AnaLuizaPinheiroFlauzina
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Na esteira 
do medo branco de uma eventual ruptura com os termos da ordem vigente, o crime de 
insurreição, previsto no art. 113 do referido instrumento legal, trazia a pena de morte para 
as lideranças.94 Por fim, vale a pena destacar, o art. 179, inserido na seara dos crimes 
particulares. Esse dispositivo, expressando toda a ambigüidade sustentada no interior da 
sociedade imperial, punia aqueles que reduzissem pessoa livre à escravidão.95 Pela 
 
90 BATISTA, Vera Malaguti. A arquitetura do medo. In : Discursos sediciosos. Crime, direito e sociedade. 
Ano 7, número 12, 2º semestre de 2002. Rio de Janeiro : ICC, Revan, 2002, p. 90-100. 
91 ZAFFARONI, E. Raúl ; BATISTA, Nilo ; ALAGIA Alejandro ; SLOKAR, Alejandro. Direito Penal 
Brasileiro.Op. cit., p. 424. 
92 BATISTA, Nilo. Novas tendências do direito penal. Op. cit., p. 111. 
93 VIEIRA JUNIOR, Ronaldo Jorge Araújo. Responsabilização objetiva do Estado. Op. cit., p. 97-98. 
94 ZAFFARONI, E. Raúl ; BATISTA, Nilo ; ALAGIA Alejandro ; SLOKAR, Alejandro. Direito Penal 
Brasileiro. Op. cit. , p. 425. 
95 VIEIRA JUNIOR, Ronaldo Jorge Araújo. Responsabilização objetiva do Estado. Op. cit., p. 98. 
 
 
operação que afastava o sentido de humanidade da população negra, era possível censurar a 
prática da escravidão, em plena vigência de um regime escravista. 
A partir desse tipo de compilação jurídica, podemos perceber que um sistema 
ancorado necessariamente no privado, pela manutenção das relações escravistas, começa a 
se deslocar em direção ao público com mais vigor. Com a intensa urbanização, e a grande 
concentração de pessoas negras nas cidades, foi indispensável arquitetar uma rede mais 
complexa de controle, agora contando com um aparato institucional mais completo. A 
capital do Império, por exemplo, em 1849, agregava \u201c... a maior concentração urbana de 
escravos existente no mundo desde o final do Império romano: 110 mil escravos para 266 
mil habitantes\u201d96. O Rio de Janeiro era, dessa maneira, uma cidade africana97. A mesma 
dinâmica poderia ser observada em praticamente todos os outros aglomerados urbanos do 
país. No dizer de Lélia Gonzalez, \u201ca rasteira está dada, o Brasil está e é africanizado\u201d98. 
Uma massa negra desgovernada, vivendo à margem da tutela, com possibilidade de se 
articular sem maiores resistências, poderia representar não só o fim de um sistema de 
exploração de mão-de-obra, mas o fim da própria hegemonia branca. Assim, era preciso 
apertar os freios, estreitar ainda mais o controle sobre os escravizados, não deixando 
escapar os libertos à engenharia do controle. É na administração desse momento explosivo 
da história que o Império concentra todas as suas energias. 
Investindo sobre essa realidade, o direito de ir e vir dos negros, escravizados ou não, 
passa a ser objeto de normas cada vez mais rígidas. No tocante ao deslocamento no interior 
do Império, as exigências em relação ao negro o comparam mesmo ao estrangeiro. O art. 1º 
do Decreto de 20 de março de 1829 determinava que os escravizados que estivessem nas 
ruas sem uma cédula devidamente assinada pelo seu senhor, seriam presos e castigados 
pelo seu proprietário99. Vê-se aí além da restrição no direito de ir e vir, a dinâmica que 
 
96 ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Vida privada e ordem privada no Império. In: Hstória da vida privada no 
Brasil. Império a corte e a modernidade nacional- volume IV. Coordenador geral da coleção : Fernando A. De 
Novais ; organizador do volume Luiz Felipe de Alencastro. São Paulo : Companhia das Letras, 1997. p.24. 
97 BATISTA, Vera Malaguti. O medo na cidade do Rio de Janeiro: dois tempos de uma história. Rio de 
Janeiro : Revan, 2003, p. 129. 
98GONZALES, Lélia apud CARNEIRO, Fernanda. Nossos passos vêm de longe. In: O livro da saúde das 
mulheres negras. Nossos passos vem de longe. Organização : Jurema Werneck, Maisa Mendonça e Evelyn C. 
White. Tradução por Maisa Mendonça, Marilena Agostini e Maria Cecília MacDowell dos Santos. Rio de 
Janeiro : Pallas, Criola, 2000, p. 26. 
99 VIEIRA JUNIOR, Ronaldo Jorge Araújo. Responsabilização objetiva do Estado. Op. cit., p. 83. 
 
