AnaLuizaPinheiroFlauzina
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ativo e dinâmico do masculino no espaço público.246 Corroborando com 
essa composição simbólica engendrada na estrutura social, o sistema penal tem conduzido a 
mulher fundamentalmente ao papel de vítima, como pontua Vera Andrade: 
O Sistema de Justiça Criminal funciona então como um mecanismo 
público integrativo do controle informal feminino, reforçando o controle 
patriarcal (a estrutura e o simbolismo de gênero), ao criminalizar a mulher 
em algumas situações específicas e, soberanamente, ao reconduzi-la ao 
lugar de vítima, ou seja, mantendo a coisa em seu lugar passivo.247
Como momento privilegiado da vitimização feminina, ou melhor, como chave 
central no controle das mulheres, a regulamentação travestida em resguardo da sexualidade, 
ocupa lugar de destaque. Assim, a violência sexual, notadamente o estupro, é tomado pelo 
sistema penal como bem jurídico privilegiado no que tange à proteção dos interesses 
femininos. Tendo em vista a grande incidência de violações dessa natureza dentro do 
privado, tem-se considerado que a violência sexual é, em grande medida, uma forma de 
 
246 ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A soberania patriarcal: o sistema de justiça criminal no tratamento da 
violência sexual contra a mulher. Op. cit., p. 274.
247 Idem, p. 278-279.
 
violência doméstica248. O espaço privado passa a ser, assim, visto como o ambiente 
reservado para controlar, mas também punir as mulheres249. Dentro dessa perspectiva, o 
estupro passou a ser concebido como o resultado da violência estrutural, em que mais do 
que as pretensas pulsões sexuais de homens descontrolados, o que está em jogo são as 
relações de poder inscritas no sistema patriarcal, ou seja, \u201co estupro, então, é um ato 
pseudo-sexual, um padrão de comportamento sexual que se ocupa muito mais com o status, 
agressão, controle e domínio do que com o prazer sexual ou a satisfação sexual. Ele é 
comportamento sexual a serviço de necessidades não sexuais\u201d250. 
Mas como do ponto de vista do controle penal, a vitimização é também distribuída 
de forma seletiva, a exemplo do que ocorre com a criminalização masculina, o 
processamento dos crimes sexuais acaba assumindo um caráter de julgamento das 
biografias de vítimas e autores. Nesse sentido, dentro do que Vera Andrade chama de 
\u201clógica da honestidade\u201d, o sistema penal vai aferir a possibilidade de uma mulher ser 
acessada como vítima a partir de sua reputação sexual, seguindo os estereótipos cunhados 
no imaginário251. Vera Andrade comenta: 
o julgamento de um crime sexual \u2212 inclusive e especialmente o estupro \u2212 
não é uma arena onde se procede ao reconhecimento de uma violência e 
violação da liberdade sexual feminina nem tampouco onde se julga um 
homem pelo seu ato. Trata-se de uma arena onde se julgam 
simultaneamente, confrontados numa fortíssima correlação de forças, a 
pessoa do autor e da vítima : o seu comportamento, a sua vida pregressa. 
E onde está em jogo, para a mulher, a sua inteira \u2018reputação sexual\u2019 que é 
\u2013 ao lado do status familiar \u2212 uma variável tão decisiva para o 
reconhecimento da vitimização sexual feminina quanto a variável status 
social o é para a criminalização masculina.252
Nesses termos, afastando-se da conduta e selecionando autores e vítimas a partir dos 
estereótipos que os inserem nos moldes de alvos do resguardo ou da punição no âmbito do 
controle social penal, o que o sistema pretende com uma perseguição tão alardeada e 
distorcida desse tipo de prática está, em verdade, relacionado não à garantia da liberdade 
 
