AnaLuizaPinheiroFlauzina
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AnaLuizaPinheiroFlauzina


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morte, chegando às 
práticas de esterilização que procuram evitar a reprodução da vida do segmento 
populacional, a verdade é que essa é uma definição que se adequa perfeitamente à nossa 
realidade. No Brasil, o institucional tem sido mesmo um espaço privilegiado para a 
consecução de um projeto que se dá tanto por uma via ativa, em que todo o instrumental 
está voltado para a materialização do extermínio, quanto pelos sofisticados mecanismos da 
omissão, que deixam perecer aos montes os indivíduos a serem descartados. 
Percebe-se, portanto, que a apropriação da categoria genocídio para se retratar a 
realidade brasileira é incontestavelmente devida no que se refere às práticas levadas a cabo 
para a eliminação do contingente negro. Ou seja, não há o que se discutir quanto a 
aplicação do conceito quando o foco está direcionado para os efeitos das ações 
institucionais. 
O que se pode levantar como objeção à esse tipo de retratação do conflito racial no 
Brasil está relacionado a uma espécie de \u201cvício de vontade\u201d na condução da pauta de 
extermínio. Dentro dessa linha argumentativa, não haveria uma intenção precípua do 
Estado em orientar seu instrumental na produção do genocídio. Em suma, sem um projeto 
declarado não haveria como se caracterizar o genocídio. 
 
Tratando-se especificamente da realidade brasileira, há uma incongruência de fundo 
inscrita nesse tipo de percepção. A dinâmica assumida pelo Estado, desde uma 
movimentação pautada pelo biopoder, assume discursivamente a arena dos conflitos sociais 
a partir da classe em detrimento da raça, conforme pontuamos anteriormente. No país, esse 
tipo de metodologia é levado às últimas consequências com a assunção da democracia 
racial como instrumento de dominação. E o fundamento dessa estratégia, sabemos, passou 
justamente em tornar implícitas as investidas institucionais pautadas pelo racismo. Nessa 
arquitetura das omissões, a censura nunca esteve colocada para as práticas, mas para a 
explicitação do que está a animá-las. 
Nesse sentido, negar a existência de um projeto de Estado voltado para a eliminação 
da população negra pela falta de explicitação, é desconhecer a lógica de funcionamento 
assumida pelo Estado brasileiro desde a abolição da escravatura. Uma lógica que pretende 
desconectar a atuação institucional genocida da agenda política que a preside. Um processo 
que visa desvincular os efeitos das práticas discriminatórias de suas causas, como forma de 
resguardar o papel \u201ccordial\u201d reservado ao Estado brasileiro no que tange à matéria racial. 
Reclamar por uma declaração expressa da atuação institucional genocida no país é, 
portanto, desconsiderar que, numa relação extremamente complexa, essa agenda tem nos 
processos de ocultação ensejados pela democracia racial, um de seus principais 
sustentáculos. 
Dentro dessa dinâmica, a forma como o genocídio se processa no país, afasta-se dos 
moldes convencionais com que se tem compreendido essa categoria. A partir de uma leitura 
pela via da criminalização, a responsabilidade está posta de maneira difusa. Aqui, o 
genocídio está nas bases de um projeto de Estado assumido desde a abolição da 
escravatura, com o qual nunca se rompera efetivamente. A agenda genocida é recepcionada 
pelos sucessivos governos que assumiram a condução do país desde então, sem que se 
alterassem os termos desse pacto. Daí a grande dificuldade em se ter acesso ao projeto: ele 
não é episódico, mas estrutural. De acordo com Luís Mir: 
A metodologia de dominação dos indo-europeus e seus aliados manteve-
se inalterada nestes cinco séculos sem dependência do regime ou forma de 
governo, enfrentando crises mais ou menos graves e prolongadas, mas que 
afetavam especialmente, e tão-somente, o esqueleto econômico e social 
 