imperou no ordenamento jurídico do Império, transformando os senhores de engenho em 
verdadeiros órgãos da execução penal.100 No art.3º do mesmo Decreto, os pretos forros 
deveriam solicitar passaporte junto a um Juiz de Paz ou Criminal que, a seu arbítrio, 
concederia ou não a liberação.101 Assim, vemos claramente que a condição de \u201cliberto\u201d foi 
recorrentes vezes aviltada. O controle e a suspeição, em tempos de intensa insegurança para 
uma elite branca que nunca se dispôs a ceder qualquer quinhão das estruturas de poder, 
atingiam a população negra como um todo. 
Um outro aspecto relevante a ser destacado é a vedação constitucional e 
infraconstitucional dos cultos de origem africana e das manifestações culturais próprias 
desse contingente, considerados perturbadores da ordem pública e, portanto, contrários à 
moral e aos bons costumes. Oportuno assinalar que, no Estado da Bahia, apenas em 1976 
foi autorizada a prática das religiões de matriz africana, sem a exigência de registros ou 
autorização expressa das autoridades policiais. 102 Evandro Duarte destaca as intenções 
atreladas a esse tipo de iniciativa: 
Por sua vez as normas constitucionais garantidoras da liberdade religiosa 
eram suprimidas para as populações negras, fossem elas cativas ou 
recebessem a denominação de povo. Os batuques, forma pela qual se 
manifestavam parte da cultura africana, foram reprimidos pura e 
simplesmente ou condicionados a licença de autoridade policial, figurando 
a aparente preocupação com a tranqüilidade pública. Em outras situações, 
a mera reunião de três ou quatro escravos era o suficiente para que se 
criasse uma norma proibitiva, associadas a lei a desordens. Em todas 
elas, porém, havia a disposição comum de impedir a ocupação livre 
dos espaços públicos pela população negra103 (grifo nosso). 
Assim, sob o signo da manutenção da ordem, o arcabouço jurídico foi se armando 
para gerir a movimentação da massa negra nas cidades, dizer onde e quando poderiam 
circular e professar seus cultos, que tipo de atividades lhe eram cabíveis. A proliferação de 
posturas e leis municipais regulamentando esse tipo de matéria é ilustrativa da ingerência 
do poder público sobre o cotidiano do segmento negro, como forma de delimitar os espaços 
de circulação e ocupação da cidade, bem como a ascensão social dos libertos. A Lei nº 
 
100 BATISTA, Nilo. Novas tendências do direito penal. Op. cit., p. 110. 
101 VIEIRA JUNIOR, Ronaldo Jorge Araújo. Responsabilização objetiva do Estado. Op. cit., p. 83. 
102 Idem., p. 78-79. 
103 DUARTE, Evandro Charles Piza. Criminologia e Racismo. Introdução ao processo de recepção das teorias 
criminológicas no Brasil. Dissertação de mestrado, UFSC. Florianópolis, 1998, p. 245. 
 
1.030 de 1876 da Câmara Municipal de São João do Monte Negro, por exemplo, vedava 
aos escravos vender ou administrar nas casas públicas de negócio, configurando uma 
restrição no acesso a certos postos no mercado de trabalho. Nessa mesma lei, havia uma 
vedação expressa aos escravos de serem proprietários de imóveis, sendo multada a pessoa 
que vendesse o local104. A Câmara Municipal de Santo Amaro, pela Lei nº 1.420 de 1883, 
controlava a circulação dos escravos, prendendo por doze horas, aqueles que estivessem nas 
ruas após o toque de recolher sem a devida autorização de seus senhores105. Por fim, a Lei 
nº 454 de 1860 da Câmara Municipal de Alegrete, vedava aos escravos viverem longe do 
jugo de seus senhores dentro das cidades e seus subúrbios, sem a devida autorização da 
autoridade