AnaLuizaPinheiroFlauzina
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AnaLuizaPinheiroFlauzina


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ser uma prioridade política para as mulheres 
negras...257
 Assim, aliando a perspectiva racial ao que fora traçado como plataforma de atuação 
do sistema penal para as mulheres, podemos vislumbrar algumas condiciontes específicas. 
Em primeiro lugar, a elaboração que pretende sustentar a vitimização feminina pelo 
controle social penal, exclusivamente a partir dos argumentos da fragilidade e da 
passividade, não dialoga com a realidade das mulheres negras brasileiras. Se é bem verdade 
que o privado, como espaço da virtude, foi eleito como arena para o controle feminino em 
geral, para esse segmento específico de mulheres, os apelos do público sempre estiveram 
presentes durante toda a trajetória histórica, servindo necessariamente como um outro 
domínio de vigilância e cerceamento. Além disso, também são de se levar em conta os 
estigmas que acompanham as mulheres negras, afastam-na da concepção imaculada, dentro 
de um padrão estético que associa beleza e honra com branquitude, interpretando a 
negritude feminina como lasciva e promíscua. Suely Carneiro novamente se pronuncia a 
esse respeito: 
Quando falamos em mito da fragilidade feminina, que justificou 
historicamente a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, de 
que mulheres estamos falando ? Nós, mulheres negras, fazemos parte de 
um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca 
reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas 
como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que 
trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, 
 
256 GONZALES, Lélia apud BAIRROS, Luiza. Lembrando Lélia Gonzalez. Op. cit., p. 56.
257 CARNEIRO, Suely. O papel do movimento feminista na luta anti-racista. Op. cit., p. 309.
 
como vendedoras, quituteiras, prostitutas... Mulheres que não entenderam 
nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as 
ruas e trabalhar ! Fazemos parte de um contingente de mulheres com 
identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de 
senhores de engenho tarados. Hoje, empregadas domésticas de mulheres 
liberadas e dondocas, ou de mulatas tipo exportação. Quanto falamos em 
romper o mito da rainha do lar, da musa idolatrada dos poetas, de que 
mulheres estamos falando ? As mulheres negras fazem parte de um 
contingente de mulheres que não são rainhas de nada, que são retratadas 
como antimusas da sociedade brasileira porque o modelo estético da 
mulher é a mulher branca.258
 Dentro dessa perspectiva, podemos inferir que, a exemplo do que ocorre com os 
homens e numa proporção muito menor, as ingerências do sistema penal quanto à 
criminalização feminina também foram historicamente formatadas para o controle das 
mulheres negras. Circulando pelo espaço público antes e com muito mais intensidade do 
que as mulheres brancas, as negras teriam de ser controladas de perto nesse ambiente, que, 
paradoxalmente, não lhes era próprio pela sua condição feminina. Ou seja, o processo de 
desumanização imposto às mulheres negras pelo racismo solapa as possibilidades de se 
reconhecer nesse segmento os atributos típicos da feminilidade, o que abre espaço para que 
à pena privada que lhes é imposta somem-se também as marcas da pública. Os níveis de 
criminalização de mulheres, que começam a crescer de maneira preocupante, atingem, 
nesses termos, as negras em especial, por serem elas também o alvo preferencial de um 
sistema condicionado pelo patriarcalismo e o racismo. 
Além disso, no que tange à violência sexual, os estereótipos que situam as mulheres 
negras fora do crivo do que é tomado por honestidade contribuem certamente para que as 
violações às vítimas desse segmento sejam mais facilmente desconsideradas. Dentro dessa 
seara não podemos esquecer a naturalização histórica que se procedeu quanto a carga de 
violência agregada às violações sexuais a esse contingente de mulheres. A prestação de 
favores sexuais sempre foi tomada como parte de uma rotina de obrigações das negras que 
da casa grande se transferiu para as dependências de empregada. Gilberto Freyre, em seu 
tão festejado Casa Grande e Senzala nos dá uma mostra da forma como desenhou esse tipo 
de estereótipo para as mulheres negras: 
 
258 CARNEIRO, Suely. Enegrescer o feminismo : a situação da mulher negra na América Latina a partir de 
uma persepctiva de gênero. In : Racismos contemporâneos. Rio de Janeiro : Takano, 2003, p. 50. 
 
...o que sempre se apreciou foi o menino que cedo estivesse metido com 
raparigas. Raparigueiro, como ainda hoje se diz. Fermeeiro. Deflorador de 
mocinhas. E que não tardasse em emprenhar negras, aumentando o 
rebanho e o capital paternos. 
... O que a negra da senzala fez foi facilitar a depravação com a sua 
docilidade de escrava, . abrindo as pernas ao primeiro desejo do senhor. 
Desejo não, ordem. 
... Superexcitados sexuais foram antes estes senhores que as suas negras 
ou mulatas passivas. Mas nem eles: o ambiente de intoxicação sexual 
criou-o para todos o sistema econômico da monocultura e do trabalho 
escravo, em aliança secreta com o clima. 259
Esse tipo de interpretação que suaviza os efeitos da violência sobre as mulheres 
negras e retira a culpabilidade dos senhores é fórmula sedimentada no imaginário nacional, 
dificultando a esse contingente o acesso à condição de vítimas potenciais de violências de 
caráter sexual. Ademais, todo o campo semântico que circunda a imagem da mulher negra 
está fortemente associado à sexualidade, conforme podemos perceber neste instigante 
trecho de Lélia Gonzalez: 
Não faz muito tempo que a gente estava conversando com outras 
mulheres, num papo sobre a situação da mulher no Brasil. Foi aí que uma 
delas contou uma história muito reveladora, que complementa o que a 
gente já sabe sobre a vida sexual da rapaziada branca até não faz muito 
tempo : iniciação e prática com crioulas. (...) Quando chegava a hora do 
casamento com a pura, frágil e inocente virgem branca, na hora da tal 
noite de núpcias, a rapaziada simplesmente brochava. Já imaginaram o 
vexame ? E onde é que estava o remédio providencial que permitia a 
consumação das bodas ? Bastava o nubente cheirar uma roupa de crioula 
que tivesse sido usada, para logo \u2018apresentar os documentos\u2019. E a gente 
ficou pensando nessa prática, tão comum nos intramuros da casa grande, 
da utilização desse santo remédio chamado catinga de crioula (depois 
deslocado para cheiro do corpo ou simplesmente cc).260 
Estamos diante de uma imagem de feminino completamente avessa à resguardada 
pelo sistema penal, com seus códigos de honestidade e pureza. Afinal, uma mulher que 
carrega em si a fonte de tanta excitação masculina só pode ser entendida como partícipe do 
crime sexual, nunca como sua vítima. A mulher negra é, portanto, a antimusa de um 
sistema penal que, atravessado pelo racismo e patriarcalismo, está muito mais a serviço da 
legitimação desse tipo de violência do que contra a sua materialização. Tendo em vista a 
existência das basic rules, que, como já sinalizamos, servem como um repertório que 
 
259 FREYRE, Gilberto. Casa grande e senzala. Rio de Janeiro e São Paulo: Record, 2001, p. 425. 
260 GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: Ciências Sociais hoje, nº2. Movimentos 
sociais urbanos, minorias étnicas e outros estudos. Brasília : CNPQ, Anpocs, 1983, p. 234. 
 
influencia em grande medida a atuação de todas as agências do sistema penal, alcançando 
inevitavelmente o Judiciário, a imagem comprometedora das mulheres negras, sedimentada 
no imaginário nacional, define de maneira definitiva seu acesso ao aparato penal, sendo 
empurrada