delimitadas não 
trazia maiores novidades, no plano das idéias o país se debatia. Imerso na concepção 
iluminista, que pela Revolução Francesa extravasa as fronteiras européias, não se podia 
camuflar o paradoxo da convivência entre liberalismo e escravidão no Brasil. Dentro desse 
cenário, a única alternativa era viver dentro da contradição, naturalizando-a como verdade. 
Se \u201cas idéias liberais não se podiam praticar, sendo ao mesmo tempo indescartáveis\u201d89, não 
havia nada a fazer além de interpretá-las de forma funcional, convertendo-as na blindagem 
simbólica da ordem vigente. 
Somando-se a esse quadro de defasagem entre práticas e princípios, a crise 
financeira, resultado dos baixos preços do açúcar e do algodão no mercado internacional, e 
a suscetível instituição escravista, formaram o pano de fundo das revoltas populares que 
pipocaram de norte a sul do país. Assim, inundando as décadas de 30 e 40 do século XIX, 
 
87 VIEIRA JUNIOR, Ronaldo Jorge Araújo. Responsabilização objetiva do Estado. Segregação institucional 
do negro e adoção de ações afirmativas como reparação aos danos causados. Curitiba : Juruá, 2005, p. 73-74. 
88 MIR, Luís. Guerra civil : estado e trauma. São Paulo : Geração Editorial, 2004, p. 40-41. 
89 SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. 5ª ed, 2ª reimp, São Paulo : Duas Cidades, Ed 34, 2000, p. 
26. 
 
as insurreições, de Farrapos à Cabanagem, passando pela Sabinada e a Balaiada e, 
principalmente, pela revolta dos Malês \u2212 que pela união do conjunto dos escravizados no 
islã, atentava contra a ordem de maneira expressa \u2212 fizeram emergir um medo branco que 
atribuiria ao segmento negro o estatuto de inimigo inconciliável.90 É movido por esse 
caldeirão de insegurança que o projeto liberal se converterá num projeto policial91 que, 
num mantra que nunca pararia de se repetir, tem na obsessão do controle dos corpos e do 
modo de vida da população negra seu principal mote. Arquitetavam-se ainda as 
possibilidades do extermínio desse contingente que, com a inevitável abolição, se convertia 
de peça útil em estorvo pela \u201cmácula\u201d da raça. 
O Código Criminal do Império de 1830 é peça fundamental da programação 
criminalizante da época, consubstanciando o resultado direto do projeto político de 
vigilância assumido pelas elites. A primeira e mais importante constatação é de que o 
escravizado, considerado como objeto para todos os demais ramos do Direito (sobre ele 
incidiam taxas e impostos e seu seqüestro era considerado um furto) era tomado como 
pessoa frente ao Direito penal.92 Além disso, várias garantias reservadas aos cidadãos não 
se estendiam ao segmento escravizado, a exemplo da abolição das penas cruéis, tais como 
açoites, torturas e marcas de ferro, que extintas pelo inc. XIX do art. 179 da Constituição de 
1824 eram aplicáveis aos escravizados, conforme art. 60 do Código Criminal.93