248 ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A soberania patriarcal: o sistema de justiça criminal no tratamento da 
violência sexual contra a mulher. Op. cit., p. 285.
249 Idem, p. 278.
250 KOLODNY, Robert. C. ; MASTERS, William H. ; JOHNSON, Virginia E. Apud ANDRADE, Vera 
Regina Pereira de. A soberania patriarcal: o sistema de justiça criminal no tratamento da violência sexual 
contra a mulher. Op. cit., p. 286.
251 Idem, p. 279-283.
252 ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Sistema Penal Máximo x Cidadania Mínima. Op. cit., p.98-99.
 
sexual da vítima, mas à conservação da família e consequentemente dos bens por ela 
acumulados, conforme mais uma vez esclarece Vera Andrade: 
A sexualidade feminina referida ao coito vaginal diz respeito à 
reprodução. E a função reprodutora (dentro do casamento) se encontra 
protegida sob a forma da sexualidade honesta, que é precisamente a 
sexualidade monogâmica (da mulher comprometida com o casamento, a 
constituição da família e a reprodução legítima), de modo que protegendo-
a, mediante a proteção seletiva da mulher honesta, se protege, latente e 
diretamente, a unidade familiar e, indiretamente, a unidade sucessória (o 
direito de família e sucessões) que, em última instância, mantém a 
unidade da própria classe burguesa no capitalismo.253
Tendo em vista esse cenário, o sistema penal tem sido considerado como um espaço 
impróprio para a resolução dos conflitos de gênero, na medida em que sob o discurso da 
proteção, especialmente da liberdade sexual, acaba por duplicar a vitimização feminina. 
Assim, a partir da cultura machista que o preside, o aparato criminal reproduz a violência 
na seleção de vítimas, reforçando os estereótipos que as catalogam e consequentemente 
dividem, além de não dar uma resposta efetiva ao ato infracional praticado.254 
Esse arsenal teórico, que tem consubstanciado uma importante contribuição para 
que se possa acessar efetivamente a complexidade das relações existentes entre o sistema 
penal e o patriarcalismo tem, entretanto, sido construído a partir de bases feministas que 
não trabalham a diversidade das mulheres, limitando o alcance das formulações propostas. 
De uma maneira geral, o movimento de mulheres negras questiona a validade de um 
feminismo de bases eurocêntricas como instrumento inviável para dar conta das 
especificidades que alcançam o segmento. É preciso, segundo esse entendimento, 
enegrescer o feminismo, introjetando nas pautas gerais as demandas particulares de um 
agrupamento que considera o aspecto racial como o elemento primeiro para a alavancada 
dos processos emancipatórios255, na medida em que, como sentencia Lélia Gonzalez, \u201ca 
 
253 ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A soberania patriarcal: o sistema de justiça criminal no tratamento da 
violência sexual contra a mulher. Op. cit., p. 288. 
254 ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Sistema Penal Máximo x Cidadania Mínima.Op. cit., p.119-120. 
255 CARNEIRO, Suely. O papel do movimento feminista na luta anti-racista. IN: História do negro no Brasil : 
o negro na sociedade brasilerira. Organização : Kabengele Munanga. Brasília : Fundação Cultural Palmares, 
CNPQ, 2004, p. 309. 
 
tomada de consciência da opressão ocorre, antes de tudo, pelo racial \u201d256. Suely Carneiro 
comenta essa questão: 
Ao politizar as desigualdades de gênero, o feminismo transforma as 
mulheres em novos sujeitos políticos. Essa condição faz com que esses 
sujeitos assumam, a partir do lugar em que estão inseridos, diversos 
olhares que desencadeiam processos particulares subjacentes na luta de 
cada grupo particular. Ou seja, grupos de mulheres indígenas e grupos de 
mulheres negras, por exemplo, possuem demandas específicas que, 
essencialmente, não podem ser tratadas, exclusivamente, sob a rubrica da 
questão de gênero, se esta não levar em conta as especificidades que 
definem o ser mulher neste e naquele caso. Essas lógicas particulares vêm 
exigindo, paulatinamente, práticas igualmente diversas que ampliem a 
concepção e o protagonismo feminista na sociedade brasileira, 
salvaguardando as especificidades. Isso é o que determina o fato de o 
controle ao racismo