AnaLuizaPinheiroFlauzina
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ao controle de negros e brancos nesse período. Para os brancos, a 
censura materializada na criminalização está relacionada a um espaço de falta de 
interiorização da disciplina fabril e à indisciplina política, enquanto para os negros a 
interdição está estampada nos corpos, no potencial desarticulador que está gravado na 
imagem do segmento. 
Desta sorte, as postulações penais que visavam a interiorização da disciplina nos 
termos pautados pelas classes dirigentes, tais como a punição às greves organizadas pela 
massa trabalhadora superexplorada e as que pretendiam sepultar as possibilidades de um 
questionamento da estrutura social e do regime político, a exemplo das interdições impostas 
ao anarquismo, tinham como endereço preferencial o proletariado branco. Com a franca 
abertura do mercado de trabalho para esse segmento, que começava a se articular buscando 
melhores condições de vida, era preciso construir mecanismos capazes de conter as 
demandas e conformar os indivíduos à precariedade das relações trabalhistas. Com isso não 
estamos querendo diminuir a participação negra nesses movimentos e muito menos cogitar 
da não incidência dessas formulações sobre o segmento, mas atentar para o fato de que, há 
um pano de fundo de interdição às filiações políticas direcionado à ralé branca que anima 
essa produção legislativa. Em suma, a manutenção da ordem também conduziu as 
estruturas do controle na direção do setor branco proletário que deveria se integrar ao 
sistema produtivo sem produzir os ruídos da contestação. 
Quando posicionamos o foco na direção do segmento negro, uma premissa 
completamente diversa orienta a pauta criminalizadora. O controle desse setor não passa 
somente pelos arroubos das opções políticas de enfrentamento da ordem, mas está centrado 
no grau de periculosidade investido em sua própria constituição física. Como sinaliza Suely 
Carneiro, \u201ca matéria punível é a própria racialidade negra. Então, os atos infracionais dos 
negros são a conseqüência esperada e promovida da substância do crime que é a 
 
negritude\u201d136. Nesse sentido, a legislação que investe sobre os vadios, mendigos e 
vagabundos, por exemplo, serve a uma vigilância que se posiciona frente à massa negra 
urbana de forma a cercear sua movimentação espacial, evitar as associações, estirpar as 
possibilidades de qualquer ensaio de reação coletiva. Para além do patrulhamento 
ideológico, o que se busca é trazer para o labor esses seres indóceis, otimizar seu tempo 
entre a casa e o trabalho, diminuir os intervalos inúteis da vagabundagem. Tudo isso a 
cargo da truculência do controle penal. 
Atentando especificamente para o Rio de Janeiro, então capital do país, podemos 
perceber de forma clara os efeitos desse tipo de investida. Afinal, a apropriação do espaço 
urbano pela população negra se dava de maneira cada vez mais intensa, há ponto de se 
projetar para esse segmento \u201cuma cidade própria, possuidora de suas próprias 
racionalidades e movimentos\u201d137. Dentro de um cenário em que a indistinção entre libertos 
e cativos fazia desse reduto um esconderijo privilegiado, os velhos receios das elites 
dirigentes de eclosão de uma revolta negra só poderiam redundar numa incrementação dos 
instrumentos de controle, a partir da suspeição generalizada sobre o segmento. Nas palavras 
de Sidney Chalhoub: 
o meio urbano escondia cada vez mais a condição social dos negros, 
dificultando a distinção entre escravos, libertos e pretos livres e diluindo 
paulatinamente uma política de domínio onde as redes de relações 
pessoais entre senhores e escravos, ou amos e criados, ou patrões e 
dependentes, podiam identificar prontamente as pessoas e seus 
movimentos. Por outro lado, a cidade que escondia ensejava aos poucos a 
construção da cidade que desconfiava, e que para desconfiar transformava 
todos os negros em suspeitos.138
A arquitetura punitiva republicana desse primeiro período, que visa 
fundamentalmente a incorporação da massa urbana e dos espólios do escravismo no campo 
ao projeto de desenvolvimento industrial e produtivo, carrega, portanto, uma dimensão 
racial de base. Se a ocupação da mão-de-obra é o pano de fundo, a disciplina dos 
trabalhadores brancos estará vinculada a uma tentativa de estabilização e acomodação da 
 