das outras etnias. A abolição da velha ordem étnica só será possível 
quebrando-se o domínio e as vontades particulares que encontram uma 
cultura própria e segura nos círculos fechados da etnia dominadora. 
Nesses ambientes é que a guerra civil é proclamada e clamada como o 
único remédio purificador contra os inferiores que atormentam este país 
há séculos. Os efeitos decisivos propiciados pela guerra são a supremacia 
incontestável da etnia dominante, sendo o maior a supressão de um pacto 
obrigatório de composição étnico e social entre nós236. 
Desta feita, tendo em vista o fato do genocídio estar vinculado a uma agenda de 
base e não incidental, a reparação, entendida como o conjunto de medidas que venham a ser 
assumidas para a superação das assimetrias raciais no país, é uma alternativa à 
criminalização. Esse tipo de processo está, entretanto, atrelado a uma revisão dos termos do 
pacto racial brasileiro, não se esgotando com medidas pontuais. Como sinaliza Carlos 
Alberto Reis de Paula trata-se de uma \u201c... política ordenada e sistemática para o negro\u201d237, 
que deve substituir a pauta genocida que vem animando a reprodução das assimetrias 
estruturais e, principalmente, produzindo a eliminação em massa da população negra no 
país. 
E se não fosse esse embrulho no estômago que a democracia racial nos impôs, como 
mal-estar obrigatório toda vez que tentássemos tocar no assunto, se não fosse mesmo o 
nome Brasil que estivesse na lacuna ao lado da realidade que o representa, poderíamos 
reconhecer o genocídio com todas as evidências e os diagnósticos que, há muito, já estão 
dados. É interessante observar como do ponto de vista da resistência negra, o genocídio está 
há muito reconhecido, da publicação expressa da obra de Abdias do Nascimento, O 
genocídio do negro brasileiro, em 1976, à recente campanha \u201cReaja ou será morta Reaja ou 
será morto\u201d238, surgida nas ruas de Salvador em 2004. Os dados que se avolumam em torno 
dos indicadores sociais das população negra e a movimentação do aparato institicional 
permitem, portanto, a constatação dessa realidade. O que queremos assinalar é que nesse 
genocídio, obviamente, não faltam ilustrações, apenas enunciados. O esforço, nesse sentido, 
não está em provar sua existência material, fartamente diagnosticável, mas em superar os 
obstáculos políticos que impedem seu reconhecimento. 
 
236 MIR, Luís. Guerra civil. Op. cit., p. 42. 
237 REIS DE PAULA, Carlos Alberto. Entrevista. IN: Jornal do Sindjus. Ano XIII, nº19, nov/2004, p. 13. 
238 A esse respeito ver : Calasans, Fábia. Salvador : campanha estimula reação ao extermínio. In : IROHIN, 
Brasília, ano X, nº10, abr./mai. 2005, p. 24-25. 
 
Nesse sentido, há ao menos duas dimensões que devem ser levadas em conta no que 
tange ao reconhecimento dessa realidade. Em primeiro lugar, é preciso ter em mente a 
barreira erguida no plano internacional quanto à assunção efetiva desse tipo de prática 
contra as populações negras de todo o mundo. A necessidade de se cunhar a categoria 
genocídio e de criminalizá-lo surge como um apelo recente, ligado essencialmente \u201cà 
experiência do holocausto judaico na Segunda Guerra Mundia e do seu impacto sobre a 
consciência mundial\u201d239. As interdições à matança generalizada de determinados 
segmentos, nesse sentido, não estão fundamentalmente relacionada a sua ocorrência em si \u2212 
tendo em vista a tolerância histórica com tantas tragédias a exemplo das vivenciadas pelos 
povos indígenas e africanos \u2212 mas aos setores a quem se dirigem os processos de 
eliminação. Nesses termos, pontua Zaffaroni: \u201ca Europa se apavorou quando Hitler aplicou 
as práticas genocidas européias aos próprios europeus, mas se houvesse aplicado aos 
africanos ou aos índios americanos, quem sabe hoje teríamos monumentos, como os têm a 
rainha Vitória e os monarcas espanhóis e portugueses\u201d240. Há, portanto, um diferencial 
simbólico de peso, em que o racismo novamente aparece