AnaLuizaPinheiroFlauzina
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como variável substantiva, que 
tende a hierarquizar as tragédias, valorizando os episódios centrais ligados aos povos 
brancos e desprestigiando os eventos relacionados aos demais segmentos. 
Além disso, cabe ressaltar, a resistência à penetração no imaginário dos genocídos 
empreendidos contra as populações negras conta ainda com fatores de ordem econômica. 
Sendo considerado um crime imprescritível, os processos de genocídio que se 
consubstanciaram a partir do imperialismo, colonialismo e da escravidão negra, abrem as 
frestas para o reclame de reparações, a exemplo do que fora alcançado pelo povo judeu. 
Diante dessa possibilidade, que poderia redundar num perdão da dívida externa de vários 
países africanos e dos que estão na rota da diáspora negra, percebe-se claramente uma 
tentativa de hegemonização do imaginário mundial pela tragédia judaica, que é revivida e 
cautelosamente recuperada em grandes produções cinematográficas, na literatura, nos 
depoimentos veiculados que não devem se perder. Não se trata apenas de assumir o 
genocídio judaico em todas as suas proporções como um dos trágicos momentos 
 
239 Enciclopédia de Guerras e Revoluções do século XX: as grandes transformações do mundo 
contemporâneo. Francisco Carlos Teixeira da Silva (organizador). Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. 354. 
240 ZAFFARONI, Eugênio Raúl. Críminologia: aproximación desde un margen. Colômbia: Temis, 1998, p. 66 
 
colecionados pela história da humanidade, mas de instrumentalizá-lo, elevando-o à 
condição de único episódio efetivamente reprovável, mais esssencialmente intolerante, 
como forma de inviabilizar o reconhecimento de tantas outros eventos da mesma ordem241. 
Assim sendo, há uma ambiência internacional extremamente desfavorável para a 
enunciação de práticas genocidas contra povos negros, que inegavelmente, coloca-se como 
um obstáculo político à assunção desse empreendimento no Brasil. 
A outra dimensão a ser considerada se relaciona, obviamente, com a resistência 
interna que esse tipo de elaboração suscita. A blindagem erguida em torno das instituições e 
que impregna o imaginário nacional mostra, nesse tocante, toda a sua força. As práticas de 
um genocídio de números expressivos são suavizadas dentro de um discurso que nos 
promete o compartilhamento das tragédias entre todos. A democracia racial nos ensina que 
as imagens e as sensações que cercam o cotidiano do segmento negro são dados de um 
processo histórico a ser redimido. Impele-nos a agir com naturalidade diante da evidência 
de que há um recorte racial de fundo nas bases de todos os enclaves da exclusão no Brasil. 
E mesmo com todos os ataques que esse mecanismo ideológico tem sofrido, principalmente 
após o fim dos regimes segregacionistas estadunidense e sul-africano, que sepultaram um 
tempo em que podíamos ir a público condenar a subjugação de outros negros enquanto 
seguíamos aniquilando os nossos em segredo, mesmo com o fim desses saudosos tempos, a 
verdade é que os abalos sofridos pela democracia racial não foram suficientes para que essa 
deixasse de produzir seus principais efeitos. De fato, mesmo a contragosto, ainda estamos 
seguindo a velha cartiha de boas maneiras que nos ensina a ver, mas enxergar o mínimo, 
ouvir pouco e nunca confessar acerca da matéria racial. 
À ruptura desse tipo de lógica, que aposta na manutenção das assimetrias raciais, a 
criminologia, segundo acreditamos pode dar uma contribuição fundamental. A partir de um 
arsenal teórico que tomou o sistema penal como objeto de análise em toda sua 
complexidade, está aberta a fresta mais acessível para que se possa criticar o projeto de 
Estado que investe no genocídio da população negra. Não sendo o único aporte de todo esse 
empreendimento, o sistema penal é, sem dúvida, o caminho mais viável para sua 
 
241 Enciclopédia de Guerras e Revoluções do século XX: as grandes transformações do mundo 
contemporâneo. Francisco Carlos Teixeira da Silva (organizador). Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. 355-356. 
 
enunciação, pelo resultado mais evidente e visível de suas práticas. Assim, incorporando a 
variável racismo de forma estrutural em suas interpretações, a criminologia, a partir do 
paradigma da reação social e do aporte crítico, se torna um instrumento de peso na 
demolição definitiva do escudo que resguarda o institucional desse tipo de constatação. 
Pode-se, enfim, divulgar os motivos que tornam o preço da carne negra tão irrisório dentro 
do mercado nacional. 
 
3.3. O ATALHO DA CRIMINOLOGIA 
Conforme apontamos anteriormente, a blindagem erguida em torno do institucional 
como forma de preservar a inscrição do racismo em suas práticas, não pôde resguardar por 
completo o empreendimento penal. Em virtude de os efeitos da violência nesse âmbito 
específico estarem vinculados à porção mais visível do acesso à corporalidade negra, na 
suspeição e abordagens incisivas, no encarceramento desproporcional e, principalmente, na 
promoção de mortes abruptas, os dados do racismo estão dispostos de maneira mais 
evidente. 
Diante de tal cenário, a criminologia crítica no Brasil poderia cumprir um papel 
estratégico. Dizemos que \u201cpoderia\u201d porque os trabalhos, em grande medida ainda 
comprometidos com o mito da democracia racial, não se apropriaram de maneira 
substantiva das relações existentes entre racismo e sistema penal. O que percebemos é que 
se têm concentrado os esforços de análise nas assimetrias reproduzidas pelo aparato de 
controle penal a partir das categorias classe e, mais recentemente e ainda de maneira tímida, 
gênero, secundarizando-se a categoria raça. Ou seja, há uma preocupação que está para 
além de diagnosticar a incidência das variáveis classe e gênero na atuação do sistema penal, 
visando-se a uma elaboração teórica que dê conta de toda a complexidade de suas 
associações com o aparato criminal, diferentemente da variável raça, que acaba sendo 
tomada de forma tangencial e ilustrativa. 
Diante de tal tendência, é importante tercermos algumas considerações. De 
imediato, a exemplo do que é sustentado no caso da necessidade de se observar a categoria 
gênero, a desconsideração da raça enquanto instrumento de análise acaba por não levar em 
 
conta a criminalização e o controle específico que incide sobre a população negra, o que 
exclui quase metade da população do país. Conseqüentemente, como no caso das mulheres, 
essa negligência \u201cobstaculiza o conhecimento e a compreensão da conduta delitiva e do 
controle social geral\u201d242. 
Além disso, ainda nessa linha, tanto racismo como patriarcalismo são sistemas de 
opressão que antecedem e se distinguem da opressão classista, devendo ser analisados de 
maneira específica. Operando de maneira particular na sujeição dos indivíduos, essas 
variáveis, portanto, devem ser observadas desde um ângulo próprio, que situe sua conexão 
peculiar com o sistema penal. Se é bem verdade que, como sistema subsidiário das funções 
do controle social informal, o aparato criminal tem funcionado como um regulador da mão-
de-obra e do consumo, posicionando sob o espectro da criminalização os segmentos que 
não se adequam à lógica de mercado, servindo, nesse sentido, aos propósitos classistas, há 
que se compreender que mesmo essas relações são condicionadas pelo sexismo e o 
racismo.243 
No que tange à primeira variável, a divisão sexual do trabalho tem sido apontada 
como um dos reflexos fundamentais da moldura que o patriarcalismo imprimiu nas relações 
capitalistas de produção. Já o racismo está intimamente relacionado aos processos de 
hierarquização da força de trabalho, converendo-se, nessa maneira, no pilar de justificação