136 CARNEIRO, Suely. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. Tese de doutorado, 
São Paulo, 2005, p. 129. 
137 CHALHOUB, Sidney. Medo branco de almas negras : escravos libertos e republicanos na cidade do Rio. 
In : Discursos Sediciosos. Crime, direito e sociedade. Ano nº1, 1º semestre de 1996. Rio de Janeiro : Instituto 
Carioca de Criminologia, Relume Dumará, p. 172. 
138 Idem, p. 175. 
 
vida proletária, enquanto sobre o segmento negro incide um controle que almeja, além de 
garantir a mão-de-obra necessária para o projeto modernizador, resguardar a cor do poder, 
tolher qualquer esperança de uma equalização advinda do fim do processo escravista, 
definir, enfim, o espaço de subserviência a ser ocupado pela massa negra nesses novos 
tempos. Desde esse primeiro momento, portanto, as disposições do sistema punitivo 
republicano assumiram um controle diferencial para lidar com as especificidades dos 
grupos a serem gerenciados. 
Dentro dessa perspectiva, o papel cumprido pelas agências do controle secundário, 
notadamente a polícia, é de fundamental importância. Tendo a Primeira República lançado 
mão de penas de natureza proscritiva na punição de seus delinqüentes, que vão do degredo 
de capoeiras à expulsão de imigrantes, passando pela retirada em massa dos rebelados, na 
famosa Revolta da Vacina, será por dentro das medidas institucionalizantes que veremos a 
proximidade que progressivamente se estabelece entre a nascente criminologia brasileira e 
as práticas policiais139. 
Os ensinamentos da criminologia positivista, com os ranços do racismo expresso na 
obra de nomes de peso, como o de Nina Rodrigues e Afrânio Peixoto, serão incorporados 
pedagogicamente nas práticas institucionais dos asilos, das penitenciárias, dos abrigos de 
menores, nos manicômios e da polícia. Nesse sentido, se \u201ca par da criminalização, o 
sistema penal da primeira República aprimora na vigilância\u201d140, o faz por meio de um 
aparelho policial que está sendo treinado por uma cartilha que coleciona discriminações. A 
disciplina \u201cHistória Natural dos Malfeitores\u201d lecionada na academia de polícia, que, dentre 
outras coisas, procurava dar conta da classificação dos criminosos, dá uma boa dimensão 
dos espaços de penetração da criminologia dentro do sistema penal141. 
 Dessa maneira, é pelo fundamento de elaborações de uma criminologia racista, que 
enxerga o segmento negro pela sua inferioridade e periculosidade, que se dá a 
sobrevivência dos suplícios e das arbitrariedades nas alcovas do sistema penal. Se no 
passado escravocrata era possível à criminalização primária punir expressamente negros e 
 
139 ZAFFARONI, E. Raúl ; BATISTA, Nilo ; ALAGIA Alejandro ; SLOKAR, Alejandro. Direito Penal 
Brasileiro. Op. cit., p. 458. 
140Ibidem. 
141Ibidem. 
 
brancos de forma diferenciada, agora com a abolição é preciso, não prescindindo da 
manipulação do ordenamento jurídico, avançar ainda mais fortemente sobre os outros 
níveis de controle. Saindo expressamente das leis, a assimetria teria de ser garantida nas 
ruas. Esse será então o cenário da discriminação por excelência. Daí a porosidade, a 
aceitação da criminologia positivista como grande suporte teórico do treinamento policial. 
Se \u201co chicote sobreviveu nos subterrâneos do sistema penal\u201d142, foi graças ao aporte do 
racismo que, por meio da criminologia, construiu uma prática